{"id":25898,"date":"2025-05-28T01:00:07","date_gmt":"2025-05-28T04:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=25898"},"modified":"2025-05-28T13:57:48","modified_gmt":"2025-05-28T16:57:48","slug":"direito-ao-sono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/direito-ao-sono\/","title":{"rendered":"Direito ao sono"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_25908\" aria-describedby=\"caption-attachment-25908\" style=\"width: 565px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-25908\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/c\u00e3o.png\" alt=\"\" width=\"565\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/c\u00e3o.png 874w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/c\u00e3o-300x170.png 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/c\u00e3o-768x435.png 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/c\u00e3o-800x453.png 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/c\u00e3o-550x311.png 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/c\u00e3o-230x130.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 565px) 100vw, 565px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-25908\" class=\"wp-caption-text\">Foto: reprodu\u00e7\u00e3o da internet<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O projeto modernista de tra\u00e7os leves e horizontes abertos foi, pouco a pouco, coberto por uma sinfonia dissonante de latidos que n\u00e3o cessam \u2014 nem de dia, nem de noite. As casas, muitas delas antes silenciosas e integradas \u00e0 paisagem verde do Cerrado, converteram-se em pequenas fortalezas sonoras, onde os verdadeiros senhores do territ\u00f3rio n\u00e3o s\u00e3o os moradores, mas seus c\u00e3es. Os animais ocupam varandas, quintais, lajes e, com frequ\u00eancia, tamb\u00e9m a rua, numa esp\u00e9cie de dom\u00ednio ac\u00fastico irrestrito.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, \u00e9 evidente, de uma cr\u00edtica \u00e0 exist\u00eancia canina. Trata-se de uma cr\u00edtica \u00e0 irresponsabilidade. O problema n\u00e3o \u00e9 o animal, mas o humano por tr\u00e1s da coleira. O cachorro late, uiva, reclama, sofre, pede aten\u00e7\u00e3o, denuncia abandono. E o dono, indiferente, silencia. Ou melhor, silencia para si, porque os vizinhos que lutem com o ru\u00eddo incessante, nas madrugadas interrompidas, nos dias de trabalho invadidos por uma barulheira cont\u00ednua que mina a paz, a paci\u00eancia e, em casos extremos, a sanidade. N\u00e3o tratamos aqui dos simp\u00e1ticos c\u00e3es que latem porque passa uma pessoa ou porque o caminh\u00e3o de lixo atravessa a rua. Falamos dos neur\u00f3ticos abandonados em casa.<\/p>\n<p>O mais impressionante \u00e9 que o fen\u00f4meno n\u00e3o distingue classe social. Dos bairros populares \u00e0s regi\u00f5es nobres \u2014 como o Lago Sul e o Lago Norte, autointitulados basti\u00f5es do bom viver \u2014, o problema se repete. Cachorros isolados em quintais extensos, latindo por horas, ignorados por fam\u00edlias inteiras que parecem ter desenvolvido uma forma avan\u00e7ada de audi\u00e7\u00e3o seletiva. Tal como certos pais que n\u00e3o mais ouvem os gritos dos pr\u00f3prios filhos mimados em restaurantes ou avi\u00f5es, os donos de c\u00e3es perderam a sensibilidade auditiva \u2014 ou simplesmente deixaram de se importar com o desconforto alheio.<\/p>\n<p>Em muitos casos, o c\u00e3o, que era apenas um educado animal de guarda ou de fazenda, agora \u00e9 promovido a filho substituto, herdeiro emocional de adultos solit\u00e1rios ou casais tardios. Em bairros de classe m\u00e9dia e alta, esse fen\u00f4meno se manifesta com ainda mais intensidade: casas enormes, quintais ociosos e v\u00ednculos familiares rarefeitos demandam presen\u00e7a, e os c\u00e3es \u2014 muitos, barulhentos, mimados \u2014 preenchem esse vazio com latidos que, se por um lado, quebram o sil\u00eancio da solid\u00e3o; por outro, os imp\u00f5em aos vizinhos. Trata-se, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de um sintoma moderno: o animal torna-se companhia afetiva, mas a coletividade paga o pre\u00e7o da aus\u00eancia de limites, como numa met\u00e1fora viva da sociedade que prefere substituir o conflito pela acomoda\u00e7\u00e3o ruidosa.<\/p>\n<p>Essa normaliza\u00e7\u00e3o do inc\u00f4modo \u00e9 um sintoma. Um sintoma de uma cidade que foi sendo ocupada por uma cultura de permissividade ego\u00edsta, onde a liberdade de um termina n\u00e3o quando come\u00e7a a do outro, mas quando o outro se cansa de reclamar. Reclamar, ali\u00e1s, \u00e9 in\u00fatil. Quem ousa faz\u00ea-lo, invariavelmente, recebe de volta um olhar de surpresa e desd\u00e9m, como se apontar o \u00f3bvio \u2014 que o cachorro do vizinho est\u00e1 latindo sem parar desde \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3 \u2014 fosse um ato de agress\u00e3o. \u201cMas ele \u00e9 t\u00e3o bonzinho&#8230;\u201d, dizem, como se a do\u00e7ura do animal anulasse o dano ac\u00fastico causado por sua solid\u00e3o vocalizada. T\u00e3o simples contratar algu\u00e9m para educar o c\u00e3o. Mas esse \u00e9 um caso raro.