{"id":26552,"date":"2025-11-01T01:00:06","date_gmt":"2025-11-01T04:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26552"},"modified":"2025-11-03T14:22:30","modified_gmt":"2025-11-03T17:22:30","slug":"cancelamento-nosso-de-cada-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/cancelamento-nosso-de-cada-dia\/","title":{"rendered":"Cancelamento nosso de cada dia"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26555\" aria-describedby=\"caption-attachment-26555\" style=\"width: 582px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26555\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cancel.jpg\" alt=\"\" width=\"582\" height=\"446\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cancel.jpg 799w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cancel-300x230.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cancel-768x588.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cancel-550x421.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cancel-230x176.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 582px) 100vw, 582px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26555\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: portaldacomunicacao.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Infelizmente, o s\u00e9culo XXI, com todos os avan\u00e7os na ci\u00eancia que estamos presenciando, n\u00e3o foi capaz ainda de se livrar dos v\u00edcios do mundo antigo. N\u00e3o do mundo, propriamente dito, mas do comportamento dos homens nas suas rela\u00e7\u00f5es entre si. Movidos pela for\u00e7a da sele\u00e7\u00e3o natural das esp\u00e9cies, herdada de nossos antepassados, prosseguimos ainda em disputas que s\u00f3 nos tem trazido decep\u00e7\u00f5es, guerras e mortes.<\/p>\n<p>Movidos por impulsos ainda muito ligados \u00e0 sele\u00e7\u00e3o natural, \u00e0 hierarquia, ao dom\u00ednio, seguimos como homens das cavernas. Apesar de termos evolu\u00eddo das armas convencionais para as digitais, seguimos numa disputa incessante que, ao inv\u00e9s de nos levar \u00e0 utopia, nos arrasta ao palco de decep\u00e7\u00f5es, guerras e mortes. A era da informa\u00e7\u00e3o de massas, das redes globais, dos algoritmos, nos dotou de poderosas plataformas de visibilidade e de invisibilidade. E \u00e9 justamente nesse limiar que surge o fen\u00f4meno do cancelamento do indiv\u00edduo: a exclus\u00e3o, a \u201cban\u201d simb\u00f3lica, a condena\u00e7\u00e3o p\u00fablica que retira a voz, o trabalho, o espa\u00e7o social, n\u00e3o necessariamente porque se cometeu um ato claro de viol\u00eancia, mas, muitas vezes, porque se ousou questionar o consenso, p\u00f4r em d\u00favida a narrativa dominante, desafiar o que est\u00e1 \u201caceito\u201d. Com a tecnologia da informa\u00e7\u00e3o de massas, passamos agora a ter em m\u00e3os a mais nova arma de aniquila\u00e7\u00e3o do outro, o cancelamento do indiv\u00edduo nas redes e no mundo virtual. A arma que mata a voz.<\/p>\n<p>O que hoje se chama de \u201conda woke\u201d ou \u201cjusti\u00e7a social\u201d emergiu com voca\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dirigida aos abusos, \u00e0s minorias historicamente oprimidas, ao poder que silencia. Contudo, esse impulso tem um lado sombrio: a defini\u00e7\u00e3o de quem \u201cmerece\u201d permanecer ativo e quem deve ser retirado do palco. Basta que algu\u00e9m postule um pensamento divergente, ainda que leg\u00edtimo, para que surja o linchamento virtual, a press\u00e3o de p\u00fablicos ou empresas, o \u201ccancelamento\u201d.<\/p>\n<p>Como define de forma generalista o conceito: a retirada de apoio, o boicote, a expuls\u00e3o social de algu\u00e9m por algo considerado ofensivo ou incompat\u00edvel com o discurso dominante. Esse movimento, que muitas vezes nasce com prop\u00f3sitos emancipat\u00f3rios, corre o risco de se tornar opressor: quando a l\u00f3gica do punir substitui o di\u00e1logo; quando o erro humano deixa de ser oportunidade de aprendizado e passa a ser senten\u00e7a irrevog\u00e1vel; quando a pluralidade \u00e9 trocada por conformidade. Em outras palavras: quando o \u201ccancel\u201d (o apagamento) se torna a nova forma de poder silencioso, implac\u00e1vel, mas ainda t\u00e3o brutal quanto qualquer \u201ccarta de execu\u00e7\u00e3o\u201d do passado.