{"id":26201,"date":"2025-08-15T01:00:44","date_gmt":"2025-08-15T04:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26201"},"modified":"2025-08-15T15:15:51","modified_gmt":"2025-08-15T18:15:51","slug":"longevidade-sem-garantia-de-dignidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/longevidade-sem-garantia-de-dignidade\/","title":{"rendered":"Longevidade sem Garantia de Dignidade"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26204\" aria-describedby=\"caption-attachment-26204\" style=\"width: 427px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26204\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/08\/long.jpg\" alt=\"\" width=\"427\" height=\"458\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/08\/long.jpg 394w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/08\/long-279x300.jpg 279w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/08\/long-230x247.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 427px) 100vw, 427px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26204\" class=\"wp-caption-text\">Charge do Genildo<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"gs\">\n<div class=\"\">\n<div id=\":lw\" class=\"ii gt\">\n<div id=\":lx\" class=\"a3s aiL \">\n<div dir=\"ltr\">\n<p>A expectativa de vida do brasileiro ao nascer chegou, em 2023, a\u00a076,4 anos. O avan\u00e7o \u00e9 fruto de d\u00e9cadas de melhorias na medicina, no saneamento, na alimenta\u00e7\u00e3o e nas pol\u00edticas de sa\u00fade p\u00fablica. Contudo, para al\u00e9m da conquista estat\u00edstica, persiste um fato inc\u00f4modo: o Brasil ainda n\u00e3o se preparou para a realidade de envelhecer bem, incluindo governo, iniciativa privada, sociedade civil e, n\u00e3o raramente, as pr\u00f3prias fam\u00edlias. Parece que a longevidade e dignidade seguem caminhos que raramente se cruzam.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o indiv\u00edduo avan\u00e7a para a terceira idade, multiplicam-se os obst\u00e1culos a uma vida saud\u00e1vel e produtiva. Os ganhos obtidos com a ci\u00eancia amea\u00e7am ser neutralizados pela neglig\u00eancia social. N\u00e3o se trata apenas de garantir anos a mais na certid\u00e3o de nascimento; trata-se de assegurar que esses anos sejam vividos com qualidade. Em um pa\u00eds onde, segundo dados oficiais,\u00a065.488 den\u00fancias de viol\u00eancia contra pessoas idosas\u00a0foram registradas apenas entre janeiro e abril de 2025 (um crescimento de\u00a038% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo em 2023), viver mais tamb\u00e9m significa correr mais riscos. Esse dado, obviamente, n\u00e3o registra as omiss\u00f5es de lares onde n\u00e3o se imagina a realidade. Realidade essa que assusta quando se constata que\u00a070% das v\u00edtimas s\u00e3o mulheres\u00a0e que a maior parte das agress\u00f5es ocorre dentro do pr\u00f3prio lar, espa\u00e7o que deveria representar amparo e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia contra a pessoa idosa, na verdade, n\u00e3o \u00e9 exclusividade brasileira. Tanto que a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas instituiu, h\u00e1 anos, o\u00a0Dia Mundial de Conscientiza\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia Contra a Pessoa Idosa\u00a0(15 de junho). Mas, no Brasil, o problema assume contornos mais severos, pois soma-se a um sistema de prote\u00e7\u00e3o insuficiente e a uma cultura que, em vez de valorizar a experi\u00eancia e a mem\u00f3ria, tende a descart\u00e1-las. O\u00a0Estatuto do Idoso, de 2013, foi um marco legislativo, mas segue o destino de outras leis nacionais: o risco de tornar-se letra morta, por aus\u00eancia de fiscaliza\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas p\u00fablicas consistentes.<\/p>\n<p>Enquanto isso, as estat\u00edsticas demogr\u00e1ficas avan\u00e7am. Em 2023,\u00a015,6% da popula\u00e7\u00e3o brasileira tinha 60 anos ou mais, superando o percentual de jovens entre 15 e 24 anos (14,8%). H\u00e1 apenas duas d\u00e9cadas, eram\u00a015,2 milh\u00f5es; hoje, j\u00e1 s\u00e3o\u00a033 milh\u00f5es de idosos. Uma transforma\u00e7\u00e3o social dessa magnitude exigiria preparo estrat\u00e9gico, investimento em sa\u00fade preventiva, redes de apoio e, sobretudo, mudan\u00e7a cultural. Mas o pa\u00eds parece ainda at\u00f4nito diante do fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o internacional ajuda a dimensionar o desafio: Nos\u00a0Estados Unidos, levantamento da AARP mostra que\u00a070% das pessoas com 50 anos ou mais planejam viajar em 2025, contra 65% no ano anterior. Em m\u00e9dia, cada indiv\u00edduo realizou\u00a03,9 viagens\u00a0em 2024, superando a previs\u00e3o inicial. Quase metade pretende fazer viagens internacionais. Trata-se de um indicativo de que, para muitos aposentados norte-americanos, a terceira idade \u00e9 vivida como oportunidade de lazer, descoberta e integra\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>J\u00e1 na\u00a0Alemanha\u00a0e em outros pa\u00edses europeus, onde mais de 21% da popula\u00e7\u00e3o tem 65 anos ou mais, a velhice costuma ser acompanhada por robustos sistemas de bem-estar social, pens\u00f5es adequadas e acesso universal \u00e0 sa\u00fade de qualidade. L\u00e1, o idoso n\u00e3o \u00e9 visto como peso econ\u00f4mico, mas como integrante ativo da vida comunit\u00e1ria. Isso permite que continue participando de atividades culturais, viagens e pr\u00e1ticas esportivas, mantendo-se saud\u00e1vel f\u00edsica e mentalmente.