{"id":26614,"date":"2025-11-14T01:00:34","date_gmt":"2025-11-14T04:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26614"},"modified":"2025-11-14T22:06:07","modified_gmt":"2025-11-15T01:06:07","slug":"o-mal-silencioso-da-polarizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/o-mal-silencioso-da-polarizacao\/","title":{"rendered":"O mal silencioso da polariza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26619\" aria-describedby=\"caption-attachment-26619\" style=\"width: 545px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-26619\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/debate.png\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"542\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/debate.png 545w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/debate-150x150.png 150w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/debate-300x298.png 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/debate-230x229.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 545px) 100vw, 545px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26619\" class=\"wp-caption-text\">Charge do Jean Galv\u00e3o (Um Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Talvez n\u00e3o haja veneno mais eficaz para corroer os la\u00e7os de uma sociedade do que o h\u00e1bito insidioso de enxergar o outro n\u00e3o como interlocutor, mas como inimigo. A polariza\u00e7\u00e3o, esse mal que se disfar\u00e7a de convic\u00e7\u00e3o, vem se entranhando no tecido nacional com tal sutileza que j\u00e1 n\u00e3o se sabe onde termina a pol\u00edtica e come\u00e7a o \u00f3dio. No Brasil, a divis\u00e3o em campos opostos, muitas vezes estimulada por discursos oficiais, por algoritmos ou pela pr\u00f3pria fragilidade educacional, j\u00e1 se converteu em paisagem cotidiana. O fen\u00f4meno, embora costume ser atribu\u00eddo a governos recentes, possui ra\u00edzes mais antigas, plantadas na incapacidade coletiva de sustentar o di\u00e1logo e na persistente desigualdade estrutural que produz exclus\u00f5es simb\u00f3licas e materiais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Segundo o relat\u00f3rio \u201cDemocracia sob Tens\u00e3o\u201d, do Instituto da Democracia e da Democratiza\u00e7\u00e3o da Comunica\u00e7\u00e3o (UFMG, 2024), cerca de 72% dos brasileiros afirmam sentir que o pa\u00eds est\u00e1 \u201cprofundamente dividido\u201d, um \u00edndice que cresceu 11 pontos percentuais desde 2018. Esse mesmo levantamento aponta que 64% das pessoas evitam discutir pol\u00edtica com amigos ou familiares, tamanho o desgaste das conversas e a tens\u00e3o instalada no cotidiano. H\u00e1 quem diga que se trata de um fen\u00f4meno passageiro, mas os n\u00fameros e as redes digitais mostram o contr\u00e1rio: o Datafolha revelou, em maio de 2024, que 9 em cada 10 eleitores afirmam n\u00e3o se arrepender do voto de 2022, o que evidencia o endurecimento das identidades pol\u00edticas e a cristaliza\u00e7\u00e3o da cis\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Os efeitos disso v\u00e3o muito al\u00e9m da urna. A polariza\u00e7\u00e3o se infiltrou no entretenimento, nas universidades, nas empresas, e at\u00e9 nas mesas de bar, corroendo o que o soci\u00f3logo Zygmunt Bauman chamaria de \u201czonas de conviv\u00eancia l\u00edquida\u201d. A cada epis\u00f3dio, a desconfian\u00e7a se renova: artistas s\u00e3o boicotados, intelectuais s\u00e3o cancelados, professores s\u00e3o vigiados e jornalistas s\u00e3o atacados sob qualquer pretexto. Relat\u00f3rio da UNESCO (2023) alerta que o Brasil figura entre os dez pa\u00edses com maior volume de ataques virtuais a comunicadores e artistas em raz\u00e3o de opini\u00f5es pol\u00edticas, o que demonstra que a fratura cultural acompanha a fratura c\u00edvica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Festivais, exposi\u00e7\u00f5es e pr\u00eamios t\u00eam sido atravessados por disputas ideol\u00f3gicas que pouco ou nada t\u00eam a ver com est\u00e9tica ou m\u00e9rito. O Observat\u00f3rio de Economia Criativa (UFBA, 2024) mostrou que 38% dos artistas brasileiros afirmam ter perdido contratos ou convites de trabalho por causa de sua posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, enquanto 52% relatam autocensura em redes sociais e apresenta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para evitar retalia\u00e7\u00f5es. Trata-se de um dado alarmante, pois revela que a polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas divide: ela silencia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">No entanto, a origem do problema n\u00e3o pode ser reduzida a um espectro pol\u00edtico espec\u00edfico. Pesquisas internacionais, como a do Pew Research Center (2024), indicam que o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses com maior \u00edndice de polariza\u00e7\u00e3o afetiva da Am\u00e9rica Latina, superado apenas por Estados Unidos e Argentina. Essa \u201cpolariza\u00e7\u00e3o afetiva\u201d \u00e9 aquela em que a rejei\u00e7\u00e3o ao outro partido ou grupo social importa mais do que a ades\u00e3o racional \u00e0s ideias do pr\u00f3prio lado. Em outras palavras, n\u00e3o se trata apenas de diverg\u00eancia, mas de avers\u00e3o moral. E essa avers\u00e3o \u00e9 alimentada, todos os dias, por um sistema comunicacional que recompensa a indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">As redes sociais t\u00eam papel central nessa engrenagem. O relat\u00f3rio \u201cDigital 2025\u201d, da consultoria We Are Social, mostra que o Brasil j\u00e1 tem mais de 150 milh\u00f5es de usu\u00e1rios ativos nas redes, com tempo m\u00e9dio di\u00e1rio de 3 horas e 46 minutos em plataformas digitais, um dos maiores do mundo. O mesmo relat\u00f3rio aponta que conte\u00fados com teor emocional negativo (raiva, ironia, indigna\u00e7\u00e3o) alcan\u00e7am at\u00e9 70% mais engajamento do que postagens neutras. O algoritmo, portanto, n\u00e3o apenas reflete a polariza\u00e7\u00e3o, mas a multiplica, incentivando o confronto e desestimulando o di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (INEP) revelou, no Censo da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica 2024, que apenas 34% dos alunos do ensino m\u00e9dio compreendem plenamente textos argumentativos complexos, uma estat\u00edstica que explica muito sobre nossa vulnerabilidade \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Um pa\u00eds que n\u00e3o l\u00ea, n\u00e3o interpreta e n\u00e3o debate tende a ser ref\u00e9m da simplifica\u00e7\u00e3o e da mentira. E a mentira, quando vestida de verdade partid\u00e1ria, transforma-se em instrumento de poder.