{"id":26624,"date":"2025-11-15T01:00:34","date_gmt":"2025-11-15T04:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26624"},"modified":"2025-11-14T22:33:14","modified_gmt":"2025-11-15T01:33:14","slug":"o-psiquiatra-como-novo-tarologo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/o-psiquiatra-como-novo-tarologo\/","title":{"rendered":"O psiquiatra como novo tar\u00f3logo"},"content":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam)<\/p>\n<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26627\" aria-describedby=\"caption-attachment-26627\" style=\"width: 540px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26627\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/psi.png\" alt=\"\" width=\"540\" height=\"360\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/psi.png 898w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/psi-300x200.png 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/psi-768x511.png 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/psi-800x533.png 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/psi-550x366.png 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/psi-230x153.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26627\" class=\"wp-caption-text\">Foto: med.estrategia.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma dimens\u00e3o do sofrimento humano que resiste \u00e0 linguagem e se manifesta como um ru\u00eddo permanente, uma presen\u00e7a que n\u00e3o se deixa nomear nem compreender inteiramente. Essa incapacidade de descrever o que nos atravessa, somada ao desconforto de habitar uma interioridade sem forma, faz com que seja tentador terceirizar a outros a tarefa de dizer quem somos. Ao inv\u00e9s de suportar o sil\u00eancio que acompanha a pergunta pela pr\u00f3pria ess\u00eancia, buscamos o conforto nas defini\u00e7\u00f5es de figuras que prometem traduzir o indiz\u00edvel: cientistas, m\u00e9dicos, analistas, gurus, especialistas de toda esp\u00e9cie. Neles projetamos a esperan\u00e7a de que o enigma da exist\u00eancia possa ser resolvido com o rigor de uma f\u00f3rmula ou a precis\u00e3o de um diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Essa transfer\u00eancia de autoridade nasce de uma fadiga metaf\u00edsica: o cansa\u00e7o de sustentar o peso da d\u00favida. Estamos aqui falando da ang\u00fastia que todos enfrentamos diante da esfinge de Tebas que cada um carrega dentro de si. \u201cDecifra-me ou devoro-te.\u201d Por desespero, recorremos \u00e0s autoridades. Assim, a ci\u00eancia, que deveria ser instrumento de investiga\u00e7\u00e3o, converte-se em sistema de f\u00e9, e o saber t\u00e9cnico adquire a fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que antes pertencia ao mito.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno n\u00e3o nasce apenas do avan\u00e7o da psiquiatria, mas de um deslocamento cultural mais profundo, em que o sofrimento deixou de ser vivido e passou a ser um quebra-cabe\u00e7a a ser resolvido. O Cristianismo, com todos os seus equ\u00edvocos hist\u00f3ricos, continha uma dimens\u00e3o simb\u00f3lica e \u00e9tica que remetia \u00e0 experi\u00eancia do mist\u00e9rio, \u00e0 consci\u00eancia da limita\u00e7\u00e3o humana, \u00e0 ideia de transcend\u00eancia e de sentido. A ci\u00eancia, quando reduzida a instrumento de poder discursivo, n\u00e3o substitui essa dimens\u00e3o, mas a silencia com uma boa dose de venvanse, sertralina ou fluoxetina. O resultado \u00e9 uma cultura que se diz racional, mas que age movida por um fervor mission\u00e1rio. A confian\u00e7a cega em relat\u00f3rios, modelos e especialistas n\u00e3o \u00e9 menos dogm\u00e1tica que a f\u00e9 dos antigos, apenas mais disfar\u00e7ada pela linguagem t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>As redes sociais amplificaram esse processo. Cada laudo, real ou presumido, converte-se em elemento de identidade, em bandeira est\u00e9tica e em ponto de encontro para comunidades que trocam sintomas como quem compartilha afinidades. O transtorno passa a operar como senha cultural e ao mesmo tempo como fronteira. O sofrimento \u00e9 exibido, estilizado, reconhecido e celebrado. O vocabul\u00e1rio cl\u00ednico, antes restrito a consult\u00f3rios, tornou-se material de express\u00e3o p\u00fablica, misturando-se a hashtags, playlists e discursos terap\u00eauticos de autoajuda.