{"id":26608,"date":"2025-11-13T01:00:03","date_gmt":"2025-11-13T04:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26608"},"modified":"2025-11-13T14:52:06","modified_gmt":"2025-11-13T17:52:06","slug":"entre-a-coragem-e-a-hesitacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/entre-a-coragem-e-a-hesitacao\/","title":{"rendered":"Entre a coragem e a hesita\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26610\" aria-describedby=\"caption-attachment-26610\" style=\"width: 577px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26610\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/farol.jpg\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"368\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/farol.jpg 875w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/farol-300x191.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/farol-768x490.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/farol-800x510.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/farol-550x351.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/farol-230x147.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 577px) 100vw, 577px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26610\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Gabriel de Paiva \/ Ag\u00eancia O Globo<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Pesquisas de opini\u00e3o recentes revelam um sentimento quase un\u00e2nime entre os brasileiros: cerca de 73% da popula\u00e7\u00e3o deseja que as organiza\u00e7\u00f5es criminosas sejam classificadas como grupos terroristas, segundo levantamento da Quaest Consultoria, divulgado em agosto de 2024. O dado, em si, expressa mais do que uma prefer\u00eancia pol\u00edtica, traduz o desespero de uma sociedade que j\u00e1 n\u00e3o distingue com clareza as fronteiras entre Estado e crime. H\u00e1 muito, os tent\u00e1culos do poder paralelo n\u00e3o se limitam \u00e0s vielas das grandes cidades. Estendem-se \u00e0s estruturas p\u00fablicas, aos contratos de transporte coletivo, \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de g\u00e1s, \u00e0s licita\u00e7\u00f5es e, cada vez mais, aos corredores onde circula o poder institucional.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que antes parecia mera especula\u00e7\u00e3o agora ganha contornos de diagn\u00f3stico. Relat\u00f3rios da Pol\u00edcia Federal e do Minist\u00e9rio P\u00fablico apontam para a infiltra\u00e7\u00e3o de fac\u00e7\u00f5es criminosas em ao menos 23 unidades da federa\u00e7\u00e3o, operando tanto nas franjas urbanas quanto nas altas esferas administrativas. Estima-se que o crime organizado movimente anualmente mais de R$ 300 bilh\u00f5es no Brasil, valor equivalente a cerca de 3% do PIB nacional, conforme levantamento do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados da USP. Tamanho poder econ\u00f4mico explica por que as fronteiras da legalidade se tornaram t\u00e3o porosas, e o Estado, t\u00e3o vulner\u00e1vel \u00e0 coopta\u00e7\u00e3o. Em muitos lugares, as fac\u00e7\u00f5es substituem o poder p\u00fablico com uma efici\u00eancia que o governo parece incapaz de reproduzir \u2014 cobram tarifas, imp\u00f5em normas, punem e protegem, operando um simulacro de soberania.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enquanto isso, o pa\u00eds assiste ao avan\u00e7o da criminalidade com o mesmo olhar ap\u00e1tico com que se observa uma tempestade inevit\u00e1vel. A taxa de homic\u00eddios, que havia ca\u00eddo at\u00e9 2022, voltou a crescer em 2024, segundo o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, com 47.000 mortes violentas intencionais registradas no ano. Mais que n\u00fameros, trata-se da radiografia de uma sociedade em decomposi\u00e7\u00e3o moral, onde a vida se torna estat\u00edstica e o medo se converte em pol\u00edtica de Estado. O cidad\u00e3o comum, acuado, vive o paradoxo de pagar por uma seguran\u00e7a que o Estado n\u00e3o entrega e por uma liberdade que se esvai sob o peso da intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1, nesse quadro, uma omiss\u00e3o deliberada. Parte da classe pol\u00edtica evita tratar o crime organizado como terrorismo por c\u00e1lculo ideol\u00f3gico, como se admitir essa realidade implicasse trair antigas narrativas sociol\u00f3gicas. Para alguns setores do governo, os criminosos ainda s\u00e3o \u201cv\u00edtimas do sistema\u201d, express\u00e3o que desumaniza o cidad\u00e3o honesto e romantiza o agressor. O soci\u00f3logo Jos\u00e9 de Souza Martins j\u00e1 advertira que \u201ca toler\u00e2ncia com o crime \u00e9 o primeiro est\u00e1gio da degenera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d. Ignorar isso \u00e9 naturalizar o horror cotidiano.