{"id":26013,"date":"2025-06-27T01:00:08","date_gmt":"2025-06-27T04:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26013"},"modified":"2025-06-26T14:28:15","modified_gmt":"2025-06-26T17:28:15","slug":"da-crisalida-a-borboleta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/da-crisalida-a-borboleta\/","title":{"rendered":"Da cris\u00e1lida \u00e0 borboleta"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26020\" aria-describedby=\"caption-attachment-26020\" style=\"width: 654px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-26020\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/1.jpg\" alt=\"\" width=\"654\" height=\"493\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/1.jpg 654w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/1-300x226.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/1-550x415.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/1-230x173.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 654px) 100vw, 654px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26020\" class=\"wp-caption-text\">Charge: Nani Humor<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"adn ads\">\n<div class=\"gs\">\n<div class=\"\">\n<div id=\":vb\" class=\"ii gt\">\n<div id=\":vc\" class=\"a3s aiL \">\n<div dir=\"ltr\">\n<p>Algum dia l\u00e1 adiante, em alguma sala fria de arquivo ou em uma aula de hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, uma data de janeiro ser\u00e1 revisitada com a dist\u00e2ncia que s\u00f3 o tempo permite. Aquilo que hoje mobiliza manchetes e entusiasmos ser\u00e1 observado com olhos mais contidos, mais anal\u00edticos, menos apaixonados. Porque a mem\u00f3ria, com o correr dos anos, tem o curioso h\u00e1bito de revisar tudo aquilo que o presente consagrou como verdade. O que se celebra como firmeza, talvez soe como encena\u00e7\u00e3o. O que se apresenta como justi\u00e7a, poder\u00e1 um dia ser lido como teatro. E o que hoje \u00e9 apontado como \u201cexemplo\u201d, amanh\u00e3 pode surgir como advert\u00eancia. O tempo, senhor de todas as vers\u00f5es, costuma expor aquilo que a narrativa cobre com o v\u00e9u do interesse. O que parecia claro, n\u00edtido, consensual, com o tempo, revela suas sombras e zonas de ambiguidade.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria \u2014 essa observadora obstinada \u2014 \u00e9 feita \u00a0de desconstru\u00e7\u00f5es. E, talvez, ao olhar para tr\u00e1s, veremos que aquilo que parecia um julgamento emblem\u00e1tico foi, em muitos momentos, tamb\u00e9m um exerc\u00edcio est\u00e9tico de poder. Um tribunal, que antes falava por ac\u00f3rd\u00e3os, come\u00e7ou a falar por c\u00e2meras e holofotes. O sil\u00eancio solene deu lugar \u00e0 cad\u00eancia de frases planejadas. O que era para ser t\u00e9cnica jur\u00eddica virou gesto midi\u00e1tico. E assim, sob os refletores da audi\u00eancia p\u00fablica, a toga trocou o peso do recato pelo brilho do palco.<\/p>\n<p>Nesse novo cen\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para recuos. O julgador virou personagem. O argumento virou roteiro. E o debate jur\u00eddico se converteu em dramaturgia institucional. A presen\u00e7a constante de certas figuras togadas nas telas, nas transmiss\u00f5es, nas redes sociais, produziu uma nova simbologia. O juiz, que antes se resguardava, agora se apresenta. O tribunal que se dizia \u00e1rbitro, agora atua como protagonista. E, no espa\u00e7o que deveria ser de escuta t\u00e9cnica, passou a ecoar slogans cuidadosamente planejados para viralizar. H\u00e1, claro, quem celebre essa transpar\u00eancia. Mas \u00e9 preciso perguntar: at\u00e9 que ponto a exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 virtude, e em que momento ela se torna vaidade? Onde termina a pedagogia democr\u00e1tica e onde come\u00e7a a busca por influ\u00eancia simb\u00f3lica?<\/p>\n<p>A resposta talvez esteja em detalhes quase impercept\u00edveis \u2014 na escolha das palavras, na entona\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, na pausa calculada, no olhar treinado para a lente. E o que era para ser exce\u00e7\u00e3o tornou-se m\u00e9todo. Assim, o tribunal, que deveria ser discreto, passou a ocupar um espa\u00e7o onipresente. E, de tanto estar em cena, corre o risco de deixar de ser refer\u00eancia para se tornar apenas mais uma voz no ru\u00eddo geral. O recado se dilui. A autoridade se desgasta. A neutralidade, essa base silenciosa do julgador, come\u00e7a a ser confundida com alinhamento. Afinal, quando os int\u00e9rpretes da Constitui\u00e7\u00e3o parecem afinados demais com as vontades do dia, a pr\u00f3pria Carta passa a ser lida como espelho de ocasi\u00e3o. O princ\u00edpio cede lugar \u00e0 conveni\u00eancia. A regra vira argumento para decis\u00f5es que extrapolam o texto. E a interpreta\u00e7\u00e3o, essa ferramenta leg\u00edtima, transforma-se num bisturi que corta a realidade conforme o modelo desejado. A hermen\u00eautica jur\u00eddica \u2014 antes usada para esclarecer zonas cinzentas \u2014 passa a servir como tinta para pintar