{"id":26492,"date":"2025-10-18T01:00:38","date_gmt":"2025-10-18T04:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26492"},"modified":"2025-10-22T10:45:33","modified_gmt":"2025-10-22T13:45:33","slug":"colapso-a-vista-ou-a-prazo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/colapso-a-vista-ou-a-prazo\/","title":{"rendered":"Colapso \u00e0 vista ou a prazo"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26496\" aria-describedby=\"caption-attachment-26496\" style=\"width: 515px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26496\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pos.jpg\" alt=\"\" width=\"515\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pos.jpg 712w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pos-300x198.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pos-550x362.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/pos-230x152.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 515px) 100vw, 515px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26496\" class=\"wp-caption-text\">Charge do Duke<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para um mundo t\u00e3o conectado como o nosso, surpreende que as pessoas se sintam e reclamem que nunca se sentiram t\u00e3o sozinhas. H\u00e1 um hiato imenso a separar o mundo virtual da realidade. Mas poucos percebem ou entendem esse fato simples. S\u00e3o em brechas assim, criadas pelo avan\u00e7o das tecnologias e por onde medra a solid\u00e3o humana, que surgem novos conceitos tentando explicar a coexist\u00eancia entre esses dois mundos t\u00e3o diversos e distantes. Um desses conceitos \u00e9 o da \u201cp\u00f3s-verdade\u201d. O termo, que parece sofisticado, \u00e9, na verdade, o sintoma de um colapso mais profundo: o da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Vivemos um tempo paradoxal. Nunca o mundo esteve t\u00e3o conectado, t\u00e3o pr\u00f3ximo em apar\u00eancia e t\u00e3o distante em ess\u00eancia. \u00c0 cada toque, um universo de informa\u00e7\u00f5es se abre diante de n\u00f3s; \u00e0 cada clique, a ilus\u00e3o de pertencimento se renova. E, no entanto, jamais estivemos t\u00e3o s\u00f3s. \u00c9 a solid\u00e3o das telas, o eco do vazio nas redes, a ang\u00fastia de uma conviv\u00eancia mediada por algoritmos. Entre o mundo virtual e a realidade concreta, ergue-se um abismo que poucos percebem, e menos ainda compreendem.<\/p>\n<p>Nesse ponto, o mundo virtual se aproxima da realidade que est\u00e1 a\u00ed. Moldar a opini\u00e3o p\u00fablica e os mecanismos mentais das massas, levando-as a crer que os fatos objetivos j\u00e1 n\u00e3o importam para entender o mundo em volta. As emo\u00e7\u00f5es e as cren\u00e7as passam a ocupar ou usurpar o lugar da racionalidade e mesmo do bom senso. A esse novo conceito, liga-se a pol\u00edtica p\u00f3s-factual, no qual os debates perdem lugar para apelos emocionais e cren\u00e7as. O fato em si n\u00e3o interessa. Importa o sentimento que ele provocou no seio da sociedade. \u00c9 o caso aqui de citar como exemplo, a tese, levantada de que a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato causou um s\u00e9rio preju\u00edzo econ\u00f4mico para o pa\u00eds, gerando milhares de desempregados, al\u00e9m de comprometer boa parte do desempenho da ind\u00fastria nacional.<\/p>\n<p>O Brasil experimenta, assim como parte de alguns pa\u00edses da Europa, os efeitos de um aut\u00eantico processo de p\u00f3s-verdade. Para mant\u00ea-las distante, \u00e9 preciso a\u00e7ular as polariza\u00e7\u00f5es ao extremo. A come\u00e7ar a chamar de extremista quem quer que discorde do discurso dominante. No futuro, os historiadores ter\u00e3o que consultar, antes de qualquer pesquisa acad\u00eamica s\u00e9ria, o verbete \u201cp\u00f3s-verdade\u201d, para depois entender o contexto geral dos acontecimentos, naqueles tempos confusos em que at\u00e9 a linguagem foi alterada em suas bases.<\/p>\n<p>A p\u00f3s-verdade n\u00e3o nega a exist\u00eancia dos fatos; ela simplesmente os torna irrelevantes. O que passa a importar n\u00e3o \u00e9 o que \u00e9, mas o que se sente. Em seu imp\u00e9rio, a emo\u00e7\u00e3o subjuga o racioc\u00ednio, a cren\u00e7a substitui a prova, e o discurso domina a realidade. \u00c9 o triunfo do parecer sobre o ser, da impress\u00e3o sobre o conhecimento.<\/p>\n<p>Nas democracias ocidentais, e o Brasil n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, o fen\u00f4meno se manifesta com uma nitidez assustadora. A pol\u00edtica, transformada em espet\u00e1culo, trocou o debate de ideias pela dramaturgia das redes sociais. A l\u00f3gica cedeu espa\u00e7o \u00e0 histeria, e os argumentos, \u00e0s narrativas. A opini\u00e3o p\u00fablica deixou de ser fruto da reflex\u00e3o coletiva para tornar-se um produto moldado por m\u00e1quinas de convencimento emocional. A pol\u00edtica p\u00f3s-factual \u00e9 o rosto institucional dessa nova era. Quando os fatos deixam de ter peso, qualquer tese pode florescer, desde que embalada por apelos sentimentais e compartilhada milh\u00f5es de vezes. Basta um fragmento de verdade, distorcido e repetido, para se tornar dogma. Assim, quando um pol\u00edtico experiente afirma que a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato foi a respons\u00e1vel pela crise econ\u00f4mica, n\u00e3o est\u00e1 preocupado em confrontar dados ou medir consequ\u00eancias objetivas; interessa-lhe apenas o efeito emocional da frase, a rea\u00e7\u00e3o que ela provoca, o ressentimento que alimenta.