{"id":26055,"date":"2025-07-06T01:00:31","date_gmt":"2025-07-06T04:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26055"},"modified":"2025-07-07T12:47:40","modified_gmt":"2025-07-07T15:47:40","slug":"26055-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/26055-2\/","title":{"rendered":"Sufr\u00e1gio dos Bichos"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26057\" aria-describedby=\"caption-attachment-26057\" style=\"width: 432px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26057\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/charge.jpg\" alt=\"\" width=\"432\" height=\"544\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/charge.jpg 574w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/charge-238x300.jpg 238w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/charge-550x693.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/charge-230x290.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26057\" class=\"wp-caption-text\">Charge do Baggi<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400\">No velho campo onde se reuniam as esp\u00e9cies, aproximava-se, mais uma vez, o tempo da escolha. Era um ritual conhecido: a cada esta\u00e7\u00e3o certa, reuniam-se os bichos em assembleia, fingindo surpresa com os nomes apresentados, como se n\u00e3o os conhecessem desde os tempos em que aprenderam a farejar o perigo. O curioso \u00e9 que, a cada nova escolha, falava-se em renova\u00e7\u00e3o. Mas bastava olhar com mais aten\u00e7\u00e3o para notar que os candidatos ao pasto principal eram quase sempre os mesmos. Alguns, impedidos de se apresentar no curral central por conta de antigos esc\u00e2ndalos no galinheiro, enviavam representantes treinados: o sobrinho do jumento, a esposa do galo, o afilhado da raposa. Todos bem ensaiados, com discursos decorados e promessas renovadas. Chamavam isso de continuidade com outra roupagem. Os mais cr\u00e9dulos chamavam de mudan\u00e7a. Ningu\u00e9m sabia ao certo quem havia inventado a pr\u00e1tica, mas ela funcionava com precis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Os mesmos que haviam devorado os gr\u00e3os do celeiro agora voltavam com novas penas, distribuindo sementes como se fossem d\u00e1divas. E os bichos, com fome ou com esperan\u00e7a, aceitavam. Afinal, quem recusa comida quando o inverno amea\u00e7a? O mais espantoso \u00e9 que o ritual se repetia sem sobressaltos. Alguns animais at\u00e9 se indignavam, relinchavam, grasnavam em protesto, mas, no fim, cediam ao espet\u00e1culo. A promessa de feno fresco e sombra larga faziam com que muitos esquecessem os epis\u00f3dios de estiagem, os gr\u00e3os desaparecidos, os ninhos abandonados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">As assembleias, cada vez mais barulhentas, pareciam ter virado feiras. Entre cartazes com desenhos de frutas e slogans sobre o futuro do brejo, os velhos macacos distribu\u00edam bananas, as cobras ofereciam simpatia e os le\u00f5es aposentados cochichavam no ouvido de seus substitutos. Tudo sob o olhar tolerante dos gansos, que fingiam n\u00e3o ver, ou n\u00e3o entender. Ao fim, o que se desenhava era sempre parecido com o come\u00e7o. Mudava-se a voz, trocava-se o casaco, reformavam a cerca. Mas a trilha do curral era a mesma, e os caminhos levavam ao mesmo est\u00e1bulo, onde s\u00f3 alguns tinham direito a ra\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Entre berrantes e promessas, entre milho e teatro, a escolha dos l\u00edderes seguia seu curso.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A cerim\u00f4nia tinha ares de celebra\u00e7\u00e3o, mas carregava tamb\u00e9m certo t\u00e9dio repetitivo. Os tambores batiam forte, campanhas publicit\u00e1rias prometiam horizontes, e os bichos, empolgados, balan\u00e7avam a cauda. Havia at\u00e9 quem trocasse de penas. Era como se os bichos, embora inquietos, tivessem esquecido que a natureza n\u00e3o se altera com fantasia nova.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Quem era proibido de entrar no curral encontrava um jeito de manter-se no comando. O tempo passava e, com ele, a indigna\u00e7\u00e3o se esva\u00eda, como o rastro de uma lesma ao sol. Nas tocas mais escuras e nas clareiras mais discretas, comentavam com certo receio que era melhor guardar as opini\u00f5es nas gavetas. Opini\u00e3o contr\u00e1ria era acinte.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Mas os mensageiros da floresta, aqueles que viviam de sussurrar ao p\u00e9 dos cupinzeiros e retransmitir fake news no sopro do vento, logo tratavam de abafar o inc\u00f4modo. Falavam em uni\u00e3o, em cicatriza\u00e7\u00e3o das feridas, em concilia\u00e7\u00e3o entre esp\u00e9cies. Repreendiam quem ousasse lembrar o que se passou. Afinal, insistiam, todos t\u00eam direito a uma segunda chance&#8230; terceira ou d\u00e9cima chance. Enquanto os mais atentos tentavam rememorar os desmandos da \u00faltima temporada, aqueles que tomaram o silo e as serpentes foram nomeadas para vigiar os ovos. Os mais jovens, ou mais desatentos, deixavam-se encantar pela flu\u00eancia dos novos discursos, que soavam como os antigos com a diferen\u00e7a de uma musiquinha patrocinada ao fundo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">E assim, a assembleia se formava com um som ruidoso, onde panfletos forravam o ch\u00e3o, as bandeiras com frutas coloridas tremulavam ao vento estampando frases de efeito sobre o futuro do brejo. Quem ousasse apontar erros ou questionar o ciclo vicioso era logo lembrado: em terra de sapo, mosca n\u00e3o d\u00e1 rasante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201c\u00c9 um grande debate global o quanto aquele processo inflacion\u00e1rio correspondia a um choque de oferta pela desarticula\u00e7\u00e3o das cadeias produtivas e dificuldade de produzir, e o quanto correspondia a uma quest\u00e3o de demanda decorrente dos programas de transfer\u00eancia de renda e socorro por causa da pandemia. A minha posi\u00e7\u00e3o, eu recorro sempre a uma frase do Churchill: a verdade \u00e9 uma ad\u00faltera, nunca est\u00e1 com uma pessoa s\u00f3.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Gabriel Gal\u00edpolo<\/p>\n<figure id=\"attachment_26056\" aria-describedby=\"caption-attachment-26056\" style=\"width: 559px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26056\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/gal\u00edpolo.jpg\" alt=\"\" width=\"559\" height=\"371\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/gal\u00edpolo.jpg 851w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/gal\u00edpolo-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/gal\u00edpolo-768x510.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/gal\u00edpolo-800x531.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/gal\u00edpolo-550x365.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/gal\u00edpolo-230x153.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 559px) 100vw, 559px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26056\" class=\"wp-caption-text\">Gabriel Gal\u00edpolo. Foto: Roque de S\u00e1\/Ag\u00eancia Senado<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>O panorama napolitano de roupas ao vento nas janelas e nos corredores, outrora privil\u00e9gio das quadras 409-10 j\u00e1 se estendeu \u00e0 Asa Norte. O Bloco 42 comanda o espet\u00e1culo. <strong>(Publicada em 05.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; No velho campo onde se reuniam as esp\u00e9cies, aproximava-se, mais uma vez, o tempo da escolha. 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