{"id":26101,"date":"2025-07-19T01:00:36","date_gmt":"2025-07-19T04:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26101"},"modified":"2025-07-18T18:15:01","modified_gmt":"2025-07-18T21:15:01","slug":"via-sem-retorno-proximo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/via-sem-retorno-proximo\/","title":{"rendered":"Via sem retorno pr\u00f3ximo"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26103\" aria-describedby=\"caption-attachment-26103\" style=\"width: 432px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26103\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/don-.jpg\" alt=\"\" width=\"432\" height=\"488\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/don-.jpg 385w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/don--266x300.jpg 266w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/07\/don--230x260.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 432px) 100vw, 432px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26103\" class=\"wp-caption-text\">Foto: ogritonews.com<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 epis\u00f3dios que condensam, num \u00fanico gesto, o cansa\u00e7o de uma popula\u00e7\u00e3o inteira. O caso do propriet\u00e1rio do restaurante Dom L\u00e9on na 112 sul, que reagiu a uma tentativa de invas\u00e3o e matou o ladr\u00e3o que avan\u00e7ava contra seu lar e sua esposa, tornou-se, em poucas horas, mais do que um crime noticiado: virou um s\u00edmbolo. Esse e tantos outros mais atuais s\u00e3o s\u00edmbolos de um esgotamento moral que atravessa todas as classes sociais, da indigna\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o se limita aos grupos de mensagens, mas transborda para as ruas digitais, onde milhares se manifestam em apoio ao comerciante que ousou fazer aquilo que o Estado, por in\u00e9rcia, recusa-se a fazer: defender. A pol\u00edcia prende, o juiz solta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Entre fotos de pratos e relatos da clientela, as redes sociais do Dom L\u00e9on transformaram-se num f\u00f3rum improvisado, onde se deposita n\u00e3o apenas solidariedade, mas tamb\u00e9m uma acusa\u00e7\u00e3o difusa contra os que terceirizaram a seguran\u00e7a p\u00fablica ao improviso. O contraste \u00e9 grotesco: quem trabalha, cria empregos e mant\u00e9m a dignidade de portas abertas v\u00ea-se algemado e levado \u00e0 delegacia, enquanto quem rouba, quando sobrevive, costuma voltar brevemente \u00e0s ruas para cometer novos crimes, digno de piedade, com apoio de psic\u00f3logo do Estado e advogado pago pelo er\u00e1rio. A fian\u00e7a de oitocentos reais paga pelo dono do restaurante n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o pre\u00e7o burocr\u00e1tico da liberdade: \u00e9 o recibo de uma invers\u00e3o de valores que trata o trabalhador armado de coragem como se fosse o delinquente e o delinquente como se fosse o verdadeiro injusti\u00e7ado. N\u00e3o faltam oportunidades para melhorar de vida. Mas a lacuna educacional dificulta cada passo. Mais uma vez, apesar dos impostos, n\u00e3o h\u00e1 investimentos do capital humano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Em casos onde os bandidos s\u00e3o surpreendidos, talvez o que mais venha a revoltar tantos brasileiros n\u00e3o seja apenas o crime em si, mas o que ele representa: a completa naturaliza\u00e7\u00e3o de uma rotina de medo. N\u00e3o se trata mais de casos pontuais ou de viol\u00eancia epis\u00f3dica. Trata-se de um estado de s\u00edtio informal, uma resigna\u00e7\u00e3o coletiva em que cada fam\u00edlia se torna ref\u00e9m da estat\u00edstica, sabendo que poder\u00e1 ser a pr\u00f3xima. O restaurante, que deveria ser um lugar de conv\u00edvio, sustento e partilha, converte-se em trincheira improvisada, cada comerciante num vigia relutante que paga impostos a um poder p\u00fablico que s\u00f3 aparece para multar, taxar ou condenar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O epis\u00f3dio n\u00e3o se explica apenas pelo contexto imediato, mas por um processo mais longo e corrosivo. Durante anos, parte das autoridades preferiu minimizar a criminalidade, tratando o problema como uma \u201cquest\u00e3o social\u201d, pass\u00edvel de ret\u00f3rica e semin\u00e1rios. Enquanto isso, a popula\u00e7\u00e3o comum coleciona boletins de ocorr\u00eancia, c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia, grades nas janelas e medo noturno. No fundo, a como\u00e7\u00e3o que se viu n\u00e3o \u00e9 apenas pelo dono do restaurante, mas pelo pressentimento de que todos poder\u00edamos estar em seu lugar. A indigna\u00e7\u00e3o, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas moral, mas existencial: o brasileiro m\u00e9dio percebeu que sua vida vale menos que o discurso oficial. S\u00e3o muitos os brasileiros que saem de casa para o trabalho sempre com a sensa\u00e7\u00e3o que talvez n\u00e3o voltem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">S\u00e3o crimes em todo o DF onde a rea\u00e7\u00e3o popular \u00e9 imediata e quase un\u00e2nime. Uma esp\u00e9cie de plebiscito informal: milhares de coment\u00e1rios nas redes sociais, do cidad\u00e3o an\u00f4nimo ao pequeno empres\u00e1rio, dizendo que n\u00e3o suportam mais o constrangimento de pedir licen\u00e7a para existir. O caso do Dom L\u00e9on deixa expl\u00edcito que a sociedade civil t\u00e3o difamada por quem insiste em v\u00ea-la como \u201cmassa ignorante\u201d ainda conserva algo que o Estado perdeu: senso de justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O epis\u00f3dio do Dom L\u00e9on n\u00e3o deveria ser tratado como exce\u00e7\u00e3o, mas como sintoma. Um sintoma de que chegamos ao ponto em que a paci\u00eancia do cidad\u00e3o comum, aquele que trabalha e paga todas as contas, esgotou-se. O apoio quase un\u00e2nime que se viu \u00e9 mais do que solidariedade. \u00c9 um recado, um basta coletivo ao desamparo. \u00c9 o aviso de que o povo cansou de ter vergonha de viver, de ter medo de existir.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Chama aten\u00e7\u00e3o que, entre as milhares de manifesta\u00e7\u00f5es de solidariedade, muitos brasilienses tenham encontrado uma forma simples de se posicionar: prometem frequentar o Dom L\u00e9on, consumir seus pratos e manter acesa a chama que, por ora, o Estado parece empenhado em apagar. A clientela diz, em un\u00edssono, que h\u00e1 gestos que transcendem o com\u00e9rcio e que ocupar uma mesa de restaurante pode se converter, silenciosamente, em um ato de desagravo. Cada visita planejada carrega algo maior do que o simples apre\u00e7o pela gastronomia local: carrega o reconhecimento de que quem protege seu lar merece, ao menos, o benef\u00edcio da d\u00favida \u2014 e, se poss\u00edvel, o calor discreto de uma casa cheia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Tem havido algo de reconfortante nessa mobiliza\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, nesse desejo quase instintivo de retribuir coragem com presen\u00e7a, dignidade com afeto econ\u00f4mico. Entre as linhas de cada coment\u00e1rio de apoio, h\u00e1 uma torcida muda para que o Dom L\u00e9on prospere, n\u00e3o apenas como restaurante, mas como lembran\u00e7a viva de que a sociedade civil, por mais exausta que esteja, ainda sabe distinguir o justo do arbitr\u00e1rio. Se a omiss\u00e3o virou rotina e a covardia se fantasiou de protocolo, resta ao cidad\u00e3o comum essa forma modesta de resist\u00eancia: sentar-se \u00e0 mesa, consumir com respeito e, sem alarde, afirmar que n\u00e3o desistimos por completo uns dos outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><em>Poder e viol\u00eancia s\u00e3o opostos; onde um reina absoluto, o outro est\u00e1 ausente. \u201cA viol\u00eancia surge onde o poder est\u00e1 em perigo, mas, deixada \u00e0 pr\u00f3pria sorte, termina com o seu desaparecimento.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Hannah Arendt<\/p>\n<figure id=\"attachment_22106\" aria-describedby=\"caption-attachment-22106\" style=\"width: 479px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-22106\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/10\/HA.png\" alt=\"\" width=\"479\" height=\"616\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/10\/HA.png 479w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/10\/HA-233x300.png 233w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/10\/HA-230x296.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 479px) 100vw, 479px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-22106\" class=\"wp-caption-text\">Hannah Arendt. Foto: brasil.elpais.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia:<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O nome empregado na maioria dos golpes foi do servidor Barros de Carvalho, e os chantagistas conheciam tanto seus h\u00e1bitos, que falando pelo telefone para sua resid\u00eancia, recomendavam com insist\u00eancia para que quando fizessem a mala n\u00e3o esquecessem dos rem\u00e9dios.\u00a0<strong>(Publicada em 06.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; H\u00e1 epis\u00f3dios que condensam, num \u00fanico gesto, o cansa\u00e7o de uma popula\u00e7\u00e3o inteira. 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