{"id":25994,"date":"2025-06-22T01:00:22","date_gmt":"2025-06-22T04:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=25994"},"modified":"2025-06-22T00:24:38","modified_gmt":"2025-06-22T03:24:38","slug":"quando-os-bracos-de-brasilia-abracam-as-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/quando-os-bracos-de-brasilia-abracam-as-criancas\/","title":{"rendered":"Quando os bra\u00e7os de Bras\u00edlia abra\u00e7am as crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18476\" aria-describedby=\"caption-attachment-18476\" style=\"width: 563px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-18476\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/02\/noroeste.jpg\" alt=\"\" width=\"563\" height=\"366\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/02\/noroeste.jpg 926w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/02\/noroeste-300x195.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/02\/noroeste-768x499.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/02\/noroeste-800x520.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/02\/noroeste-550x358.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/02\/noroeste-230x150.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 563px) 100vw, 563px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-18476\" class=\"wp-caption-text\">Foto: terracap.df.gov<\/figcaption><\/figure>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v<\/p>\n<p>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v<\/p>\n<div class=\"adn ads\">\n<div class=\"gs\">\n<div class=\"\">\n<div id=\":jl\" class=\"ii gt\">\n<div id=\":jk\" class=\"a3s aiL \">\n<div dir=\"ltr\">\n<p>Durante anos, Bras\u00edlia pareceu condenada a um sil\u00eancio estranho. N\u00e3o o sil\u00eancio do repouso ou da contempla\u00e7\u00e3o, mas aquele tipo de vazio que denuncia a aus\u00eancia do essencial: o som das crian\u00e7as. Nas superquadras, nos eixos, nos becos arborizados que cortam o Plano Piloto como art\u00e9rias modernas, era raro ouvir o riso agudo dos pequenos, a gritaria saud\u00e1vel das correrias sem destino. De 40 anos para c\u00e1, os parquinhos, silenciaram. Os gramados, intocados; os bancos, envelhecidos na solid\u00e3o. Bras\u00edlia havia envelhecido junto com sua popula\u00e7\u00e3o, transformando-se em uma cidade projetada para o futuro, mas ancorada num presente sem sucessores.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o Setor Noroeste emerge como uma delicada subvers\u00e3o. Contra todas as previs\u00f5es de que o Plano Piloto se tornaria, aos poucos, um museu habitado por aposentados e burocratas, esse bairro rec\u00e9m-nascido devolve, \u00e0 cidade, aquilo que ela j\u00e1 n\u00e3o sabia mais reconhecer: a inf\u00e2ncia em estado natural.<\/p>\n<p>Nas quadras do Noroeste, h\u00e1 um renascimento encantador. Parquinhos ocupados, brinquedos em disputa, gritos de alegria, brigas por turno no escorregador \u2014 os pequenos rituais da conviv\u00eancia infantil voltaram a existir. At\u00e9 \u00e1rvores s\u00e3o escaladas. E n\u00e3o se trata apenas de infraestrutura: trata-se de um clima urbano que, de algum modo, favorece o encontro, a vigil\u00e2ncia comunit\u00e1ria, a normaliza\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a das crian\u00e7as nos espa\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Parece que um peda\u00e7o da cidade foi resgatado do passado. Em uma era de enclausuramento digital, de inf\u00e2ncia medicada, de vigil\u00e2ncia obsessiva, ver crian\u00e7as brincando ao ar livre tem algo de subversivo, quase revolucion\u00e1rio. O Noroeste, com seus canteiros largos, parquinhos tem\u00e1ticos e cal\u00e7adas generosas, funciona como um laborat\u00f3rio do que Bras\u00edlia foi e, com esfor\u00e7o, ainda pode voltar a ser: uma cidade constru\u00edda para gente real, com vidas reais, e n\u00e3o apenas para carros, gabinetes e seguran\u00e7as armados.<\/p>\n<p>O contraste com a Bras\u00edlia dos \u00faltimos anos \u00e9 flagrante. Houve um tempo recente em que os espa\u00e7os p\u00fablicos do Plano Piloto pareciam moldados, exclusivamente, para adultos apressados e vigilantes privados. Nas quadras tradicionais, os apartamentos familiares abrigavam casais sem filhos, ou ent\u00e3o fam\u00edlias com filhos invis\u00edveis, confinados em telas e refor\u00e7ados por grades. Os pilotis haviam deixado de ser espa\u00e7o de conv\u00edvio e descoberta, tornando-se territ\u00f3rio de risco e suspeita. A inf\u00e2ncia foi sendo empurrada para dentro de casa ou do apartamento, para o artificial, para o monitorado. E nesse processo, a cidade perdeu parte de sua alma.