{"id":26365,"date":"2025-09-21T10:47:01","date_gmt":"2025-09-21T13:47:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26365"},"modified":"2025-09-30T12:08:47","modified_gmt":"2025-09-30T15:08:47","slug":"26365-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/26365-2\/","title":{"rendered":"Ru\u00ednas como sintoma nacional"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26381\" aria-describedby=\"caption-attachment-26381\" style=\"width: 433px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26381\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file-1.jpg\" alt=\"\" width=\"433\" height=\"436\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file-1.jpg 609w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file-1-298x300.jpg 298w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file-1-550x554.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file-1-230x232.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26381\" class=\"wp-caption-text\">Parada de \u00f4nibus depredada em Ceil\u00e2ndia, Foto: Camila Coimbra \/ Jornal de Bras\u00edlia<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Existe um fen\u00f4meno profundamente arraigado em nossa cultura que, mais do que um simples h\u00e1bito danoso, deveria ser objeto de estudo sistem\u00e1tico e tema de uma esp\u00e9cie de terapia coletiva, conduzida com firmeza e objetividade, antes que essa compuls\u00e3o venha a comprometer de maneira irrevers\u00edvel os la\u00e7os que nos mant\u00eam como na\u00e7\u00e3o. Trata-se da propens\u00e3o nacional, quase inata, em depredar todo e qualquer bem p\u00fablico que se coloque ao alcance de nossas m\u00e3os, como se a destrui\u00e7\u00e3o do que \u00e9 comum fosse um gesto natural, inevit\u00e1vel, e por vezes at\u00e9 justific\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Cidades de todo o pa\u00eds, reflexos imperfeitos de nossa identidade, carregam as marcas dessa mania niilista, dessa psicose urbana que transforma ruas, pra\u00e7as e monumentos em ru\u00ednas precoces. O cen\u00e1rio agrava-se \u00e0 medida que nos afastamos dos grandes centros, onde a presen\u00e7a do poder p\u00fablico se dissolve at\u00e9 se tornar mera lembran\u00e7a, permitindo que a sanha destruidora encontre campo f\u00e9rtil para manifestar-se sem pudor. \u00c9 nesse v\u00e1cuo de vigil\u00e2ncia que desaparecem est\u00e1tuas, bancos de pra\u00e7a, tampas de bueiro, lumin\u00e1rias, chafarizes, ou mesmo jazigos inteiros, a lista \u00e9 infinita, um invent\u00e1rio melanc\u00f3lico daquilo que se constr\u00f3i com recursos coletivos e se perde na voragem de uma multid\u00e3o que parece agir em concerto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Essa compuls\u00e3o pela ru\u00edna n\u00e3o poupa sequer os instrumentos da vida cotidiana: \u00f4nibus, trens, esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4, abrigos de parada, rodovi\u00e1rias, banheiros p\u00fablicos, placas de orienta\u00e7\u00e3o, nada escapa ao olhar corrosivo de uma sociedade que confunde vandalismo com catarse. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos diante de uma guerra sem inimigos definidos, em que o advers\u00e1rio invis\u00edvel somos n\u00f3s mesmos. Hannah Arendt, em sua an\u00e1lise sobre a banalidade do mal, lembrava que os maiores desastres sociais n\u00e3o prov\u00eam de monstros excepcionais, mas de comportamentos cotidianos, aceitos sem questionamento. O vandalismo que corrompe o espa\u00e7o urbano parece ecoar esse mesmo esp\u00edrito: n\u00e3o se trata de gestos isolados, mas de uma corros\u00e3o silenciosa e repetida, que, somada, d\u00e1 forma a uma paisagem em permanente estado de ru\u00edna.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Talvez essa psicose coletiva encontre ra\u00edzes no ambiente social em que estamos mergulhados. Afinal, um pa\u00eds em que mais de 60 mil pessoas perdem a vida anualmente em atos de viol\u00eancia, \u00edndice que supera as baixas de muitos conflitos armados no mundo contempor\u00e2neo, n\u00e3o poderia deixar de refletir, tamb\u00e9m no espa\u00e7o f\u00edsico de suas cidades, essa cultura da agress\u00e3o, da ruptura e da aus\u00eancia de limites.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Como bem observou o antrop\u00f3logo Roberto DaMatta, \u201ca viol\u00eancia no Brasil \u00e9 o avesso da cidadania\u201d; e onde n\u00e3o h\u00e1 cidadania, o espa\u00e7o comum converte-se em territ\u00f3rio de disputa, sem regras, onde destruir o que \u00e9 de todos equivale a afirmar uma esp\u00e9cie de poder ef\u00eamero sobre o caos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Diante desse quadro, duas medidas se apresentam como urgentes e inadi\u00e1veis. A primeira \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o de base, incumbindo-se as escolas n\u00e3o apenas da alfabetiza\u00e7\u00e3o formal, mas da forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os conscientes de que o patrim\u00f4nio coletivo \u00e9 extens\u00e3o de si pr\u00f3prios. O soci\u00f3logo \u00c9mile Durkheim j\u00e1 advertia que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9, acima de tudo, \u201ca socializa\u00e7\u00e3o met\u00f3dica das novas gera\u00e7\u00f5es\u201d. N\u00e3o se trata, portanto, de mero adestramento