{"id":151,"date":"2015-04-26T01:40:00","date_gmt":"2015-04-26T04:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/visto_lido_e_ouvido-111\/"},"modified":"2016-05-13T19:31:12","modified_gmt":"2016-05-13T22:31:12","slug":"visto_lido_e_ouvido-111","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/visto_lido_e_ouvido-111\/","title":{"rendered":"VISTO, LIDO E OUVIDO"},"content":{"rendered":"<p>   circecunha@gmail.com;   <a href=\"mailto:arigcunha@ig.com.br\">   arigcunha@ig.com.br&nbsp;&nbsp; <\/a> <\/p>\n<p>Jeans <\/p>\n<p>quer justi\u00e7a <\/p>\n<p>Que \u00e9 isso, companheiro? Me barrar no tribunal s\u00f3 porque sou jeans? Pera l\u00e1! Eu escondi o joelho de muita gente importante! Gente trabalhadora e tida como trabalhadora. Escondi o joelho de intelectuais tamb\u00e9m. Por falar nisso, nunca mais vi ningu\u00e9m daquela \u00e9poca.Vivia no meio do povo. Andando no poeir\u00e3o brabo. Chegando a todos os confins desse Brasilz\u00e3o de meuDeus. Conheci gente das palafitas e dos barracos no morro. Conheci gente da China, da R\u00fassia, de Cuba, da Pol\u00f4nia e de outros pa\u00edses interessantes. Conheci gente que n\u00e3o parecia gente. E muita gente boa tamb\u00e9m. Viajei com esse povo pra cima e pra baixo. Na mala, todo tipo de jeans.  <\/p>\n<p>Acho que quem se movimenta mais prefere tecido que dure mais tempo limpo, pega no pesado, amassa pouco, esquenta quando precisa e esfria no calor. Jeans n\u00e3o \u00e9 um tecido qualquer. Nasceu no ambiente da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Serviu a for\u00e7a motriz. Foi aparecendo devagarinho. S\u00f3 gente que trabalhava muito gostava da gente. Tenho orgulho de ser jeans. Cor bonita. <\/p>\n<p>Cor do c\u00e9u. Agora, como tudo o que \u00e9 moderno, precisei me adaptar. Posso ser pr\u00e9-lavado, preto, branco, amarelo, vermelho, da cor de todas as ra\u00e7as. Estou pelo mundo. Meu valor \u00e9 t\u00e3o grande que as madames me compram at\u00e9 rasgado. \u00c9 jeito pregui\u00e7oso de alcan\u00e7ar mais r\u00e1pido aqueles que o rasgaram de verdade porque estavam no batente. Se pudesse ter um carro, teria o adesivo: \u201cOrgulho de ser jeans\u201d. Ou, ent\u00e3o: \u201cSou jeans, n\u00e3o esmore\u00e7o nunca\u201d.  <\/p>\n<p>Quando me passam pra frente, \u00e9 porque n\u00e3o aguentam mais. Mas de cal\u00e7a viro bermuda; de bermuda, short; de short, saia, bolsa e porta-l\u00e1pis. Quem me tem me adora. Quem me adora n\u00e3o me assume! Por isso acho que foi falta de respeito me barrarem na mais alta corte do pa\u00eds. S\u00f3 porque sou jeans? Pe\u00e7a indument\u00e1ria de 97,3% da popula\u00e7\u00e3o brasileira! Represento o caboclo, o pe\u00e3o, o trabalhador rural. Represento os estudantes. Represento o partido que est\u00e1 sendo julgado neste momento! Na primeira conven\u00e7\u00e3o do PT s\u00f3 tinha jeans! Ningu\u00e9m foi barrado! V\u00e1 \u00e0s feiras. Todos os joelhos cobertos por jeans, nas universidades, nas ruas movimentadas das metr\u00f3poles. Jeans, jeans, jeans. <\/p>\n<p>Me barraram. Isso vou precisar de um tempo para perdoar. Mesmo porque o filho de quem me barrou estava no cinema usando jeans. Respeito n\u00e3o se faz pelo pano que cobre a pele. Ta\u00ed no que deu aqueles que tinham ideologia: convenceram os filiados do partido de que&nbsp; n\u00e3o precisava ter medo de ser feliz. Foi s\u00f3 tirar o jeans que tudo degringolou. Foi s\u00f3 me trocarem pela gravata que perderam o ju\u00edzo, a raiz, a verdade.  <\/p>\n<p>Preferiram os tecidos que cobrem o joelho de quem foi picado pela mosca azul. De quem se vende, de quem quer se dar bem a qualquer custo. De quem esbravejava nos discursos contra o que \u00e9 hoje. Blue como o jeans. \u00cdndigo. Indigno. Indignado. \u00c9 assim que est\u00e1 o povo brasileiro. N\u00e3o por causa do jeans que foi barrado. Mas por causa de quem esteve um dia dentro de um jeans. Cal\u00e7a jeans. Umcorte supremo. A tev\u00ea transmitia tudo. O jeans na telinha, misturado com traje social, n\u00e3o combinava. <\/p>\n<p>Social. Aquilo que pressup\u00f5e rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, sociabilidade, modo de ser, de estar, de agir e de se manifestar. Quer algo mais social que o jeans? Em uma roda de chope, passeando pelo parque, viajando, ou em protestos e passeatas. Eu era feliz e n\u00e3o sabia. Eu nunca tive medo de ser feliz. Comia poeira, passava horas em reuni\u00f5es infinitas. Ouvia o povo falando errado e achava bonito. Povo de verdade. Aquele da m\u00e3o grossa, cheia de calos. Gostava tamb\u00e9m do povo com calo na cabe\u00e7a. Que usava \u00f3culos fundo de garrafa. Acreditava que um mundo melhor seria poss\u00edvel. Seria poss\u00edvel o social. <\/p>\n<p>Deixar os pobres menos pobres. Acabar com a fome. Mas, c\u00e1 entre n\u00f3s, muitas dessas ideias nasceram tamb\u00e9m por quem n\u00e3o gostava de jeans. A diferen\u00e7a \u00e9 que uns queriam se dar bem, outros queriam que todos se dessem bem. Agora, n\u00e3o. Tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o que interessa. Jeans est\u00e1 fora do que \u00e9 justi\u00e7a porque ela n\u00e3o gosta de jeans. Interessante que o assunto tratado no STF \u00e9 a \u00e9tica. A vergonha na cara. Tenho certeza de que eu era o que menos interessava ali. Estava enganado.  <\/p>\n<p>A Justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 cega coisa nenhuma. Justi\u00e7a que escolhe a roupa do povo \u00e9 porque enxerga sim. E muito bem. Conhe\u00e7o muita gente que, por baixo dos panos, n\u00e3o \u00e9 nada do que parece ser. A roupa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante quanto a pele. Por baixo da pele \u00e9 que se esconde um cora\u00e7\u00e3o, um pensamento, um f\u00edgado. Por vestir jeans e blusa branca, a ex-senadora Heloisa Helena foi barrada v\u00e1rias vezes no Senado. Aqueles que usam jeans quando est\u00e3o em casa aprenderam a julgar as pessoas pelas roupas. \u00c9 por essas e outras que os ladr\u00f5es preferem terno e gravata. Assustam menos, passam por onde querem e roubam sem ser molestados. J\u00e1 que enxerga, abra o olho e fa\u00e7a justi\u00e7a! <\/p>\n<p>(Publicada em 19 de agosto de 2012.) <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>circecunha@gmail.com; arigcunha@ig.com.br&nbsp;&nbsp; Jeans quer justi\u00e7a Que \u00e9 isso, companheiro? Me barrar no tribunal s\u00f3 porque sou jeans? Pera l\u00e1! Eu escondi o joelho de muita gente importante! Gente trabalhadora e tida como trabalhadora. Escondi o joelho de intelectuais tamb\u00e9m. Por falar nisso, nunca mais vi ningu\u00e9m daquela \u00e9poca.Vivia no meio do povo. Andando no poeir\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-151","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-integra-integra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=151"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7840,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151\/revisions\/7840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}