{"id":26006,"date":"2025-06-26T01:00:51","date_gmt":"2025-06-26T04:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26006"},"modified":"2025-06-26T11:45:54","modified_gmt":"2025-06-26T14:45:54","slug":"inserir-os-desiguais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/inserir-os-desiguais\/","title":{"rendered":"Inserir os desiguais"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26011\" aria-describedby=\"caption-attachment-26011\" style=\"width: 497px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-26011\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/mul.jpg\" alt=\"\" width=\"497\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/mul.jpg 497w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/mul-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/mul-298x300.jpg 298w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/mul-230x232.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 497px) 100vw, 497px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26011\" class=\"wp-caption-text\">Foto: reprodu\u00e7\u00e3o da internet<\/figcaption><\/figure>\n<p>L\u00eddia Jorge, famosa escritora portuguesa, tem abordado, h\u00e1 alguns anos, a quest\u00e3o da cidadania numa Europa invadida por popula\u00e7\u00f5es vindas da \u00c1frica e do Oriente, fugidas das guerras e das persegui\u00e7\u00f5es e que trazem consigo culturas e cren\u00e7as que t\u00eam assustado os europeus. Mesmo diante de tanta pol\u00eamica, tem a coragem de dizer que a cidadania \u00e9 algo que se constr\u00f3i em conjunto. Lembrando que uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 formada tamb\u00e9m pelas mem\u00f3rias mais dolorosas e que s\u00f3 h\u00e1 futuro poss\u00edvel quando essas feridas s\u00e3o reconhecidas. L\u00eddia tem combatido a dissemina\u00e7\u00e3o do \u00f3dio e do extremismo, que silenciam vozes.<\/p>\n<p>Num momento em que gritos e divis\u00f5es se espalham pelos quatro cantos do continente europeu, sua voz serena tem o poder de aproximar e reconciliar. Num pa\u00eds consumido e exausto de tanto barulho e desinforma\u00e7\u00e3o, ela traz a firmeza e a clareza de quem planta ra\u00edzes de verdade. Eis o que disse em recente discurso: \u201cShakespeare, Cervantes e Cam\u00f5es perceberam bem que, em dado momento, \u00e9 poss\u00edvel que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa conviv\u00eancia. Quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, cient\u00edficos, \u00e9ticos, pol\u00edticos e os pilares de rela\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia homem-m\u00e1quina entrarem num novo paradigma, que lugar n\u00f3s ocuparemos como seres humanos? O que passar\u00e1 a ser um humano?\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o restam d\u00favidas de que a Europa, primeiro, e depois o mundo est\u00e3o experimentando, neste in\u00edcio do terceiro mil\u00eanio, mudan\u00e7as r\u00e1pidas e desafiadoras \u2014 sobretudo os pa\u00edses do Ocidente, invadidos por imigrantes, que subvertem a cultura interna e tentam, ao mesmo tempo, impor a sua cultura; como \u00e9 o caso de muitos imigrantes mul\u00e7umanos que est\u00e3o hoje na Europa. O que fazer diante de t\u00e3o inusitado e delicado momento hist\u00f3rico como a imigra\u00e7\u00e3o? Eis a\u00ed outro grande desafio aos humanos que v\u00eam a se somar a quest\u00f5es capitais, como a do aquecimento global e a do esgotamento dos recursos naturais.<\/p>\n<p>A fala de L\u00eddia Jorge ressoa com especial for\u00e7a num tempo em que as democracias ocidentais enfrentam m\u00faltiplos desafios: o avan\u00e7o da desinforma\u00e7\u00e3o, o colapso de consensos m\u00ednimos de conviv\u00eancia e, como pano de fundo, o agravamento das tens\u00f5es identit\u00e1rias trazidas pelas ondas migrat\u00f3rias \u2014 especialmente em pa\u00edses como Fran\u00e7a, Alemanha, Su\u00e9cia e Reino Unido.<\/p>\n<p>A escritora portuguesa aponta para um ponto essencial: a cidadania n\u00e3o \u00e9 apenas um status jur\u00eddico, mas uma pr\u00e1tica ativa de conviv\u00eancia baseada em reconhecimento m\u00fatuo, respeito e pertencimento. Quando ela evoca Shakespeare, Cervantes e Cam\u00f5es, n\u00e3o o faz por vaidade liter\u00e1ria, mas para mostrar que, j\u00e1 no passado, se compreendia o risco de governos capturados por figuras patol\u00f3gicas que, em nome da ordem ou da tradi\u00e7\u00e3o, promovem pol\u00edticas de exclus\u00e3o e medo. Esse \u00e9 o risco que hoje ronda a Europa \u2014 e o Ocidente em geral.<\/p>\n<p>A Europa vive uma encruzilhada que exp\u00f5e a tens\u00e3o entre dois valores centrais de suas democracias: o universalismo dos direitos humanos e a preserva\u00e7\u00e3o da identidade cultural. \u00c9 fato que uma minoria radical entre os imigrantes desafia os valores liberais ocidentais, promovendo a intoler\u00e2ncia religiosa, o sexismo e at\u00e9 a viol\u00eancia. Mas \u00e9 igualmente fato que a esmagadora maioria migra por necessidade, foge da guerra ou da fome e busca apenas uma vida digna.