cen\u00e1rios de ideias pol\u00edticas. Liberdades, garantias, compet\u00eancias, tudo pode ser redimensionado quando o juiz assume o lugar do legislador, do governante, do int\u00e9rprete moral da sociedade. Em alguns momentos, o julgamento parecia menos um rito e mais uma cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Um evento cuidadosamente embalado para consumo midi\u00e1tico. Os votos deixaram de convencer pelo argumento e passaram a seduzir pela forma. A dramaticidade substituiu a sobriedade. O tom categ\u00f3rico tomou o lugar da d\u00favida t\u00e9cnica. E a liturgia deu espa\u00e7o \u00e0 coreografia. Resta saber como isso ser\u00e1 lembrado. Como se narrar\u00e1 essa fase? O que ficar\u00e1 nos livros? O que ser\u00e1 dito nos cursos de direito? Como os jovens juristas interpretar\u00e3o essas decis\u00f5es daqui a duas d\u00e9cadas? Talvez se diga que era um tempo de exce\u00e7\u00e3o. Talvez se tente justificar os excessos com a gravidade dos fatos. Mas talvez tamb\u00e9m surja a consci\u00eancia de que a resposta institucional, mesmo diante da crise, precisa manter seus pr\u00f3prios limites. Porque quando a toga se torna s\u00edmbolo de poder e n\u00e3o de conten\u00e7\u00e3o, a justi\u00e7a corre o risco de se parecer com aquilo que deveria combater: a manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em regimes democr\u00e1ticos, o risco maior nem sempre \u00e9 o autoritarismo escancarado, mas o autoritarismo justificado pela ret\u00f3rica jur\u00eddica. Por isso \u00e9 que tantos juristas antigos alertavam: interpretar a Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, mas perigoso. Porque entre o verbo e a vontade, existe uma linha t\u00eanue. Paul Cliter Kuiper j\u00e1 dizia: \u201cA Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o se interpreta, se cumpre.\u201d Em tempos normais, essa frase pareceria simplista. Mas, em tempos perform\u00e1ticos, ela se torna um grito. Afinal, quando todos interpretam segundo suas verdades, a lei vira disputa de narrativas. E o que deveria unir passa a dividir. A corte, que deveria garantir o equil\u00edbrio, move-se. Por se mover demais, deixa de ser refer\u00eancia para virar vetor. E assim seguimos, num tempo em que a seguran\u00e7a jur\u00eddica \u00e9 constantemente atravessada por vontades, simbolismos, lealdades circunstanciais e constru\u00e7\u00f5es ret\u00f3ricas.<\/p>\n<p>A busca incessante \u00e9 pela confian\u00e7a de que, mesmo quando n\u00e3o concordamos com as decis\u00f5es, sabemos que elas v\u00eam do Direito \u2014 e n\u00e3o de uma agenda. Essa confian\u00e7a, quando abalada, demora d\u00e9cadas para ser restaurada. E, talvez, l\u00e1 na frente, seja disso que mais sentiremos falta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada em uma lagarta que diga que ela se tornar\u00e1 uma borboleta.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>R. Buckminster Fuller<\/p>\n<figure id=\"attachment_26015\" aria-describedby=\"caption-attachment-26015\" style=\"width: 518px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26015\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/rb.jpg\" alt=\"\" width=\"518\" height=\"447\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/rb.jpg 706w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/rb-300x259.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/rb-550x474.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/06\/rb-230x198.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 518px) 100vw, 518px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26015\" class=\"wp-caption-text\">R. Buckminster Fuller. Fotografia: Arquivos da CSU \/ Everett<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Para os arquivos do automobilismo, aqui est\u00e3o os n\u00fameros das chapas do desastre do Eixo Monumental:25-94 e 9-9890. <strong>(Publicada em 05.05.1962)<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; Algum dia l\u00e1 adiante, em alguma sala fria de arquivo ou em uma aula de hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, uma data de janeiro ser\u00e1 revisitada com a dist\u00e2ncia que s\u00f3 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":26020,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,2339,3207,114,3983,1475,2340,3525,65],"class_list":["post-26013","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-circecunha-2","tag-corte","tag-historiadebrasilia","tag-juizes","tag-justicanobrasil","tag-mamfil-2","tag-podernobrasil","tag-stf"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26013","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26013"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26013\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26021,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26013\/revisions\/26021"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26013"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26013"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26013"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}