{"id":26459,"date":"2025-10-09T01:00:19","date_gmt":"2025-10-09T04:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26459"},"modified":"2025-10-09T11:59:09","modified_gmt":"2025-10-09T14:59:09","slug":"a-parte-visivel-nua-e-crua-da-nossa-crise-economica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/a-parte-visivel-nua-e-crua-da-nossa-crise-economica\/","title":{"rendered":"A parte vis\u00edvel, nua e crua da nossa crise econ\u00f4mica"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26465\" aria-describedby=\"caption-attachment-26465\" style=\"width: 523px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26465\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/mora.jpg\" alt=\"\" width=\"523\" height=\"312\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/mora.jpg 1160w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/mora-300x179.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/mora-768x458.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/mora-1024x611.jpg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/mora-800x477.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/mora-550x328.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/mora-230x137.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 523px) 100vw, 523px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26465\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Paulo Pinto\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que Calcut\u00e1 \u00e9 aqui. E n\u00e3o sem raz\u00e3o. De acordo com o Observat\u00f3rio da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua no Brasil dobrou em pouco menos de dois anos, passando de 160 mil para 345 mil em 2025. Temos agora nessa condi\u00e7\u00e3o uma popula\u00e7\u00e3o maior do que muitas cidades brasileiras, numa clara demonstra\u00e7\u00e3o de que o empobrecimento de uma parcela significativa dos brasileiros segue aumentando perigosamente.<\/p>\n<p>Sobretudo para aqueles que habitam nas grandes capitais do pa\u00eds, \u00e9 cada vez mais vis\u00edvel e preocupante o n\u00famero de pessoas pedindo esmolas ou vivendo de pequenos bicos. Essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 um forte indicador, maior at\u00e9 do que qualquer estat\u00edstica econ\u00f4mica a mostrar de que estamos, mais uma vez, num r\u00e1pido processo de empobrecimento geral, onde nem mesmo a classe m\u00e9dia parece escapar. Some-se a esse fator observ\u00e1vel o fato de que h\u00e1, nas principais ruas de com\u00e9rcio do pa\u00eds, um n\u00famero assustador de estabelecimentos varejistas fechando as portas.<\/p>\n<p>Crise econ\u00f4mica, infla\u00e7\u00e3o e mesmo d\u00e9ficit habitacional t\u00eam se somado para expulsar as pessoas de suas casas. A crise urbana \u00e9 o lado escuro de uma realidade que nenhuma propaganda do governo consegue esconder. A mis\u00e9ria salta aos olhos. Nas cal\u00e7adas, nas pra\u00e7as, nos viadutos e nas ocupa\u00e7\u00f5es improvisadas, vive uma popula\u00e7\u00e3o em carne e osso cuja realidade fere qualquer discurso oficial: s\u00e3o centenas de milhares de brasileiros que perderam o teto, a dignidade, a seguran\u00e7a m\u00ednima para existir.<\/p>\n<p>A partir desses rastros visuais tanto quanto dos n\u00fameros frios, revela-se uma crise social t\u00e3o concreta quanto cruel, cujo agravamento recente exp\u00f5e falhas sist\u00eamicas, indecis\u00f5es e omiss\u00f5es do governo federal.\u00a0Segundo levantamento do Observat\u00f3rio Brasileiro de Pol\u00edticas P\u00fablicas com a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua, o Brasil viu em menos de dois anos um crescimento explosivo e incontrol\u00e1vel no n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua e de extrema pobreza. Em dezembro de 2024, estimava-se que \u00a0327.925 pessoas estavam vivendo nas ruas, ou seja, um aumento de cerca de 25% em apenas um ano, em compara\u00e7\u00e3o ao fim de 2023. Em mar\u00e7o de 2025, o dado sobe de novo para 335.151 pessoas nessa condi\u00e7\u00e3o, de acordo com os registros do Cadastro \u00danico do Governo federal.<\/p>\n<p>Diversos perfis dessa popula\u00e7\u00e3o\u00a0 denunciam escancaradamente desigualdades estruturais: cerca de 85% s\u00e3o homens, 70% s\u00e3o pessoas negras, quase 10 mil s\u00e3o menores de 17 anos e mais de 30 mil, idosos, segundo levantamento do Observat\u00f3rio Brasileiro de Pol\u00edticas P\u00fablicas com a Popula\u00e7\u00e3o em Situa\u00e7\u00e3o de Rua. A maor parte n\u00e3o tem acesso a nenhum abrigo.<\/p>\n<p>Mas os moradores de rua s\u00e3o apenas a ponta vis\u00edvel de um iceberg ainda maior.\u00a0No mercado de trabalho, por exemplo, h\u00e1 dados contradit\u00f3rios: as taxas de desemprego formal baixam, em termos percentuais oficiais a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o chegou a 5,8% no segundo trimestre de 2025, o menor patamar da s\u00e9rie hist\u00f3rica do IBGE, que come\u00e7ou em 2012. Tamb\u00e9m o rendimento m\u00e9dio dos trabalhadores com carteira assinada tem apresentado recordes em algumas frentes, embora isso n\u00e3o signifique necessariamente que esse rendimento seja suficiente para suprir necessidades b\u00e1sicas. Contudo, esse quadro melhorado em parte do emprego formal contrasta violentamente com a viol\u00eancia da infla\u00e7\u00e3o, os elevados juros, o alto custo de vida, a informalidade persistente ou crescente, e sobretudo com a incapacidade de muitas fam\u00edlias da chamada \u201cclasse m\u00e9dia baixa\u201d de manter padr\u00f5es de vida razo\u00e1veis.