<\/p>\n<p>O problema central, como em tantos outros aspectos da vida p\u00fablica brasileira, \u00e9 a aus\u00eancia de responsabiliza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 leis, h\u00e1 regulamentos, h\u00e1 c\u00f3digos de postura municipal, todos solenemente ignorados. A fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 rara, a den\u00fancia \u00e9 burocr\u00e1tica, a puni\u00e7\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel. A cidade acostumou-se a conviver com o barulho como se fosse parte do clima, como a seca ou o calor de setembro. E o pior: h\u00e1 quem considere normal. Como tudo que se repete sem freio, o anormal vira h\u00e1bito.<\/p>\n<p>O sujeito que se incomoda com o latido n\u00e3o pode reclamar: ser\u00e1 visto como autorit\u00e1rio, insens\u00edvel, ou pior, como \u201cantipet friendly\u201d. J\u00e1 o dono do c\u00e3o se arroga o direito de ser intoc\u00e1vel, ainda que seu animal transforme a madrugada em supl\u00edcio coletivo. No fundo, trata-se da mesma l\u00f3gica que permite ao pol\u00edtico furar fila no hospital, ao juiz exigir tratamento privilegiado no aeroporto ou ao empres\u00e1rio fechar a rua para a festa do filho: uma convic\u00e7\u00e3o enraizada de que o espa\u00e7o p\u00fablico existe apenas para servir \u00e0 vontade do indiv\u00edduo mais assertivo \u2014 ou mais barulhento. O latido, nesse contexto, \u00e9 apenas o som ambiente de uma cultura em que o privil\u00e9gio fala alto, e a responsabilidade, quase sempre, cala.<\/p>\n<p>O que se observa, portanto, \u00e9 um tipo de degrada\u00e7\u00e3o do conv\u00edvio urbano que escapa \u00e0 an\u00e1lise imediata. \u00c9 uma desorganiza\u00e7\u00e3o moral antes de ser uma desordem pr\u00e1tica. Porque o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas o direito ao sil\u00eancio, mas a capacidade de reconhecer que viver em sociedade imp\u00f5e limites \u2014 inclusive aos afetos. Amar um animal n\u00e3o justifica submet\u00ea-lo ao isolamento nem permite ignorar os efeitos colaterais de sua presen\u00e7a ruidosa. O problema n\u00e3o s\u00e3o os cachorros: \u00e9 a neglig\u00eancia travestida de afeto, \u00e9 a falta de empatia travestida de liberdade.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia se transforma n\u00e3o por excesso de c\u00e3es, mas por escassez de civilidade. A cidade que nasceu para ser vitrine de um pa\u00eds moderno tornou-se, nesse aspecto, a caricatura do que h\u00e1 de mais arcaico: um espa\u00e7o onde cada um faz o que quer dentro de seu lote, sem prestar contas ao entorno. Como se o muro bastasse para conter o som, a lei, o inc\u00f4modo. E como sempre, o que falta n\u00e3o \u00e9 norma \u2014 \u00e9 aplica\u00e7\u00e3o. A paz urbana, como a democracia, exige vigil\u00e2ncia constante. E, no caso dos c\u00e3es, talvez um pouco de bom senso e considera\u00e7\u00e3o faria um grande efeito. Porque ningu\u00e9m deveria precisar lutar pelo direito de dormir em sil\u00eancio na pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>\u201cO maior medo que os c\u00e3es t\u00eam\u00a0<\/em><em>\u00e9 o medo de que voc\u00ea n\u00e3o volte\u00a0<\/em><em>quando sair de casa sem eles.\u201d<\/em><br \/>\nStanley Coren , psic\u00f3logo canino<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nAfora isto, deve-se procurar saber quem fez o pichamento, porque ser\u00e3o, certamente, pessoas que n\u00e3o desejam a perman\u00eancia do sr. Sette C\u00e2mara na Prefeitura por motivos que ningu\u00e9m sabe. <strong>(Publicada em 4\/5\/1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; O projeto modernista de tra\u00e7os leves e horizontes abertos foi, pouco a pouco, coberto por uma sinfonia dissonante de latidos que n\u00e3o cessam \u2014 nem de dia, nem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":25908,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,3952,2339,114,3950,3951,2340,3954,3953],"class_list":["post-25898","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-caes","tag-circecunha-2","tag-historiadebrasilia","tag-leidosilencio","tag-letidos","tag-mamfil-2","tag-ruido","tag-vizinhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25898","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25898"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25898\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25909,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25898\/revisions\/25909"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25908"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}