{"id":18756,"date":"2021-03-13T01:01:17","date_gmt":"2021-03-13T04:01:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=18756"},"modified":"2021-03-12T22:35:04","modified_gmt":"2021-03-13T01:35:04","slug":"um-novo-mundo-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/um-novo-mundo-novo\/","title":{"rendered":"Um novo mundo novo"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Desde 1960, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p>jornalistacircecunha@gmail.com<\/p>\n<p>Facebook.com\/vistolidoeouvido<\/p>\n<p>Instagram.com\/vistolidoeouvido<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18758\" aria-describedby=\"caption-attachment-18758\" style=\"width: 676px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-18758\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/03\/crise.jpg\" alt=\"\" width=\"676\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/03\/crise.jpg 747w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/03\/crise-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/03\/crise-550x365.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/03\/crise-230x153.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 676px) 100vw, 676px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-18758\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Anton Petrus\/Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: medium\">Possivelmente, estamos assistindo o parto dolorido de um novo mundo, mas, para isso, ser\u00e1 preciso que o velho ceda lugar ao que vem pela frente. Para os historiadores, n\u00e3o h\u00e1 surpresas nesse fen\u00f4meno, o mundo existe entre uma s\u00edstole e uma di\u00e1stole e isso n\u00e3o pode ser alterado; faz parte da roda gigantesca que move todos. Para alguns gurus da economia, estamos no pre\u00e2mbulo final do que seria o capitalismo tradicional, com a instala\u00e7\u00e3o de uma nova ordem, talvez mais centrada em aspectos como a igualdade, o compartilhamento, a reciclagem, o reaproveitamento, a redu\u00e7\u00e3o do consumo e outras formas de produ\u00e7\u00e3o que, ao menos, minore o processo de esgotamento dos recursos naturais.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: medium\">Nesse processo de mudan\u00e7as gerais, at\u00e9 mesmo as grandes cidades sentir\u00e3o os efeitos de uma nova \u00e9poca, sendo esvaziadas, com a possibilidade de um retorno das pessoas aos campos e a uma vida mais comunit\u00e1ria. N\u00e3o se trata aqui de previs\u00f5es feitas numa bola de cristal, anunciando um novo e regerado mundo. O que parece vir pela frente n\u00e3o deixa alternativas. Para alguns cientistas pol\u00edticos, nessas mudan\u00e7as, at\u00e9 mesmo o grande leviat\u00e3, representado pelo Estado onipresente e opressor, perder\u00e1 muito de seu antigo prest\u00edgio, assim como boa parte da classe pol\u00edtica e dirigente atual que, ali\u00e1s, j\u00e1 vinha tendo muito de seu prest\u00edgio posto por terra, em muitas partes do mundo ocidental.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: medium\">A descren\u00e7a no Estado, na classe pol\u00edtica e no capitalismo talvez seja a mudan\u00e7a que mais se far\u00e1 sentir doravante, com reflexos ainda incertos para todos. Vivemos o que fil\u00f3sofos como o italiano Franco Berardi chama de \u201cepidemia de solid\u00e3o\u201d. \u00c9 na solid\u00e3o que o homem \u00e9 capaz de refletir plenamente sobre si. Para Bernardi, o v\u00edrus produziu, no corpo estressado da humanidade, uma esp\u00e9cie de fixa\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica, que foi capaz de deter o funcionamento abstrato da economia. Para esse fil\u00f3sofo e professor da Academia Brera, em Mil\u00e3o, autor de livros como \u201cFuturabilidade\u201d, \u201cFenomenologia do Fim\u201d, \u201cF\u00e1brica da Infelicidade\u201d e outros, o isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19 for\u00e7ou, como h\u00e1 milhares de anos vem acontecendo, a humanidade, na figura dos fil\u00f3sofos, a compreender, conceber e organizar o pensamento coletivo.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: medium\">Esse \u00e9, para os que pensam o mundo, uma grande possibilidade de transformar esses fen\u00f4menos em conceitos que iluminar\u00e3o novos caminhos. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso, antes de tudo, acreditar que existe uma sa\u00edda \u00e9tica, pol\u00edtica e cient\u00edfica da atual crise, que poder\u00e1 ser gerada pela pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Ou \u00e9 isso, ou ser\u00e1 a barb\u00e1rie e a extin\u00e7\u00e3o, como muitos pregam por a\u00ed. Talvez, o imprevisto subverta os planos do inevit\u00e1vel. Para ele, a miss\u00e3o da filosofia \u00e9 imaginar o imprevis\u00edvel, produzi-lo, provoc\u00e1-lo e organiz\u00e1-lo. Mas \u00e9 no campo econ\u00f4mico onde o fil\u00f3sofo enxerga as mudan\u00e7as mais profundas, com um poss\u00edvel colapso do que chama de \u201cn\u00f3s estruturais\u201d, com consequ\u00eancias s\u00e9rias para a demanda, para o consumo, e com um per\u00edodo de defla\u00e7\u00e3o pela frente de longo prazo, o que, por sua vez, provocar\u00e1 uma crise tamb\u00e9m na produ\u00e7\u00e3o, com reflexos diretos no desemprego.