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o da interioridade pela descri\u00e7\u00e3o. O indiv\u00edduo aprende a falar de si por meio de diagn\u00f3sticos que o precedem, que j\u00e1 estavam prontos antes de ele se reconhecer neles. \u00c9 como se o sofrimento precisasse de uma certid\u00e3o para existir. Essa apropria\u00e7\u00e3o da linguagem m\u00e9dica tem algo de religioso: transfere \u00e0 figura do psiquiatra \u00e0 autoridade do int\u00e9rprete, aquele que l\u00ea o destino nos exames, nas escalas e nos manuais. O div\u00e3 torna-se um altar laico, e o consult\u00f3rio, um templo silencioso em que cada palavra tem peso de revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 uma cultura que valoriza a consci\u00eancia do pr\u00f3prio transtorno mais do que a experi\u00eancia da pr\u00f3pria vida. Talvez o que nos falte n\u00e3o seja um novo diagn\u00f3stico, mas a coragem de permanecer no vazio que antecede qualquer defini\u00e7\u00e3o. A ang\u00fastia, quando suportada sem anestesia, \u00e9 ainda a express\u00e3o mais honesta do humano. O sofrimento, antes de ser uma patologia, \u00e9 uma forma de consci\u00eancia, uma lembran\u00e7a inc\u00f4moda de que existir \u00e9 sempre um desajuste entre o que somos e o que desejamos ser.<\/p>\n<p>Nelson Rodrigues dizia que \u201ctoda unanimidade \u00e9 burra\u201d, e talvez possamos estender a provoca\u00e7\u00e3o: toda certeza sobre a alma \u00e9 prematura. Ao tentar domesticar a dor com a linguagem t\u00e9cnica, perdemos o contato com a vastid\u00e3o que ela aponta. \u00c9 poss\u00edvel que a tarefa mais urgente do nosso tempo n\u00e3o seja curar o sofrimento, mas restituir-lhe o estatuto de experi\u00eancia leg\u00edtima, insepar\u00e1vel da condi\u00e7\u00e3o humana. Pois sem ele, n\u00e3o resta nada que nos obrigue a olhar de frente o abismo e reconhecer nele, paradoxalmente, o que ainda nos mant\u00e9m vivos.<\/p>\n<div><\/div>\n<div><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>\u201cSe voc\u00ea pudesse ler minha mente, n\u00e3o estaria sorrindo.\u201d<\/em><br \/>\nTamara Ireland Stone, Every Last Word<\/div>\n<div>\n<figure id=\"attachment_26625\" aria-describedby=\"caption-attachment-26625\" style=\"width: 292px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-26625\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/tamara.png\" alt=\"\" width=\"292\" height=\"389\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/tamara.png 292w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/tamara-225x300.png 225w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/tamara-230x306.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 292px) 100vw, 292px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26625\" class=\"wp-caption-text\">Tamara Ireland Stone. Foto: tamarairelandstone.com<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Hist\u00f3ria de Brasilia<\/strong><br \/>\nFicharam, cada um, quinhentos candangos. Mantiveram os homens parados durante dois meses, e agora despediram todos. Nada foi feito, e ningu\u00e9m sabe quanto se gastou nessa opera\u00e7\u00e3o engodo <strong>(Publicada em 11.05.1962)\u00a0<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO, criada desde 1960 por Ari Cunha (In memoriam) Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; H\u00e1 uma dimens\u00e3o do sofrimento humano que resiste \u00e0 linguagem e se manifesta como um ru\u00eddo permanente, uma presen\u00e7a que n\u00e3o se deixa nomear nem compreender inteiramente. 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