{"id":26587,"date":"2025-11-08T01:00:48","date_gmt":"2025-11-08T04:00:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26587"},"modified":"2025-11-10T10:42:41","modified_gmt":"2025-11-10T13:42:41","slug":"cirurgia-plastica-para-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/cirurgia-plastica-para-brasilia\/","title":{"rendered":"Cirurgia pl\u00e1stica para Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26590\" aria-describedby=\"caption-attachment-26590\" style=\"width: 641px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26590\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/RUA.jpg\" alt=\"\" width=\"641\" height=\"425\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/RUA.jpg 670w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/RUA-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/RUA-550x364.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/RUA-230x152.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 641px) 100vw, 641px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26590\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Minervino J\u00fanior\/CB\/D.A.Press<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Bras\u00edlia \u00e9 o espelho das contradi\u00e7\u00f5es mais agudas do pa\u00eds.\u00a0O que antes se apresentava como modelo de urbanismo racional, herdeiro das ideias de Le Corbusier e do conceito de cidade-jardim, vai-se dissolvendo diante de um cen\u00e1rio que combina abandono institucional, degrada\u00e7\u00e3o social e impot\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Nas \u00e1reas que antes eram refer\u00eancia de planejamento urbano, erguidas sob o signo da utopia coletiva, proliferam agora moradias improvisadas, barracos de lona e madeira que se multiplicam sob o verde rarefeito do Eix\u00e3o, nas margens de avenidas largas, perto da UnB, Ceub, 213 Norte, \u00e1reas outrora pensadas para o tr\u00e2nsito harm\u00f4nico de uma sociedade moderna.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Segundo dados da Codeplan (2024), o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua no Distrito Federal aumentou 86% em quatro anos, saltando de 2.938 pessoas, em 2019, para 5.470 em 2023.\u00a0Relat\u00f3rio da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes\/DF) indica que mais de 60% desses cidad\u00e3os vieram de outros estados em busca de trabalho, oportunidades ou, simplesmente, da miragem de uma capital onde o Estado ainda existisse como promessa de amparo.\u00a0Ocorre que essa promessa se diluiu em meio \u00e0 judicializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e \u00e0 paralisia administrativa, fen\u00f4menos que se retroalimentam.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal, de 2023, que proibiu a remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade de espa\u00e7os p\u00fablicos, insere-se nesse contexto amb\u00edguo.\u00a0De um lado, reafirma princ\u00edpios civilizat\u00f3rios e de prote\u00e7\u00e3o social, impedindo pr\u00e1ticas arbitr\u00e1rias de despejo; de outro, transfere ao munic\u00edpio e ao governo distrital o \u00f4nus de administrar o colapso urbano sem instrumentos eficazes de a\u00e7\u00e3o.\u00a0O resultado, vis\u00edvel a olho nu, \u00e9 a expans\u00e3o silenciosa das ocupa\u00e7\u00f5es em \u00e1reas verdes, canteiros e passagens subterr\u00e2neas \u2014 transformadas em moradias improvisadas, onde a dignidade disputa espa\u00e7o com o lixo, a viol\u00eancia e o frio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O fen\u00f4meno, que muitos preferem reduzir \u00e0 quest\u00e3o de ordem p\u00fablica, tem ra\u00edzes mais profundas.\u00a0Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA), publicada em abril de 2024, estima que o Brasil ultrapassou 281 mil pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, um aumento de 238% desde 2012.\u00a0No Distrito Federal, o crescimento foi ainda mais expressivo proporcionalmente, refletindo n\u00e3o apenas a desigualdade, mas o esgotamento das pol\u00edticas de moradia e a desarticula\u00e7\u00e3o entre os entes federativos.\u00a0Em meio a um or\u00e7amento p\u00fablico cada vez mais engessado e programas habitacionais interrompidos ou mal executados, o Estado parece assistir de longe ao desmonte da pr\u00f3pria cidade que deveria zelar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o se trata apenas de mis\u00e9ria material, mas de uma esp\u00e9cie de eros\u00e3o simb\u00f3lica: Bras\u00edlia, que nasceu com o intuito de representar a harmonia entre o homem, o espa\u00e7o e o poder, converte-se, gradativamente, em um territ\u00f3rio de ru\u00ednas sociais.\u00a0A cidade-jardim de Lucio Costa e Oscar Niemeyer transforma-se em cidade-sombra, onde o contraste entre os pilotis monumentais e os barracos improvisados n\u00e3o \u00e9 mais met\u00e1fora, mas evid\u00eancia.