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 que a reflex\u00e3o de L\u00eddia Jorge se imp\u00f5e: n\u00e3o podemos deixar que o medo apague a empatia. Cidadania, como ela bem diz, n\u00e3o \u00e9 apenas documento \u2014 \u00e9 ter voz, ter espa\u00e7o, ser valorizado. Quando se nega cidadania a um grupo inteiro com base na origem ou religi\u00e3o, rompe-se a l\u00f3gica democr\u00e1tica e abre-se espa\u00e7o para pol\u00edticas regressivas que desumanizam e, paradoxalmente, alimentam a radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema real n\u00e3o \u00e9 a migra\u00e7\u00e3o em si, mas a aus\u00eancia de pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o eficazes. O multiculturalismo falhou n\u00e3o porque acolheu, mas porque falhou em exigir reciprocidade cultural. A integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 assimila\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser passividade estatal diante da imposi\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas que contrariam os direitos humanos (como casamentos for\u00e7ados, mutila\u00e7\u00e3o genital feminina ou intoler\u00e2ncia religiosa).<\/p>\n<p>Reafirmar os valores democr\u00e1ticos: a cidadania deve ser dada a quem se compromete com os princ\u00edpios constitucionais do pa\u00eds que o acolhe. Isso exige contratos de integra\u00e7\u00e3o mais firmes, mas tamb\u00e9m educa\u00e7\u00e3o intercultural e espa\u00e7os de escuta m\u00fatua. Pol\u00edticas p\u00fablicas de conviv\u00eancia t\u00eam mostrado que n\u00e3o basta controlar fronteiras \u2014 \u00e9 preciso investir em educa\u00e7\u00e3o, moradia e trabalho para os imigrantes. E evitar a forma\u00e7\u00e3o de guetos sociais que alimentam o ressentimento m\u00fatuo.<\/p>\n<p>O combate \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o, tanto \u00e0 islamista quanto \u00e0 de extrema-direita, \u00e9 necess\u00e1rio. A ascens\u00e3o de partidos como o Rassemblement National (Fran\u00e7a), Vox (Espanha), AfD (Alemanha) ou Chega (Portugal) mostra que o medo est\u00e1 sendo instrumentalizado politicamente. Esses partidos se alimentam da crise e, por vezes, a ampliam. Narrativas equilibradas se fazem necess\u00e1rias junto a imprensa e a cultura, que t\u00eam um papel crucial nesse processo. \u00c9 preciso n\u00e3o esconder os problemas, mas tamb\u00e9m n\u00e3o promover generaliza\u00e7\u00f5es que criminalizam etnias ou religi\u00f5es inteiras. \u00c9 nessa linha que atua a fala de L\u00eddia Jorge \u2014 sem negar as tens\u00f5es, mas propondo pontes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>&#8220;As sociedades que n\u00e3o seguram a justi\u00e7a, criam a desordem.&#8221;<\/em><br \/>\nL\u00eddia Jorge<\/p>\n<figure id=\"attachment_26008\" aria-describedby=\"caption-attachment-26008\" style=\"width: 470px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-26008\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/L.jpg\" alt=\"\" width=\"470\" height=\"707\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/L.jpg 470w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/L-199x300.jpg 199w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/L-230x346.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 470px) 100vw, 470px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26008\" class=\"wp-caption-text\">L\u00eddia Jorge. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nDois carros do gov\u00earno numa reta de quatro quil\u00f4metros, em pista plana, de 25 metros de largura, rodando na mesma dire\u00e7\u00e3o, chocaram-se espetacularmente na manh\u00e3 de ontem.\u00a0<strong>(Publicada em 5\/5\/1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; L\u00eddia Jorge, famosa escritora portuguesa, tem abordado, h\u00e1 alguns anos, a quest\u00e3o da cidadania numa Europa invadida por popula\u00e7\u00f5es vindas da \u00c1frica e do Oriente, fugidas das guerras e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":26011,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,3981,2339,1685,114,1623,3980,3982,2340],"class_list":["post-26006","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-choquecultural","tag-circecunha-2","tag-cultura","tag-historiadebrasilia","tag-imigracaonomundo","tag-imigrantesnaeuropa","tag-imposicao","tag-mamfil-2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26006","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26006"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26006\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26012,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26006\/revisions\/26012"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26011"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26006"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26006"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26006"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}