{"id":26385,"date":"2025-09-25T01:00:52","date_gmt":"2025-09-25T04:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26385"},"modified":"2025-09-30T13:22:17","modified_gmt":"2025-09-30T16:22:17","slug":"propaganda-a-luz-do-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/propaganda-a-luz-do-dia\/","title":{"rendered":"Propaganda \u00e0 luz do dia"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26387\" aria-describedby=\"caption-attachment-26387\" style=\"width: 535px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26387\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/demo.jpg\" alt=\"\" width=\"535\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/demo.jpg 624w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/demo-300x210.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/demo-550x385.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/09\/demo-230x161.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 535px) 100vw, 535px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26387\" class=\"wp-caption-text\">Charge: autor desconhecido (todamateria.com)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o \u00e9 de hoje que se conhece o poder da propaganda na forma\u00e7\u00e3o de regimes autorit\u00e1rios. O poder que ela exerce no subconsciente humano \u00e9 evidente. Pela propaganda, regimes que buscam se perenizar no poder atuam no controle e manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica. Ficasse apenas nesse patamar de ilusionismo, tudo bem. Ocorre que a propaganda estimula, ao seu modo, amea\u00e7as subliminares contra os que discordam, classificando-os como cidad\u00e3os de segunda ordem, que &#8220;uma boa bala e uma bela cova&#8221; resolvem, pois &#8220;devem ser extirpados&#8221; da cena nacional.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que a propaganda \u00e9 um dos instrumentos mais eficazes na constru\u00e7\u00e3o e na manuten\u00e7\u00e3o de regimes autorit\u00e1rios. Historicamente, ministros da propaganda e aparelhos de comunica\u00e7\u00e3o de Estado ajudaram a transformar mensagens repetidas em certezas coletivas: Joseph Goebbels, por exemplo, foi pe\u00e7a-chave na consolida\u00e7\u00e3o da imagem do regime nazista e na naturaliza\u00e7\u00e3o de um discurso de \u00f3dio e elimina\u00e7\u00e3o. Hoje, o que mudou n\u00e3o \u00e9 o princ\u00edpio psicol\u00f3gico por tr\u00e1s da propaganda, e sim sua escala, velocidade e sofistica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Continuamente, a repeti\u00e7\u00e3o de mensagens em ambientes multim\u00eddia fabrica familiaridade; a familiaridade gera sensa\u00e7\u00e3o de veracidade (o chamado illusory truth effect), e essa din\u00e2mica vale tanto para slogans benignos quanto para narrativas conspirat\u00f3rias ou desumanizantes. Em termos pr\u00e1ticos, quanto mais uma ideia aparece em TV, r\u00e1dio, buscadores, feeds e outdoors mais f\u00e1cil ela ser\u00e1 aceita como \u201cfato\u201d por um p\u00fablico ocupado e sobrecarregado de informa\u00e7\u00e3o. No plano institucional brasileiro, essa realidade ganha contornos particularmente perigosos quando a m\u00e1quina p\u00fablica vira fonte massiva de financiamento para comunica\u00e7\u00e3o privada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Documentos oficiais e levantamentos mostram que contratos e licita\u00e7\u00f5es da Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o (Secom), estatais e bancos p\u00fablicos chegam a somas expressivas e que, em contratos recentes, valores na casa das centenas de milh\u00f5es aparecem com frequ\u00eancia. A pr\u00f3pria Secom publicou notas e contratos que explicam aditivos e valores de contratos multimilion\u00e1rios. Al\u00e9m disso, bases p\u00fablicas de transpar\u00eancia detalham pagamentos e programas classificados como \u201cpublicidade de utilidade p\u00fablica\u201d, com grandes quantias destinadas a ag\u00eancias e ve\u00edculos que figuram entre os maiores recebedores dessas verbas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Para cr\u00edticos, esse movimento, somado a contratos de estatais e bancos, cria um c\u00edrculo virtuoso para os grandes conglomerados de m\u00eddia\u00a0 o que muitos chamam, em discursos p\u00fablicos e nas redes, de \u201ccons\u00f3rcio\u201d. Por que isso importa? Porque dinheiro compra alcance e alcance compra agenda-setting ou seja: quem recebe os maiores contratos tem maior capacidade de repetir discursos, definir quais temas ocupam as manchetes e quais atores s\u00e3o humanizados ou desumanizados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Quando a propaganda institucional \u00e9 usada com crit\u00e9rios pol\u00edticos e partid\u00e1rios e n\u00e3o exclusivamente informativos ou de utilidade p\u00fablica, a linha que separa comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica de propaganda partid\u00e1ria se torna t\u00eanue ou desaparece por completo. Essa tend\u00eancia amplia a reciclabilidade das narrativas no espa\u00e7o p\u00fablico e reduz a visibilidade de vozes dissidentes ou independentes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Dados recentes sobre