\u00a0Nas entrequadras, Setor Comercial Sul sob as marquises de concreto que antes abrigavam os ideais da conviv\u00eancia comunit\u00e1ria, multiplicam-se colch\u00f5es, fogareiros e restos de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A aus\u00eancia de pol\u00edtica p\u00fablica efetiva, somada \u00e0 judicializa\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es administrativas, refor\u00e7a um c\u00edrculo vicioso: o poder local, paralisado entre a sensibilidade social e a impot\u00eancia operacional, n\u00e3o consegue agir; o poder federal, ocupado em pautas mais vistosas, ignora o drama cotidiano que se desenrola \u00e0 sombra dos minist\u00e9rios.\u00a0Enquanto isso, os moradores de rua tornam-se uma presen\u00e7a constante e silenciosa, s\u00edmbolo de um pa\u00eds que falhou em garantir o m\u00ednimo de humanidade a seus cidad\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O GDF anuncia planos, elabora relat\u00f3rios e promete abrigos, mas, segundo auditoria do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF, 2024), apenas 35% das vagas em abrigos p\u00fablicos est\u00e3o efetivamente dispon\u00edveis, e muitos desses espa\u00e7os carecem de infraestrutura b\u00e1sica.\u00a0Na pr\u00e1tica, a cidade funciona sob um regime de improviso, onde a compaix\u00e3o individual substitui a pol\u00edtica p\u00fablica e a omiss\u00e3o institucional \u00e9 justificada por decis\u00f5es judiciais que, embora bem-intencionadas, acabam por cristalizar o desamparo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Se nada mudar, o tra\u00e7o de Niemeyer ser\u00e1 engolido pelo tra\u00e7o da sobreviv\u00eancia, e o concreto curvil\u00edneo se tornar\u00e1 mera moldura para a mis\u00e9ria.\u00a0Bras\u00edlia deixar\u00e1 de ser s\u00edmbolo de um pa\u00eds em constru\u00e7\u00e3o para se converter em alegoria de um pa\u00eds em colapso, onde o Estado, cercado de monumentos, j\u00e1 n\u00e3o consegue enxergar os homens que dormem aos seus p\u00e9s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><em>\u201cDesenvolvimento \u00e9 diferente de crescimento econ\u00f4mico. Dispor de recursos para investir est\u00e1 longe de ser condi\u00e7\u00e3o fundamental para garantir um futuro melhor para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Mas quando o projeto social prioriza a efetiva melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida dessa popula\u00e7\u00e3o, o crescimento se transforma em desenvolvimento e, portanto, trata-se de um processo de transforma\u00e7\u00e3o social\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Celso Furtado<\/p>\n<figure id=\"attachment_26589\" aria-describedby=\"caption-attachment-26589\" style=\"width: 518px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26589\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cf.jpg\" alt=\"\" width=\"518\" height=\"292\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cf.jpg 1274w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cf-300x169.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cf-768x432.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cf-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cf-800x450.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cf-550x310.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/cf-230x129.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 518px) 100vw, 518px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26589\" class=\"wp-caption-text\">Celso Furtado. Foto: Fabio Motta \/ Ag\u00eancia Senado<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Aqui est\u00e3o os primeiros parlamentaristas: presidente, H\u00e9lio Marcos; Primeiro Ministro Domingos Jos\u00e9, Vice 1o. Ministro M\u00e1rio Jorge; ministro da Cultura, Dimer Camargo Monteiro; Ministro da Economia, Marcelo Magno de Oliveira Veloso; ministro da Presid\u00eancia, Italo. Ministro da Divulga\u00e7\u00e3o, Rogerio Brant Martins. Chaves; ministro de Assuntos Sociais, Rui Lemos Sampaio; Ministro de Assuntos Mission\u00e1rios, Ivan de Oliveira Delforge; ministro de Assuntos liter\u00e1rios, George Ney e presidente do Banco, Paulo Cesar Vasques. <strong>(Publicada em 11.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; Bras\u00edlia \u00e9 o espelho das contradi\u00e7\u00f5es mais agudas do pa\u00eds.\u00a0O que antes se apresentava como modelo de urbanismo racional, herdeiro das ideias de Le Corbusier e do conceito [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":26590,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,4088,2339,1241,114,2340,580,4087],"class_list":["post-26587","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-camaradistrital","tag-circecunha-2","tag-distritofederal","tag-historiadebrasilia","tag-mamfil-2","tag-planejamentourbano","tag-populacaoemsituacaoderua"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26587","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26587"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26587\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26601,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26587\/revisions\/26601"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26587"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26587"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26587"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}