<\/p>\n<p>Vivemos um tempo em que o contradit\u00f3rio \u00e9 tratado como amea\u00e7a, e o pensamento independente, como extremismo. A cr\u00edtica virou heresia; o di\u00e1logo, confronto. Para que a p\u00f3s-verdade se sustente, \u00e9 necess\u00e1rio que a sociedade se polarize at\u00e9 o limite. Quanto mais divididos estivermos, mais fr\u00e1geis seremos diante das narrativas que nos prometem sentido. Mas esse processo n\u00e3o \u00e9 apenas pol\u00edtico. \u00c9 civilizacional. A linguagem, que sempre foi o espelho do pensamento, come\u00e7a a se deformar. Palavras antigas perdem significado; outras, rec\u00e9m-inventadas, passam a dominar o vocabul\u00e1rio coletivo. \u00c9 uma Babel digital em que todos falam, mas poucos se entendem. A velocidade da informa\u00e7\u00e3o destr\u00f3i o tempo da reflex\u00e3o. A superficialidade virou m\u00e9todo; a d\u00favida, crime.<\/p>\n<p>Nesse contexto surreal, em que a mentira adquire status de opini\u00e3o e a verdade \u00e9 vista como arrog\u00e2ncia, o papel da imprensa torna-se ainda mais essencial e cada vez mais dif\u00edcil. O jornalismo, que nasceu para separar o fato da fic\u00e7\u00e3o, precisa agora resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de se tornar ele pr\u00f3prio uma narrativa. Em tempos de p\u00f3s-verdade, reportar \u00e9 um ato de coragem; investigar um gesto de resist\u00eancia. E o que vir\u00e1 depois? Se j\u00e1 habitamos o territ\u00f3rio da p\u00f3s-verdade, talvez estejamos a um passo daquilo que poder\u00edamos chamar de p\u00f3s-verdade-p\u00f3s. Uma era em que at\u00e9 o simulacro se desfa\u00e7a e o real deixa de ser relevante. Um tempo em que o virtual n\u00e3o mais imite o mundo, mas o substitua. Nessa fase, n\u00e3o haver\u00e1 sequer a pretens\u00e3o de convencer, bastar\u00e1 emocionar. N\u00e3o se disputar\u00e1 mais o sentido dos fatos, mas o direito de senti-los. O perigo \u00e9 que, nesse horizonte, a pr\u00f3pria ideia de verdade, essa no\u00e7\u00e3o que estruturou mil\u00eanios de cultura e filosofia, torne-se uma rel\u00edquia. Um conceito antigo, talvez rom\u00e2ntico, de um tempo em que ainda acredit\u00e1vamos que a raz\u00e3o pudesse iluminar as sombras.<\/p>\n<p>Contudo, ainda h\u00e1 uma sa\u00edda. Ela come\u00e7a na consci\u00eancia individual de que pensar \u00e9 um ato de liberdade. Que duvidar \u00e9 uma virtude, n\u00e3o um defeito. Que a verdade, por mais inc\u00f4moda que seja, \u00e9 o \u00fanico solo firme sobre o qual uma sociedade pode erguer-se. Se a verdade for mesmo abolida, se nos rendermos \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es e ao conforto das cren\u00e7as, ent\u00e3o o que vir\u00e1 depois da p\u00f3s-verdade n\u00e3o ser\u00e1 uma nova era, mas a repeti\u00e7\u00e3o de caminhos longes da verdade nua e crua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cEnt\u00e3o aqui cabem as seguintes perguntas: Isso a que se hoje se nomeia \u201cp\u00f3s-verdade\u201d, n\u00e3o seria apenas uma nova fachada para um fen\u00f4meno bem antigo, a saber, a mentira na pol\u00edtica?\u201d<\/em><\/p>\n<p>Charles Feitosa<\/p>\n<figure id=\"attachment_26495\" aria-describedby=\"caption-attachment-26495\" style=\"width: 523px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26495\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/charles.jpg\" alt=\"\" width=\"523\" height=\"279\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/charles.jpg 740w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/charles-300x160.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/charles-550x293.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/10\/charles-230x122.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 523px) 100vw, 523px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26495\" class=\"wp-caption-text\">Charles Feitosa. Foto: sescsp.org<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>A Asa Norte do Plano Piloto continua com os mesmos problemas de h\u00e1 seis meses. No lado comercial, n\u00e3o h\u00e1 compradores, e no lado residencial, n\u00e3o h\u00e1 comerciantes.\u00a0<strong>(Publicada em 10.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; Para um mundo t\u00e3o conectado como o nosso, surpreende que as pessoas se sintam e reclamem que nunca se sentiram t\u00e3o sozinhas. 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