{"id":25916,"date":"2025-05-31T01:00:48","date_gmt":"2025-05-31T04:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=25916"},"modified":"2025-06-02T10:47:59","modified_gmt":"2025-06-02T13:47:59","slug":"a-dormencia-moral-de-um-povo-da-indignacao-a-apatia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/a-dormencia-moral-de-um-povo-da-indignacao-a-apatia\/","title":{"rendered":"A dorm\u00eancia moral de um povo: da indigna\u00e7\u00e3o \u00e0 apatia"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_25918\" aria-describedby=\"caption-attachment-25918\" style=\"width: 494px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-25918\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/fiat.png\" alt=\"\" width=\"494\" height=\"361\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/fiat.png 494w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/fiat-300x219.png 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/fiat-230x168.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 494px) 100vw, 494px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-25918\" class=\"wp-caption-text\">Foto: veja.abril.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>Houve um tempo em que a corrup\u00e7\u00e3o, ao vir \u00e0 tona, ainda provocava n\u00e1usea. O esc\u00e2ndalo, quando exposto, gerava, no brasileiro m\u00e9dio, um sentimento de trai\u00e7\u00e3o \u2013 como se houvesse sido pessoalmente lesado por um pacto quebrado entre governantes e governados. Em 16 de agosto de 1992, bastou que a imprensa revelasse um esquema de propinas envolvendo o presidente Fernando Collor para que se assistisse a um espet\u00e1culo coletivo de rejei\u00e7\u00e3o moral: Collor conclamou que o povo brasileiro se manifestasse a favor de seu mandato e vestisse verde e amarelo. O povo, envergando preto, saiu \u00e0s ruas em passeata f\u00fanebre pela democracia. O s\u00edmbolo m\u00e1ximo daquela indigna\u00e7\u00e3o foi o esvaziamento simb\u00f3lico do Pal\u00e1cio da Alvorada \u2013 m\u00f3veis retirados e expostos no jardim como um invent\u00e1rio p\u00fablico da queda. Uma imagem poderosa o suficiente para gravar-se no imagin\u00e1rio nacional. A moral ainda era uma for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo de profundamente revelador no modo como uma sociedade reage \u2014 ou n\u00e3o reage \u2014 ao seu pr\u00f3prio esp\u00f3lio. A hist\u00f3ria recente do Brasil oferece um contraste gritante entre duas \u00e9pocas e dois esc\u00e2ndalos: de um lado, a como\u00e7\u00e3o nacional provocada por um carro popular \u2014 um Fiat Elba \u2014 e por uma reforma paisag\u00edstica na Casa da Dinda; de outro, o sil\u00eancio espesso diante do furto sistem\u00e1tico de bilh\u00f5es de reais do Instituto Nacional do Seguro Social, o \u00faltimo reduto da esperan\u00e7a para milh\u00f5es de brasileiros que ainda acreditam envelhecer com dignidade.<\/p>\n<p>Em 1992, Fernando Collor foi derrubado n\u00e3o apenas por seus atos, mas pela capacidade de indigna\u00e7\u00e3o de um povo que, at\u00e9 ent\u00e3o, ainda parecia reconhecer a gravidade simb\u00f3lica do abuso. A apreens\u00e3o do Fiat Elba, cuja compra fora vinculada ao tesoureiro de campanha Paulo C\u00e9sar Farias, funcionou como um estopim moral. Comparemos esse epis\u00f3dio a outro, recente, cujas propor\u00e7\u00f5es financeiras fazem do esc\u00e2ndalo Collor um delito pueril: a fraude desvendada pela Opera\u00e7\u00e3o Sem Desconto, que exp\u00f4s um rombo de R$ 6,3 bilh\u00f5es nos cofres do INSS. Sim, bilh\u00f5es \u2014 com \u201cb\u201d. O equivalente a dezenas de milhares de Fiat Elbas, saqueados com m\u00e9todo e precis\u00e3o ao longo de cinco anos.<\/p>\n<p>O crit\u00e9rio de compara\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o serve, pois perdeu sua escala. A r\u00e9gua moral com que se mediam os esc\u00e2ndalos do passado tornou-se obsoleta diante da magnitude abissal dos saques recentes. \u00c9 preciso substituir o referencial: j\u00e1 n\u00e3o estamos lidando com desvios pontuais, mas com uma pilhagem institucionalizada que se equipara \u2014 se somados os esc\u00e2ndalos do mensal\u00e3o, petrol\u00e3o e INSS \u2014 \u00e0 drenagem de ouro perpetrada pela Coroa Portuguesa ao longo de tr\u00eas s\u00e9culos de coloniza\u00e7\u00e3o. A corrup\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea n\u00e3o apenas rivaliza com o saque colonial \u2014 ela o atualiza, o automatiza e o blinda sob o verniz da legalidade republicana.