{"id":22917,"date":"2023-04-20T01:00:49","date_gmt":"2023-04-20T04:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=22917"},"modified":"2023-04-20T14:40:08","modified_gmt":"2023-04-20T17:40:08","slug":"e-o-resto-joga-com-habilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/e-o-resto-joga-com-habilidade\/","title":{"rendered":"E o resto joga com habilidade"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p>jornalistacircecunha@gmail.com<\/p>\n<p>facebook.com\/vistolidoeouvido<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_22919\" aria-describedby=\"caption-attachment-22919\" style=\"width: 567px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-22919\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/sophia.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"376\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/sophia.png 930w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/sophia-300x199.png 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/sophia-768x510.png 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/sophia-800x531.png 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/sophia-550x365.png 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/sophia-230x153.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-22919\" class=\"wp-caption-text\">Sophia de Mello Breyner Andresen. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Em abril do pr\u00f3ximo ano, Portugal estar\u00e1 comemorando meio s\u00e9culo da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos. Trata-se de uma data da maior signific\u00e2ncia para aquele pequeno, mas laborioso, pa\u00eds do outro lado do oceano. A partir daquela data, terminava a longa ditadura de Salazar, que, desde 1926, mantivera Portugal apartado do resto da Europa, como um velho e esquecido pa\u00eds, naquela esquina do continente, deixado \u00e0 pr\u00f3pria sorte, desde o fim da Segunda Grande Guerra.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Mais importante do que o fim de uma das \u00faltimas ditaduras ainda resistentes da Europa, a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos abriu caminho para a inser\u00e7\u00e3o lenta e definitiva de Portugal ao resto do continente. Isso durante a longa noite em que o regime salazarista controlou o pa\u00eds, que parecia mergulhado numa esp\u00e9cie de sono ou transe profundo, alheio ao que se passava ao redor do mundo e mesmo indiferente ao destino do continente, que sempre o havia empurrado e espremido contra o mar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Somente aqueles que l\u00e1 viveram nesse per\u00edodo podiam sentir os tremores provocados por um vulc\u00e3o que, a qualquer momento, amea\u00e7ava explodir com tudo. Havia, onde o pensamento trabalha, um surdo protesto que logo passou a ganhar f\u00f4lego entre artistas e os mais letrados. A m\u00fasica e poesia eram as artes que mais se engajavam num movimento que buscava sacudir a poeira antiga, acabando com as persegui\u00e7\u00f5es \u00e0s oposi\u00e7\u00f5es e a todos aqueles que discordavam do velho sistema.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Imposs\u00edvel mencionar aqui todo ou mesmo parte do imenso e poderoso repert\u00f3rio art\u00edstico em m\u00fasica e poesia, produzidos naquele per\u00edodo, e que inspiravam a todos a buscarem uma sa\u00edda para o longo fechamento pol\u00edtico de Portugal e sua exclus\u00e3o do mundo moderno. A censura do Estado Novo n\u00e3o se envergonhava de confiscar obras, livros e quaisquer trabalhos art\u00edsticos que contivessem cr\u00edticas ao governo. Tamb\u00e9m n\u00e3o se fazia titubeante na hora de prender e mesmo calar os artistas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No fundo e mesmo inconscientemente, o governo antevia, como um mau aug\u00fario, que seria por obra e gra\u00e7a \u00e0s a\u00e7\u00f5es de poetas e m\u00fasicos, e n\u00e3o das armas, que viriam as for\u00e7as capazes de apear-lhe do poder. A for\u00e7a da palavra. Dentre os muitos artistas que combateram o bom combate contra a ditadura, merece destaque aqui, como representante dessa tropa l\u00edrica, a obra magn\u00edfica de Sophia de Mello Breyner Andersen (1919-2004). Como membro ativo da Comiss\u00e3o Nacional de Socorro aos Presos Pol\u00edticos, Sophia, j\u00e1 nos anos quarenta, escreveria o poema \u201cCom f\u00faria e raiva\u201d: \u201cCom f\u00faria e raiva acuso o demagogo \/ E o seu capitalismo das palavras \/ [\u2026] \/Com f\u00faria e raiva acuso o demagogo \/ Que se promove \u00e0 sombra da palavra \/ E da palavra faz poder e jogo \/ E transforma as palavras em moeda \/ Como se faz com o trigo e com a terra.\u201d No poema \u201cO Velho Abutre\u201d, a poetisa diz, sem meias palavras: \u201cO velho abutre \u00e9 s\u00e1bio e alisa suas penas \/ A podrid\u00e3o lhe agrada e seus discursos \/ T\u00eam o dom de tornar as almas mais pequena.