licita\u00e7\u00f5es para comunica\u00e7\u00e3o digital e contratos estrat\u00e9gicos tamb\u00e9m apontam para um foco crescente em campanhas online e gerenciamento de reputa\u00e7\u00e3o institucional. A propaganda n\u00e3o age apenas com argumentos, ela trabalha com imagens, met\u00e1foras e com a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia simb\u00f3lica. A desumaniza\u00e7\u00e3o progressiva do advers\u00e1rio trat\u00e1-lo como \u201cinimigo\u201d, \u201ctraidor\u201d, \u201cp\u00e1ria\u201d, \u00e9 um passo que transforma legitima\u00e7\u00e3o em permiss\u00e3o: quando um grupo \u00e9 repetidamente enquadrado como perigosamente diferente, somem os freios morais que tornam inaceit\u00e1vel a viol\u00eancia f\u00edsica. Em palavras mais diretas: a cultura do \u00f3dio se alimenta da repeti\u00e7\u00e3o, do financiamento e da amplifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Estudos sobre persuas\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o deixam claro que esse processo tem efeitos cognitivos mensur\u00e1veis; na pol\u00edtica, seus efeitos s\u00e3o sociais e tang\u00edveis. H\u00e1, portanto, uma tens\u00e3o clara entre tr\u00eas vetores, o papel leg\u00edtimo do Estado em informar e educar; o direito \u00e0 publicidade e contrata\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de comunica\u00e7\u00e3o por parte de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e o risco de captura desses instrumentos para construir favores pol\u00edticos e favorecer agrupamentos midi\u00e1ticos que replicam uma mesma vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O rem\u00e9dio n\u00e3o \u00e9 censura que por si s\u00f3 seria ferramenta autorit\u00e1ria, mas regras claras, transpar\u00eancia e pluralidade. Transpar\u00eancia real e em tempo \u00fatil sobre contratos, crit\u00e9rios de distribui\u00e7\u00e3o de verbas e m\u00e9tricas usadas para escolher ve\u00edculos e ag\u00eancias (auditoria independente). Crit\u00e9rios p\u00fablicos que separem publicidade institucional informa\u00e7\u00e3o sobre pol\u00edticas p\u00fablicas, sa\u00fade, seguran\u00e7a, de comunica\u00e7\u00e3o de imagem governamental\u00a0 com limites temporais e controles legais. Investimento em m\u00eddia p\u00fablica independente e regional, com governan\u00e7a que minimize indica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e maximize pluralidade. Fortalecimento de jornalismo local, de fact-checking e de alfabetiza\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica para tornar a sociedade menos vulner\u00e1vel ao efeito da repeti\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Por fim, um apelo combater a propaganda nociva exige que o p\u00fablico recupere um papel ativo de escrut\u00ednio. Somos n\u00f3s leitores, ouvintes, eleitores que podemos transformar familiaridade em d\u00favida produtiva, buscar fontes, exigir presta\u00e7\u00e3o de contas dos gastos p\u00fablicos em comunica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o aceitar a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia simb\u00f3lica. Sem isso, argumentos e cifras se transformam em um eco que, pouco a pouco, muda o que consideramos poss\u00edvel ou aceit\u00e1vel. De olho nos recursos infindos, que sustentam o que chamam de um \u201ccons\u00f3rcio\u201d, que afinal n\u00e3o \u00e9 mais do que um arranjo pol\u00edtico antinatural e anticonstitucional e que infecciona a democracia na carne,\u00a0 matando-a \u00e0 facadas , na cara de todos, o meio da pra\u00e7a, \u00e0 luz do dia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><em>\u201cNo fundo s\u00f3 h\u00e1 duas pol\u00edticas: a pol\u00edtica de governo e a pol\u00edtica de oposi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Joaquim Nabuco<\/p>\n<figure id=\"attachment_15954\" aria-describedby=\"caption-attachment-15954\" style=\"width: 342px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-15954\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/02\/Joaquim-Nabuco.jpg\" alt=\"\" width=\"342\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/02\/Joaquim-Nabuco.jpg 342w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/02\/Joaquim-Nabuco-221x300.jpg 221w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/02\/Joaquim-Nabuco-257x350.jpg 257w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/02\/Joaquim-Nabuco-230x313.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 342px) 100vw, 342px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-15954\" class=\"wp-caption-text\">Foto: camara.leg<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Como sempre, n\u00e3o faltam as cenas deprimentes. Um \u00f4nibus da Marinha quis atravessar com o tr\u00e2nsito interrompido, e desobedeceu a um guarda do DFSP. O povo vaiou os ocupantes, e um sargento da Marinha amea\u00e7ou sacando um revolver.\u00a0<strong>(Publicado em 10.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; N\u00e3o \u00e9 de hoje que se conhece o poder da propaganda na forma\u00e7\u00e3o de regimes autorit\u00e1rios. O poder que ela exerce no subconsciente humano \u00e9 evidente. 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