<\/p>\n<p>O contraste com o Brasil \u00e9 contundente. Aqui, um n\u00famero expressivo de aposentados \u00e9 obrigado a retornar ao trabalho para complementar a renda, enquanto outros veem mais da metade de seus proventos drenados por medicamentos e planos de sa\u00fade. Lazer, turismo e cultura tornam-se luxos inalcan\u00e7\u00e1veis. E, em muitos casos, a rede familiar, fragilizada por crises econ\u00f4micas e transforma\u00e7\u00f5es sociais, n\u00e3o consegue prover o suporte afetivo e material necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>O\u00a0Estudo Longitudinal das Condi\u00e7\u00f5es de Sa\u00fade e Bem-Estar da Popula\u00e7\u00e3o Idosa (ELSI), em andamento h\u00e1 seis anos, busca tra\u00e7ar um retrato abrangente dessa popula\u00e7\u00e3o, cruzando dados e mapeando vulnerabilidades. Mas o diagn\u00f3stico, por si s\u00f3, n\u00e3o basta. \u00c9 preciso transformar n\u00fameros em a\u00e7\u00e3o: ampliar centros de conviv\u00eancia, refor\u00e7ar programas de sa\u00fade integral, promover campanhas de valoriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia de vida e treinar profissionais para lidar com as especificidades da terceira idade.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ter papel decisivo. Inserir nas escolas conte\u00fados sobre envelhecimento e respeito intergeracional ajudaria a formar novas gera\u00e7\u00f5es menos propensas \u00e0 indiferen\u00e7a ou \u00e0 viol\u00eancia. Afinal, envelhecer \u00e9 destino comum. A cultura do cuidado n\u00e3o se improvisa; constr\u00f3i-se com o tempo, o mesmo tempo que, se bem usado, transforma longevidade em verdadeira conquista civilizat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Enquanto o Brasil continuar aplaudindo a longevidade apenas como dado estat\u00edstico, sem enfrentar a deteriora\u00e7\u00e3o silenciosa da qualidade de vida, estaremos celebrando uma vit\u00f3ria incompleta. A vida prolongada, quando vivida sob a sombra da viol\u00eancia, da precariedade econ\u00f4mica e da exclus\u00e3o social, deixa de ser b\u00ean\u00e7\u00e3o para se tornar sobreviv\u00eancia. \u00c9 hora de assumir que envelhecer com dignidade n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio: \u00e9 direito. E, como todo direito, precisa ser defendido com pol\u00edticas concretas, recursos consistentes e, acima de tudo, respeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cQualquer um que mantenha a habilidade de enxergar a beleza, n\u00e3o envelhece.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Franz Kafka<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure id=\"attachment_26202\" aria-describedby=\"caption-attachment-26202\" style=\"width: 378px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26202\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/08\/Franz.jpg\" alt=\"\" width=\"378\" height=\"601\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/08\/Franz.jpg 453w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/08\/Franz-189x300.jpg 189w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/08\/Franz-230x366.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 378px) 100vw, 378px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26202\" class=\"wp-caption-text\">O escritor checo Franz Kafka, aos 23 anos. Foto: brasil.elpais<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"gs\">\n<div class=\"\">\n<div id=\":lw\" class=\"ii gt\">\n<div id=\":lx\" class=\"a3s aiL \">\n<div dir=\"ltr\">\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o para por a\u00ed. A chapa n\u00e3o pode ser pregada pelo propriet\u00e1rio do carro, nem a Prefeitura d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, o motorista precisar\u00e1 de parafusos. N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica casa com parafusos a venda nas proximidades. Ter\u00e1 que cair nas m\u00e3os do Paraguaio, que cobra 25 cruzeiros por um parafuso. <strong>(Publicada em 08.05.1962)<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; A expectativa de vida do brasileiro ao nascer chegou, em 2023, a\u00a076,4 anos. 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