<\/p>\n<p>Outro dado que denuncia o empobrecimento coletivo: o varejo, term\u00f4metro das economias dom\u00e9sticas, demonstra fragilidade cr\u00f4nica. Um levantamento da empresa de intelig\u00eancia geogr\u00e1fica Cortex mostra que, entre janeiro de 2014 at\u00e9 agosto de 2024, foram abertas 11,6 milh\u00f5es de lojas, mas 7 milh\u00f5es fecharam nesse mesmo per\u00edodo. Ou seja: para cada 10 estabelecimentos novos, quase seis fecham as portas num prazo que, em muitos casos, \u00e9 curto demais para recuperar o investimento. Isso significa n\u00e3o apenas perda de empregos diretos e indiretos, mas uma deteriora\u00e7\u00e3o da oferta econ\u00f4mica local, fechamento de com\u00e9rcio de rua, perda de renda para comerciantes menores, deteriora\u00e7\u00e3o urbana. \u00c9 tamb\u00e9m sinal de inseguran\u00e7a de investimentos, de cr\u00e9dito caro ou inacess\u00edvel, de custos fixos que vencem receitas espremidas pela infla\u00e7\u00e3o ou pela queda no poder de compra.<\/p>\n<p>Se escavarmos os discursos oficiais, encontramos promessas de planos e programas: \u201cPlano Ruas Vis\u00edveis\u201d, articula\u00e7\u00f5es para assist\u00eancia social, aux\u00edlios, habita\u00e7\u00e3o. Ocorre que, frente aos n\u00fameros, essas promessas se mostram insuficientes, lentas ou mal aplicadas. O d\u00e9ficit habitacional, apontado em v\u00e1rios estudos, permanece gigantesco; h\u00e1 muitos im\u00f3veis vazios nas grandes cidades, mas faltam pol\u00edticas efetivas de ocupa\u00e7\u00e3o, reforma, uso desses im\u00f3veis para abrigos ou habita\u00e7\u00e3o social. Tamb\u00e9m se nota que mesmo com desemprego em queda, a informalidade continua alta\u00a0 muitos empregados sem carteira ou em trabalho por conta pr\u00f3pria subsistem sem prote\u00e7\u00e3o social, sem estabilidade, com rendas que mal cobrem os aumentos de custos. Os ajustes fiscais feitos para controlar infla\u00e7\u00e3o ou d\u00e9ficit p\u00fablico, muitas vezes via juros elevados ou cortes em programas de assist\u00eancia, agravam a desigualdade ou empurram fam\u00edlias para a beira da linha de pobreza.<\/p>\n<p>O que os n\u00fameros n\u00e3o contam apenas em estat\u00edsticas, contam nas ruas: um pa\u00eds que convive de novo com pobreza vis\u00edvel, com pessoas pedindo esmolas, com crian\u00e7as dormindo sob marquises, com fam\u00edlias que perdem a casa ou cedem espa\u00e7o de moradia para d\u00edvidas ou para priorizar alimenta\u00e7\u00e3o. O pior \u00e9 que, ao longo dos \u00faltimos anos, o governo repetiu erros que agravam a crise, com a subestima\u00e7\u00e3o da gravidade econ\u00f4mica social quando pol\u00edticas s\u00e3o desenhadas com base em m\u00e9dias macroecon\u00f4micas otimistas, ignorando o sufoco das fam\u00edlias. \u00c9 o caso das pol\u00edticas de controle inflacion\u00e1rio que penalizam os pobres, como juros altos, tarifas energ\u00e9ticas ou congelamentos mal-calibrados.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 a descontinuidade ou a lentid\u00e3o na execu\u00e7\u00e3o de programas sociais prometidos: demora em construir, reformar, entregar apoio direto ou habita\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m a estrutura tribut\u00e1ria desigual e os custos de vida crescentes (energia, transporte, alimentos) que corroem qualquer ganho de renda formal. Por fim, o foco excessivo em indicadores de emprego e formaliza\u00e7\u00e3o, sem assegurar qualidade de vida, prote\u00e7\u00e3o social, moradia, acesso \u00e0 sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Reformas consideradas estruturais em tributa\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia social, acesso ao cr\u00e9dito n\u00e3o s\u00e3o luxo, s\u00e3o urg\u00eancia. Caso contr\u00e1rio, veremos um pa\u00eds \u201ccom rosto de Calcut\u00e1\u201d se expandir para al\u00e9m dos centros urbanos, em cada esquina, em cada vitrine fechada. Este \u00e9 o momento de responsabilidade: ou se muda o curso com coragem, ou aceitaremos que a mis\u00e9ria se torne rotina tamb\u00e9m para muitos que ainda hoje creem estar fora dela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>\u201cA pobreza n\u00e3o \u00e9 um apelo a uma a\u00e7\u00e3o generosa de socorro, mas uma demanda para que mudemos as estruturas da sociedade que tornam os pobres mais pobres\u201d.<\/em><br \/>\nSem autor, na internet<\/p>\n<figure id=\"attachment_26463\" aria-describedby=\"caption-attachment-26463\" style=\"width: 524px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26463\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pob.jpg\" alt=\"\" width=\"524\" height=\"384\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pob.jpg 931w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pob-300x220.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pob-768x563.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pob-800x586.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pob-550x403.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pob-230x168.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 524px) 100vw, 524px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26463\" class=\"wp-caption-text\">Charge do Cazo<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nA coluna atr\u00e1s da Igrejinha N. S. de F\u00e1tima est\u00e1 com esta inscri\u00e7\u00e3o feita apressadamente: \u201cPadre, n\u00e3o. Comunista, sim.\u201d Obra de desocupado, de quem n\u00e3o tem o que fazer. <strong>(Publicada em 10\/5\/1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; H\u00e1 quem diga que Calcut\u00e1 \u00e9 aqui. E n\u00e3o sem raz\u00e3o. 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