para o trabalho, mas de um processo civilizador, em que se aprende, antes de tudo, a respeitar os limites, as normas e os s\u00edmbolos que nos constituem como sociedade. Ensinar uma crian\u00e7a a zelar por um banco de pra\u00e7a ou por um mural hist\u00f3rico \u00e9 talvez t\u00e3o fundamental quanto ensin\u00e1-la a decifrar as letras de um alfabeto: sem o senso de pertencimento, todo conhecimento t\u00e9cnico ser\u00e1 fr\u00e1gil, sujeito a desmoronar diante da primeira frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A segunda medida, complementar \u00e0 primeira, \u00e9 a puni\u00e7\u00e3o exemplar dos que se dedicam a alimentar esse c\u00edrculo vicioso da degrada\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata aqui de cultivar um punitivismo cego, mas de aplicar com rigor aquilo que Norberto Bobbio definia como \u201ca san\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do pacto social\u201d. \u00c9 preciso que o v\u00e2ndalo, ao ser flagrado em sua a\u00e7\u00e3o destrutiva, saiba que a consequ\u00eancia vir\u00e1 r\u00e1pida, proporcional e inevit\u00e1vel, seja no ressarcimento financeiro, seja na restri\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria da liberdade. Sem isso, a impunidade continuar\u00e1 a operar como convite aberto para que a insanidade coletiva prossiga seu trabalho de dissolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A psicologia urbana j\u00e1 demonstrou que ambientes degradados geram, por si mesmos, mais degrada\u00e7\u00e3o. No Brasil, esse c\u00edrculo vicioso est\u00e1 mais do que evidente: cidades mal iluminadas, sujas e deterioradas n\u00e3o apenas fomentam o crime, mas produzem um estado psicol\u00f3gico coletivo de medo e hostilidade, em que at\u00e9 mesmo o estrangeiro enxerga em nossas ruas mais um campo de batalha do que um espa\u00e7o de conviv\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a imagem de nossas cidades como feias, violentas e amea\u00e7adoras ecoa nos relatos de turistas e nos relat\u00f3rios de organismos internacionais, prejudicando tamb\u00e9m a economia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Mas h\u00e1 uma dimens\u00e3o ainda mais profunda e inc\u00f4moda: o vandalismo n\u00e3o \u00e9 apenas fruto de uma massa an\u00f4nima e descontrolada, mas um reflexo do comportamento das elites pol\u00edticas e administrativas. Quando os exemplos de cima reiteram, ano ap\u00f3s ano, a neglig\u00eancia, a apropria\u00e7\u00e3o indevida e o desrespeito ao bem p\u00fablico, n\u00e3o surpreende que a popula\u00e7\u00e3o internalize o mesmo padr\u00e3o, transformando-o em a\u00e7\u00e3o direta contra o espa\u00e7o coletivo. Gustave Le Bon j\u00e1 advertia que \u201cas massas nunca t\u00eam sede de verdade; elas se afastam das evid\u00eancias que n\u00e3o lhes agradam, preferindo deificar o erro, caso este as seduza\u201d.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Em \u00faltima an\u00e1lise, o vandalismo contra o bem p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a ou de urbanismo: \u00e9 o sintoma de uma doen\u00e7a coletiva que exige tanto m\u00e9dicos quanto ju\u00edzes, tanto professores quanto l\u00edderes exemplares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><em>\u201cA propriedade pode ser destru\u00edda e o dinheiro pode perder seu poder de compra; mas car\u00e1ter, sa\u00fade, conhecimento e bom senso sempre ser\u00e3o exigidos em todas as condi\u00e7\u00f5es.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Roger Babson<\/p>\n<figure id=\"attachment_26379\" aria-describedby=\"caption-attachment-26379\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26379\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file.jpg 555w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file-232x300.jpg 232w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file-550x713.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/unnamed-file-230x298.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26379\" class=\"wp-caption-text\">Roger Babson. Foto: centennial.babson.edu<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia:<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Movimento justo, mas desorganizado, o dos funcion\u00e1rios da Novacap. Foram reivindicar aumento, mas a falta de um l\u00edder f\u00eaz com que a massa que ia participar de um movimento s\u00e9rio, fizesse rir aos que serviam como espectadores. <strong>(Publicada em 10.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; Existe um fen\u00f4meno profundamente arraigado em nossa cultura que, mais do que um simples h\u00e1bito danoso, deveria ser objeto de estudo sistem\u00e1tico e tema de uma esp\u00e9cie de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[2337,2338,2339,114,2340],"class_list":["post-26365","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-integra-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-circecunha-2","tag-historiadebrasilia","tag-mamfil-2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26365"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26365\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26382,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26365\/revisions\/26382"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}