<\/p>\n<p>O povo brasileiro, submetido h\u00e1 d\u00e9cadas a uma repeti\u00e7\u00e3o incessante de esc\u00e2ndalos, tornou-se refrat\u00e1rio ao espanto. A corrup\u00e7\u00e3o deixou de ser a exce\u00e7\u00e3o e passou a ser a regra \u2013 e como toda regra internalizada, deixou de provocar indigna\u00e7\u00e3o. O cidad\u00e3o comum j\u00e1 n\u00e3o acredita na efic\u00e1cia da den\u00fancia, nem na puni\u00e7\u00e3o dos culpados. A desconfian\u00e7a n\u00e3o gera revolta, mas apatia.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno tem nome: dessensibiliza\u00e7\u00e3o moral. \u00c9 o processo pelo qual a exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua ao esc\u00e2ndalo mina a capacidade de julgamento \u00e9tico. Em contextos de guerra ou de cat\u00e1strofes humanit\u00e1rias, esse entorpecimento ps\u00edquico costuma ser estudado sob o nome de \u201cfadiga de compaix\u00e3o\u201d. No Brasil, o que se observa \u00e9 uma \u201cfadiga de indigna\u00e7\u00e3o\u201d: o sujeito j\u00e1 n\u00e3o reage ao grotesco porque aprendeu a conviver com ele. E nisso, reside o triunfo dos maus: n\u00e3o na vit\u00f3ria ideol\u00f3gica, mas na exaust\u00e3o emocional do advers\u00e1rio. O que se v\u00ea \u00e9 uma esp\u00e9cie de coma c\u00edvico, uma eros\u00e3o progressiva da sensibilidade coletiva. O que antes indignava, agora apenas arranca um muxoxo resignado. A corrup\u00e7\u00e3o, em sua escala industrial, j\u00e1 n\u00e3o assusta \u2014 ela embota. Torna-se paisagem. O brasileiro, educado pela repeti\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia, aprendeu a viver entre os escombros como quem mora ao lado de um lix\u00e3o: com as janelas fechadas e o nariz acostumado.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso reconhecer que o golpe n\u00e3o \u00e9 apenas financeiro; \u00e9 simb\u00f3lico. Se o confisco das poupan\u00e7as em 1990 subtraiu, da classe m\u00e9dia, um peda\u00e7o de sua autonomia, o assalto ao INSS hoje \u00e9 mais perverso: rouba dos pobres a promessa do futuro. A aposentadoria, que deveria ser o amparo final de uma vida inteira de trabalho, tornou-se mais um jogo de azar num Estado que j\u00e1 n\u00e3o protege, apenas cobra.<\/p>\n<p>Mas o que se torna verdadeiramente insuport\u00e1vel \u00e9 o sil\u00eancio. A aus\u00eancia de qualquer consequ\u00eancia pol\u00edtica, a continuidade da m\u00e1quina como se nada houvesse ocorrido, a blindagem dos envolvidos, a indiferen\u00e7a midi\u00e1tica \u2014 tudo isso comp\u00f5e um retrato preciso do Brasil de hoje. Um pa\u00eds onde o esc\u00e2ndalo perdeu o esc\u00e2ndalo. Onde at\u00e9 a raiva foi domesticada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cDepois de tanto tempo, podemos juntos, desabafar\u201d<\/em><\/p>\n<p>Fernando Collor de Mello<\/p>\n<figure id=\"attachment_25919\" aria-describedby=\"caption-attachment-25919\" style=\"width: 387px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-25919\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/fernando.png\" alt=\"\" width=\"387\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/fernando.png 552w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/fernando-232x300.png 232w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/fernando-550x710.png 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/05\/fernando-230x297.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 387px) 100vw, 387px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-25919\" class=\"wp-caption-text\">Fernando Collor de Mello. Foto: VEJA\/Dedoc<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>O mesmo poder\u00e1 ser feito na W1, no bambol\u00ea da Igrejinha onde quem ajuda as crian\u00e7as \u00e9 um motorista de idade, de cabe\u00e7a branca, que dirige um Impala. Quando \u00eale est\u00e1 no ponto, \u00e9 quem controla o tr\u00e2nsito para defender as crian\u00e7as.\u00a0<strong>(Publicada 04.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; Houve um tempo em que a corrup\u00e7\u00e3o, ao vir \u00e0 tona, ainda provocava n\u00e1usea. 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