<\/p>\n<p>Enquanto alguns cantos de Bras\u00edlia parecem redescobrir o valor da inf\u00e2ncia vivida ao ar livre, a Asa Norte segue, em certos aspectos, na contram\u00e3o desse resgate afetivo. Embaixo de muitos blocos, onde outrora o som das brincadeiras infantis era sinal de vitalidade urbana, surgem pedidos para que se fechem os parquinhos \u2014 agora vistos como fonte de inc\u00f4modo. H\u00e1 pr\u00e9dios pela cidade que recebem cachorros, mas torcem o nariz para as crian\u00e7as. O riso virou ru\u00eddo, o grito de alegria passou a ser tratado como polui\u00e7\u00e3o sonora. S\u00e3o vizinhos que, em nome de uma paz ac\u00fastica particular, pedem o silenciamento da inf\u00e2ncia alheia, como se o espa\u00e7o p\u00fablico devesse submeter-se \u00e0 l\u00f3gica dos condom\u00ednios herm\u00e9ticos. O paradoxo \u00e9 gritante: a cidade que, um dia, foi planejada para acolher fam\u00edlias em comunh\u00e3o, v\u00ea-se hoje pressionada por uma sensibilidade individualista, que tolera menos a presen\u00e7a de crian\u00e7as do que de c\u00e3es ou motos.<\/p>\n<p>Mas nem sempre foi assim. Nos primeiros anos de Bras\u00edlia, as crian\u00e7as eram onipresentes \u2014 sujas de terra vermelha nos joelhos, cabe\u00e7as descabeladas correndo entre os pilotis, subindo em \u00e1rvores, organizando campeonatos improvisados nos becos entre as quadras.<\/p>\n<p>Bete (com taco e bola), finca, pique esconde, pique bandeira, carni\u00e7a, bicicleta, patins. Havia liberdade, sim, mas tamb\u00e9m havia uma confian\u00e7a social no espa\u00e7o urbano como extens\u00e3o da casa. Os adultos sabiam que a cidade, naquele momento inaugural, pertencia tamb\u00e9m aos pequenos. Havia menos medo, menos grade, menos blindagem \u2014 e mais urbanidade. Na Bras\u00edlia dos anos 1960 e 70, a inf\u00e2ncia transbordava naturalmente para as ruas, livre e despreocupada, entre as ainda pequenas e rec\u00e9m plantadas \u00e1rvores. Era uma \u00e9poca em que a fam\u00edlia ainda era a c\u00e9lula estruturante da vida social, e a cidade parecia ter sido projetada para sustentar isso \u2014 n\u00e3o para isolar ou confinar. A arquitetura, embora ousada e futurista, abria espa\u00e7o para o afeto, para a supervis\u00e3o sem aprisionamento, para a liberdade sem perigo. Bras\u00edlia n\u00e3o era apenas um lugar para se viver; era um lugar para crescer. A presen\u00e7a de crian\u00e7as n\u00e3o era um luxo ou uma raridade, mas uma extens\u00e3o natural de uma cultura que compreendia a import\u00e2ncia da fam\u00edlia n\u00e3o como slogan, mas como o cora\u00e7\u00e3o vivo e cotidiano da sociedade.<\/p>\n<p>O Noroeste, ao reencenar esse esp\u00edrito de inf\u00e2ncia, reanima tamb\u00e9m uma mem\u00f3ria coletiva adormecida. E, embora ainda seja um bairro marcado pela desigualdade no acesso \u2014 restrito a quem pode pagar os altos pre\u00e7os da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria \u2014, ele oferece \u00e0 cidade uma provoca\u00e7\u00e3o: \u00e9 poss\u00edvel desenhar espa\u00e7os urbanos em que as crian\u00e7as existam. N\u00e3o como adere\u00e7os, mas como protagonistas da paisagem. Porque uma cidade que comporta a inf\u00e2ncia \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, uma cidade mais humana, mais feliz, mais viva.<\/p>\n<p>Talvez o som das crian\u00e7as seja o verdadeiro term\u00f4metro de uma cidade que d\u00e1 certo. E, nesse sentido, o Setor Noroeste n\u00e3o \u00e9 apenas um bairro \u2014 \u00e9 uma esperan\u00e7a concreta de que Bras\u00edlia, enfim, possa voltar a crescer. N\u00e3o em altura, mas em vida.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"adn ads\">\n<div class=\"gs\">\n<div class=\"\">\n<div id=\":jl\" class=\"ii gt\">\n<div id=\":jk\" class=\"a3s aiL \">\n<div dir=\"ltr\">\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cEra t\u00e3o f\u00e1cil sorrir!\u201d<\/em><\/p>\n<p>Dona Dita lembrando da inf\u00e2ncia quando a cidade nascia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Os TCB extinguiram o \u00f4nibus que fazia a liga\u00e7\u00e3o da Asa Norte com a CASEB. O resultado \u00e9 \u00easte: os alunos ficaram sujeitos aos transportes comuns que nunca trafegam no hor\u00e1rio. <strong>(Publicada em 05.05.1962)<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; https:\/\/www.youtube.com\/watch?v https:\/\/www.youtube.com\/watch?v Durante anos, Bras\u00edlia pareceu condenada a um sil\u00eancio estranho. N\u00e3o o sil\u00eancio do repouso ou da contempla\u00e7\u00e3o, mas aquele tipo de vazio que denuncia a aus\u00eancia do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":18476,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,2339,114,3975,2340,3973,3974],"class_list":["post-25994","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-circecunha-2","tag-historiadebrasilia","tag-infancia","tag-mamfil-2","tag-noroeste","tag-parquinhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25994","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25994"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25994\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25998,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25994\/revisions\/25998"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25994"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25994"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25994"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}