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A infiltra\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es nas institui\u00e7\u00f5es republicanas revela algo ainda mais grave: um Estado em processo de captura. Em 2023, investiga\u00e7\u00f5es da Controladoria-Geral da Uni\u00e3o e da Pol\u00edcia Federal mostraram conex\u00f5es entre servidores e esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao tr\u00e1fico de drogas. Em S\u00e3o Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC) expandiu sua atua\u00e7\u00e3o para al\u00e9m das fronteiras nacionais, estabelecendo rotas de exporta\u00e7\u00e3o de coca\u00edna para a Europa, com lucros estimados em R$ 2,5 bilh\u00f5es anuais, segundo a Europol. No Rio de Janeiro, as mil\u00edcias j\u00e1 controlam mais de 70% das comunidades da capital, de acordo com o Instituto Fogo Cruzado, configurando uma governan\u00e7a paralela que atua \u00e0 margem da lei, mas dentro da rotina.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Estado, acuado e hesitante, reage com discursos e comiss\u00f5es. Falta-lhe coragem para enfrentar a realidade que o oprime de dentro. Ao n\u00e3o classificar as fac\u00e7\u00f5es como organiza\u00e7\u00f5es terroristas, o governo perpetua a fic\u00e7\u00e3o de que enfrenta uma quest\u00e3o social e n\u00e3o uma estrutura pol\u00edtico-militar que disputa o controle do pa\u00eds. Em nome de uma falsa sensibilidade, abdica do dever de proteger. A omiss\u00e3o se traveste de prud\u00eancia, e o medo, de pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando o crime define as regras e o Estado as cumpre, o pacto social se rompe de modo silencioso e irrevers\u00edvel. O Relat\u00f3rio Global de Criminalidade Organizada da ONU (2023) colocou o Brasil entre os dez pa\u00edses mais infiltrados por redes criminosas no mundo, ao lado de na\u00e7\u00f5es em conflito civil. A fronteira entre legalidade e delinqu\u00eancia se esgar\u00e7a, e o que resta \u00e9 um territ\u00f3rio administrado pelo terror cotidiano. O pa\u00eds que se recusou a admitir o \u00f3bvio agora negocia sua soberania no varejo das alian\u00e7as pol\u00edticas e dos conchavos corporativos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 um sil\u00eancio perigoso pairando sobre as ruas e sobre o poder. O medo tornou-se o idioma nacional. E quando o medo \u00e9 pol\u00edtica de governo, a liberdade passa a ser concess\u00e3o. O Brasil precisa escolher entre a hesita\u00e7\u00e3o e a coragem, entre a cumplicidade e a restaura\u00e7\u00e3o da autoridade. O tempo de negar o abismo j\u00e1 passou. Agora, o que se discute n\u00e3o \u00e9 mais a intensidade da crise, mas se ainda h\u00e1 pa\u00eds a ser salvo \u2014 ou se j\u00e1 nos tornamos, definitivamente, ref\u00e9ns.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><em>\u201cAqueles que abrem m\u00e3o da liberdade essencial por um pouco de seguran\u00e7a tempor\u00e1ria n\u00e3o merecem nem liberdade nem seguran\u00e7a.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Benjamin Franklin<\/p>\n<figure id=\"attachment_18262\" aria-describedby=\"caption-attachment-18262\" style=\"width: 349px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-18262\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/01\/bf.jpg\" alt=\"\" width=\"349\" height=\"425\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/01\/bf.jpg 437w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/01\/bf-246x300.jpg 246w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/01\/bf-230x280.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 349px) 100vw, 349px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-18262\" class=\"wp-caption-text\">Benjamin Franklin. Imagem: Joseph Siffrein Duplessis, en.wikipedia.org<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O Bloco do Pal\u00e1cio do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a teve a sua pedra fundamental lan\u00e7ada com solenidade. Ficou nisto. O Itamarati, tamb\u00e9m, at\u00e9 hoje n\u00e3o come\u00e7ou a constru\u00e7\u00e3o. <strong>(Publicada em 11.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Pesquisas de opini\u00e3o recentes revelam um sentimento quase un\u00e2nime entre os brasileiros: cerca de 73% da popula\u00e7\u00e3o deseja que as organiza\u00e7\u00f5es criminosas sejam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":26610,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,2339,4091,4090,114,2340,2762,3247,2404],"class_list":["post-26608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-circecunha-2","tag-crime","tag-faccoesnobrasil","tag-historiadebrasilia","tag-mamfil-2","tag-poderes","tag-soberania","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26608"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26608\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26612,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26608\/revisions\/26612"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26610"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}