<\/p>\n<p>Vejamos alguns exemplos concretos. A autora J.K. Rowling, mundialmente conhecida, enfrentou boicotes e forte reprova\u00e7\u00e3o p\u00fablica ap\u00f3s declara\u00e7\u00f5es que muitos interpretaram como transf\u00f3bicas. O caso mostra como at\u00e9 figuras de enorme proje\u00e7\u00e3o se tornam vulner\u00e1veis quando se afastam do discurso aceito. Outro exemplo: o ator Liam Neeson, em 2019, ao contar uma hist\u00f3ria de intoler\u00e2ncia que teve, sofreu forte rea\u00e7\u00e3o negativa, cancelamento promocional imediato e preju\u00edzos \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de seu filme. E mais: a ativista digital Suey Park, ao lan\u00e7ar a hashtag #CancelColbert, em 2014, tornou-se s\u00edmbolo de como o \u201ccancel\u201d tamb\u00e9m se volta contra quem julga expondo-se a repres\u00e1lias, amea\u00e7as, persegui\u00e7\u00e3o online. Esses casos exp\u00f5em nuances importantes: nem todo cancelamento \u00e9 igual, nem todo discurso \u201ccancelado\u201d \u00e9 injusto, mas o padr\u00e3o revela algo maior. O padr\u00e3o de silenciar vozes inc\u00f4modas, ou simplesmente diversas, elimina o risco, a diferen\u00e7a, a contradi\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma forma moderna de \u201capagamento social\u201d.<\/p>\n<p>Em sociedades dist\u00f3picas (e estamos perto disso), apreender quem pode falar e quem deve calar \u00e9 um dos modos de controle mais eficazes invis\u00edvel, digital, r\u00e1pido. Um clique, um tweet, um julgamento coletivo: e l\u00e1 se vai o indiv\u00edduo. Mais ainda: se considerarmos que a tecnologia da informa\u00e7\u00e3o de massas est\u00e1 nas m\u00e3os de poucas plataformas, algoritmos, corpora\u00e7\u00f5es percebemos que o poder de \u201ccancelar\u201d n\u00e3o \u00e9 igual para todos. Aqueles dentro da bolha dominante disciplinam quem sai dela. Ser \u201cfora do consenso\u201d implica risco de exclus\u00e3o. O \u201capagado\u201d deixa de existir no feed, no trending, na visibilidade como se sua perda tivesse menos valor que a de uma \u00e1rvore derrubada no deserto. Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o haja responsabilidades ou que tudo deva ser aceito sem cr\u00edtica. Muito pelo contr\u00e1rio: o combate ao \u00f3dio, \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o, \u00e0 injusti\u00e7a ainda \u00e9 urgente, necess\u00e1rio, vital. Mas a quest\u00e3o central \u00e9: quem decide o que \u00e9 ofensivo? Qual o crit\u00e9rio para exclus\u00e3o? Qual o direito de reden\u00e7\u00e3o, de retrata\u00e7\u00e3o, de falha humana?<\/p>\n<p>Porque se o mecanismo se torna autom\u00e1tico, implac\u00e1vel, sem margem de erro ou recupera\u00e7\u00e3o ele cria uma nova tirania moral. E, para quem questiona, o maior perigo talvez seja que esse fen\u00f4meno se naturalize. Que a sociedade chegue a um ponto em que o simples ato de pensar diferente ou de questionar o \u201cmainstream\u201d seja suficiente para desencadear seu \u201capagamento\u201d. A l\u00f3gica da disputa permanece: sele\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, agora digital, social e n\u00e3o evolu\u00e7\u00e3o. A guerra, n\u00e3o entre ex\u00e9rcitos, mas entre narrativas, reputa\u00e7\u00f5es, visibilidades. E o vencedor \u00e9 aquele que permanece no palco, n\u00e3o necessariamente o que prop\u00f5e o melhor argumento. \u00c9 preciso, portanto, retomar o valor do debate, da heterodoxia, da contradi\u00e7\u00e3o, mesmo quando inc\u00f4moda. No fim, fica o desafio: viver sem a m\u00e1scara do agrado, discordar sem o p\u00e2nico da exclus\u00e3o. E lembrar que a maior arma hoje pode n\u00e3o ser o rifle ou a bomba, mas o sil\u00eancio imposto. E que silenciados, por vezes, s\u00e3o aqueles que mais precisavam falar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cEis uma defini\u00e7\u00e3o de wokeismo: H\u00e1 pessoas sentadas ali, esperando deliberadamente pela emo\u00e7\u00e3o de se sentirem ofendidas.\u201d<\/em><\/p>\n<p>John Cleese<\/p>\n<figure id=\"attachment_26554\" aria-describedby=\"caption-attachment-26554\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26554\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/john.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"268\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/john.jpg 611w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/john-300x179.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/john-550x328.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/john-230x137.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26554\" class=\"wp-caption-text\">John Clesse. Fotografia: Suzanne Plunkett\/Reuters<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>E&#8217; preciso que se esclare\u00e7a de uma vez por t\u00f4das, que Bras\u00edlia n\u00e3o pode ser dividida em capitanias pol\u00edticas, e que interesses particulares n\u00e3o podem prevalecer em administra\u00e7\u00e3o publica.\u00a0<strong>(Publicada em 11.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; Infelizmente, o s\u00e9culo XXI, com todos os avan\u00e7os na ci\u00eancia que estamos presenciando, n\u00e3o foi capaz ainda de se livrar dos v\u00edcios do mundo antigo. 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