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: medium\">Segundo acredita, mais do que uma simples depress\u00e3o, poder\u00e1 haver o fim do modelo capitalista, com a implos\u00e3o de uma s\u00e9rie de conceitos e estruturas que mant\u00eam as sociedades unidas. Isso n\u00e3o quer dizer que haver\u00e1 ainda, por um certo per\u00edodo, um grande fortalecimento das empresas digitais, o que poder\u00e1 estimular um certo controle tecno-totalit\u00e1rio por partes de alguns governos. H\u00e1 no horizonte, segundo pensa Berardi, uma bolha econ\u00f4mica no sistema financeiro que pode vir a estourar tamb\u00e9m. Todas essas mudan\u00e7as, a seu ver, provocar\u00e3o um caos jamais visto, virando o mundo de cabe\u00e7a para baixo.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: medium\">Mas \u00e9 no caos que o fil\u00f3sofo enxerga a prolifera\u00e7\u00e3o de comunidades aut\u00f4nomas, com experimentos igualit\u00e1rios de sobreviv\u00eancia. O pr\u00f3prio planeta, por seu est\u00e1gio de deteriora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o permite mais o prolongamento do atual modelo capitalista de consumo. \u201cO crescimento, diz, n\u00e3o retornar\u00e1 amanh\u00e3 ou nunca.\u201d As consequ\u00eancias do v\u00edrus n\u00e3o se faz sentir apenas no seu \u00e2mbito de sa\u00fade da economia, mas se transformou numa esp\u00e9cie de doen\u00e7a psicol\u00f3gica e mental, que afeta, principalmente, a esperan\u00e7a no futuro. E isso, pondera, nos obrigar\u00e1 a imaginar novas formas de vida p\u00f3s-economia, mais aut\u00f4noma, centrada na autoprodu\u00e7\u00e3o do necess\u00e1rio, na autodefesa, inclusive armada.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: medium\">A rapidez e complexidade dos eventos atuais s\u00e3o, na sua concep\u00e7\u00e3o, fortes demais para que haja uma elabora\u00e7\u00e3o emocional e consciente de tudo que se forma \u00e0 nossa volta. O v\u00edrus, acredita ele, \u00e9 uma entidade invis\u00edvel e ingovern\u00e1vel e o mundo parece se desfazer debaixo de nossos p\u00e9s, sem que possamos fazer nada a respeito de forma imediata e definitiva. O mais s\u00e9rio parece ser a possibilidade de a vacina n\u00e3o decretar o fim da pandemia. Na impossibilidade de determos, a contento, as s\u00e9rias consequ\u00eancias de um mundo p\u00f3s-pandemia, o que parece ser mais efetivo \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de redes comunit\u00e1rias aut\u00f4nomas que n\u00e3o se firmem em conceitos como o lucro e a acumula\u00e7\u00e3o, mas baseada em h\u00e1bitos de sobreviv\u00eancia mais frugais.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: medium\">Nesse ponto, o fil\u00f3sofo diz n\u00e3o acreditar em solu\u00e7\u00f5es de longo prazo. N\u00e3o h\u00e1 tempo para isso. O mais sintom\u00e1tico \u00e9 que as elites pol\u00edticas, todas elas, n\u00e3o possuem capacidade de apresentar solu\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para o problema. A pol\u00edtica, como um todo, tornou-se impotente diante de um colapso de tal magnitude. Sentencia. Nesse instante a pol\u00edtica tornou-se um jogo sem raz\u00e3o, sem conhecimento. As solu\u00e7\u00f5es que podem apresentar, nesse momento, s\u00e3o, em sua vis\u00e3o, derivadas da raiva pela constata\u00e7\u00e3o da impot\u00eancia diante da realidade. Ainda assim, a pandemia, diz, marca uma ruptura antropol\u00f3gica de profundidade abissal, justamente pela proibi\u00e7\u00e3o de contatos mais \u00edntimos. Trata-se aqui de uma epidemia de solid\u00e3o que parece decretar a morte at\u00e9 da solidariedade. \u00c9 uma verdadeira bomba at\u00f4mica sobre nossas cabe\u00e7as, acredita Franco Berardi.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif\"><span style=\"font-size: medium\">O mais afetado ser\u00e1, sem d\u00favida, o consciente coletivo, atrav\u00e9s do que chama de sensibiliza\u00e7\u00e3o f\u00f3bica, com o inconsciente de todos, capturado de forma abrupta.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada por Ari Cunha (In memoriam) Desde 1960, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com Facebook.com\/vistolidoeouvido Instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; Possivelmente, estamos assistindo o parto dolorido de um novo mundo, mas, para isso, ser\u00e1 preciso que o velho ceda lugar ao que vem pela frente. 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