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Em 2023, segundo dados da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas (FGV Cultura), o setor cultural brasileiro perdeu 18% de seu p\u00fablico presencial em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo pr\u00e9-pandemia, fen\u00f4meno atribu\u00eddo n\u00e3o apenas \u00e0 crise econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m \u00e0 crescente rejei\u00e7\u00e3o do p\u00fablico a manifesta\u00e7\u00f5es percebidas como \u201cpartid\u00e1rias\u201d. A plateia, antes diversa, fragmentou-se em bolhas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Soci\u00f3logos como Jess\u00e9 Souza e Ladislau Dowbor v\u00eam alertando que a polariza\u00e7\u00e3o tem servido como cortina de fuma\u00e7a para a aus\u00eancia de pol\u00edticas estruturais de longo prazo. Enquanto a sociedade se digladia por s\u00edmbolos e narrativas, o pa\u00eds segue com 9,2 milh\u00f5es de desempregados (IBGE, PNAD Cont\u00ednua , 2025), 26 milh\u00f5es de pessoas em inseguran\u00e7a alimentar grave (FAO, 2024) e uma taxa de evas\u00e3o escolar que volta a crescer, atingindo 18% entre jovens de 15 a 17 anos. S\u00e3o n\u00fameros que falam de desigualdade e descuido, mas que raramente mobilizam tanto quanto uma disputa ideol\u00f3gica no feed.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Por isso, o enfrentamento da polariza\u00e7\u00e3o exige mais do que bons modos: exige reconstru\u00e7\u00e3o cultural e educacional. \u00c9 preciso investir em programas de educa\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, fomentar o pensamento cr\u00edtico desde a inf\u00e2ncia, e estimular pol\u00edticas culturais que valorizem o dissenso como aprendizado, e n\u00e3o como amea\u00e7a. A OCDE, em relat\u00f3rio publicado em 2024, indica que pa\u00edses que introduziram curr\u00edculos de \u201ceduca\u00e7\u00e3o para cidadania digital\u201d reduziram em at\u00e9 30% os \u00edndices de radicaliza\u00e7\u00e3o juvenil online em cinco anos. A li\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: o di\u00e1logo precisa ser ensinado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio repensar a rela\u00e7\u00e3o entre Estado, cultura e financiamento. Quando o apoio p\u00fablico se converte em recompensa a fidelidades ideol\u00f3gicas, o espa\u00e7o da arte se empobrece. E quando o artista teme a rejei\u00e7\u00e3o de parte do p\u00fablico por se expressar, o pa\u00eds perde um de seus mais antigos instrumentos de autocr\u00edtica. A pluralidade n\u00e3o deve ser privil\u00e9gio de um grupo, mas fundamento da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Ao fim, o mal da polariza\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o esteja na diverg\u00eancia em si, pois o conflito de ideias \u00e9 o motor da democracia, mas na transforma\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a em fronteira. O Brasil, com sua voca\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para a mistura e o di\u00e1logo, parece agora se esquecer de que nenhuma sociedade resiste quando as palavras se tornam pedras. \u00c9 preciso, portanto, reaprender o idioma da conviv\u00eancia, antes que a surdez coletiva se torne permanente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Enquanto houver quem prefira gritar a ouvir, o pa\u00eds continuar\u00e1 dividido n\u00e3o em partidos, mas em peda\u00e7os. E cada peda\u00e7o, por menor que pare\u00e7a, levar\u00e1 consigo um fragmento do que j\u00e1 fomos: um povo capaz de rir de si mesmo, de abra\u00e7ar o outro e de reconhecer, no rosto diferente, a semelhan\u00e7a que nos fazia inteiros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><em>&#8220;O destino conduz o que consente e arrasta o que resiste.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">S\u00e9neca<\/p>\n<figure id=\"attachment_14717\" aria-describedby=\"caption-attachment-14717\" style=\"width: 344px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-14717\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/08\/seneca-l.jpg\" alt=\"\" width=\"344\" height=\"447\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/08\/seneca-l.jpg 480w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/08\/seneca-l-231x300.jpg 231w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/08\/seneca-l-269x350.jpg 269w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/08\/seneca-l-230x299.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 344px) 100vw, 344px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14717\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: reprodu\u00e7\u00e3o da internet<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\"><strong>HIST\u00d3RIA DE BRASILIA<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">E por falar nisto, est\u00e3o enganando o presidente da Rep\u00fablica. Houve uma decis\u00e3o para reiniciar as obras em Bras\u00edlia. O IAP-FESP e o IAPM lan\u00e7aram-se numa euforia arquitet\u00f4nica e pararam no meio do caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; Talvez n\u00e3o haja veneno mais eficaz para corroer os la\u00e7os de uma sociedade do que o h\u00e1bito insidioso de enxergar o outro n\u00e3o como interlocutor, mas como inimigo. 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