\u201d<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tamb\u00e9m no poema \u201cData\u201d, Sophia declara: \u201cTempo de covardia e tempo de ira \/ Tempo de mascarada e de mentira \/ Tempo que mata quem o denuncia \/ Tempo de escravid\u00e3o \/ Tempo dos coniventes sem cadastro \/ Tempo de sil\u00eancio e de morda\u00e7a \/ Tempo onde o sangue n\u00e3o tem rastro, \/ Tempo de amea\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0No poema \u201cPranto pelo dia de hoje\u201d, Sophia denunciava o sumi\u00e7o de pessoas, das mortes que deixavam rastros. \u201cNunca choraremos bastante quando vemos \/ Que quem ousa lutar \u00e9 destru\u00eddo \/ Por tro\u00e7as por ins\u00eddias por venenos \/ E por outras maneiras que sabemos \/ T\u00e3o s\u00e1bias t\u00e3o subtis e t\u00e3o peritas \/ Que nem podem sequer ser bem descritas.\u201d<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mesmo diante da torpeza daquela realidade e da dificuldade imensa em traduzir e conciliar a beleza l\u00edrica com os dias trevosos que assistia, a poetisa n\u00e3o se detinha. No poema &#8220;<em>Nesta hora&#8221;,<\/em>\u00a0ela acusava: \u201cNesta hora limpa da verdade \u00e9 preciso dizer a verdade toda \/ Mesmo \u00e0quela hora que \u00e9 impopular neste dia em que se invoca o povo \/ Pois \u00e9 preciso que o povo regresse de seu ex\u00edlio \/ E lhe seja proposta uma verdade inteira e n\u00e3o meia verdade \/ Meia verdade \u00e9 como habitar meio quarto \/ Ganhar meio sal\u00e1rio \/ Como s\u00f3 ter dinheiro \/ A metade da vida \/ O demagogo diz da verdade a metade \/ E o resto joga com habilidade \/ Porque pensa que o povo s\u00f3 pensa metade \/ Porque pensa que o povo n\u00e3o percebe nem sabe \/ A verdade n\u00e3o \u00e9 uma especialidade \/ Para especializados cl\u00e9rigos letrados \/N\u00e3o basta gritar povo \u00e9 preciso expor.\u201d<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o poemas de uma for\u00e7a a denunciar um tempo de afli\u00e7\u00e3o, mas que que serviam de alento para aqueles que lutavam por liberdade. A revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos de 1974 serviria ainda como um exemplo e uma li\u00e7\u00e3o a ser seguida, ajudando outros pa\u00edses a se libertarem do jugo ditatorial, como Espanha, em 1975, e o pr\u00f3prio Brasil, em 1985.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><em>\u201cOs mais perigosos inimigos n\u00e3o s\u00e3o aqueles que te odiaram desde sempre. Quem mais deves temer s\u00e3o os que, durante um tempo, estiveram pr\u00f3ximos e por ti se sentiram fascinados.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Mia Couto<\/p>\n<figure id=\"attachment_21833\" aria-describedby=\"caption-attachment-21833\" style=\"width: 543px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-21833\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/09\/mia.png\" alt=\"\" width=\"543\" height=\"306\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/09\/mia.png 1020w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/09\/mia-300x169.png 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/09\/mia-768x433.png 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/09\/mia-800x451.png 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/09\/mia-550x310.png 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/09\/mia-230x130.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 543px) 100vw, 543px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-21833\" class=\"wp-caption-text\">Mia Couto. Foto: AFP PHOTO\/FRANCOIS GUILLOT<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>Musical<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">J\u00e1 est\u00e3o \u00e0 venda, pelo Sympla, os ingressos para o Musical\u00a0<strong><em>Os Miser\u00e1veis,\u00a0<\/em><\/strong>que ser\u00e1 apresentado na Escola de M\u00fasica, nos dias 24 e 25 de junho, com sess\u00f5es \u00e0s 17h e 20h. A produ\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9 de Renata Dourado; preparador vocal, Gustavo Rocha; diretor de cena, Vittor Borges; assistente de produ\u00e7\u00e3o, \u00c9rika Kallina; e regente, Rafael de Abreu Ribeiro. A apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 da Cia de Cantores L\u00edricos de Bras\u00edlia e \u00c1quila Records.<\/p>\n<figure id=\"attachment_22912\" aria-describedby=\"caption-attachment-22912\" style=\"width: 445px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-22912\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/miser.png\" alt=\"\" width=\"445\" height=\"632\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/miser.png 437w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/miser-211x300.png 211w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2023\/04\/miser-230x326.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-22912\" class=\"wp-caption-text\">Cartaz: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Est\u00e1, assim, funcionando, o pombal da pra\u00e7a dos Tr\u00eas Pod\u00eares, que consistia na grande inspira\u00e7\u00e3o de d. Elo\u00e1 Quadros. <strong>(Publicada em 18.03.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Em abril do pr\u00f3ximo ano, Portugal estar\u00e1 comemorando meio s\u00e9culo da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos. 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