{"id":26691,"date":"2025-11-30T01:00:49","date_gmt":"2025-11-30T04:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26691"},"modified":"2025-12-02T09:55:43","modified_gmt":"2025-12-02T12:55:43","slug":"um-mundo-sem-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/um-mundo-sem-alma\/","title":{"rendered":"Um mundo sem alma"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26694\" aria-describedby=\"caption-attachment-26694\" style=\"width: 622px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26694\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/IA.jpg\" alt=\"\" width=\"622\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/IA.jpg 866w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/IA-300x156.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/IA-768x400.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/IA-800x417.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/IA-550x286.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/IA-230x120.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 622px) 100vw, 622px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26694\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 algo de inquietante na hip\u00f3tese, cada vez menos ficcional e mais tecnicamente palp\u00e1vel, de um mundo habitado apenas por m\u00e1quinas e governado por sistemas de intelig\u00eancia artificial capazes de operar em velocidade, precis\u00e3o e autonomia superiores a qualquer capacidade humana conhecida, um mundo no qual a natureza, tal como a concebemos, deixaria de ser um organismo vivo e surpreendente para se converter numa infraestrutura funcional, esvaziada de seu sentido primevo e desconectada do elemento que sempre lhe deu significado: a presen\u00e7a da vida consciente, dotada de interioridade, mist\u00e9rio e alma.<\/p>\n<p>A ontologia de um planeta sem humanos n\u00e3o seria simplesmente a de um ambiente f\u00edsico reorganizado, mas a de um cen\u00e1rio que perderia o pr\u00f3prio eixo do que chamamos de exist\u00eancia significativa, pois aquilo que confere densidade ao real n\u00e3o \u00e9 apenas o que existe no espa\u00e7o, mas quem \u00e9 capaz de perceb\u00ea-lo, interpret\u00e1-lo, sofr\u00ea-lo e am\u00e1-lo. Essa imagem dist\u00f3pica, que durante d\u00e9cadas foi confinada \u00e0s p\u00e1ginas de romances futuristas e aos alertas de fic\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, come\u00e7a a ganhar contornos mais n\u00edtidos, justamente porque os maiores cientistas e pensadores tecnol\u00f3gicos do presente j\u00e1 n\u00e3o tratam tal possibilidade como um devaneio liter\u00e1rio, mas como uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica, \u00e9tica e civilizacional.<\/p>\n<p>A acelera\u00e7\u00e3o vertiginosa do desenvolvimento da intelig\u00eancia artificial, somada \u00e0 automa\u00e7\u00e3o de setores inteiros da economia e \u00e0 crescente substitui\u00e7\u00e3o das capacidades humanas por algoritmos probabil\u00edsticos, parece criar uma curva hist\u00f3rica, cuja inclina\u00e7\u00e3o lembra, em muitos aspectos, a ruptura promovida pela Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, mas com a diferen\u00e7a fundamental de que, agora, a for\u00e7a motriz n\u00e3o \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o das habilidades humanas, mas a sua poss\u00edvel obsolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Esse debate n\u00e3o se restringe ao temor de que m\u00e1quinas possam superar os humanos em tarefas t\u00e9cnicas, administrativas, operacionais ou criativas; tampouco se limita \u00e0s previs\u00f5es de desemprego estrutural, reorganiza\u00e7\u00e3o do mercado ou deslocamentos socioecon\u00f4micos inevit\u00e1veis. O ponto nuclear \u00e9 ontol\u00f3gico e pol\u00edtico: que lugar resta ao ser humano num planeta em que a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o apenas executa fun\u00e7\u00f5es, mas se torna o novo motor da ordem, o novo crit\u00e9rio de efici\u00eancia e, potencialmente, o novo centro de decis\u00e3o? Que destino aguarda uma esp\u00e9cie cuja forma de vida corre o risco de se tornar um ru\u00eddo improdutivo diante de sistemas que aprendem, se adaptam, preveem e controlam com uma frieza e uma objetividade imposs\u00edveis para qualquer consci\u00eancia biol\u00f3gica?<\/p>\n<p>Se a hist\u00f3ria nos ensinou algo, \u00e9 que nenhuma tecnologia nasce neutra, ainda que se pretenda apresent\u00e1-la como tal. Toda tecnologia reorganiza o mundo, redistribui poder, redefine rela\u00e7\u00f5es sociais e altera a pr\u00f3pria estrutura de percep\u00e7\u00e3o da realidade. Mas, pela primeira vez, enfrentamos uma tecnologia que n\u00e3o apenas reconfigura a vida humana: ela se apresenta como candidata a substitu\u00ed-la, enquanto forma dominante de organiza\u00e7\u00e3o do planeta. J\u00e1 n\u00e3o se tratam de m\u00e1quinas a vapor que ampliam a for\u00e7a dos m\u00fasculos, nem de computadores que agilizam c\u00e1lculos, mas de sistemas que, em muitos cen\u00e1rios, compreendem padr\u00f5es, formulam estrat\u00e9gias e administram vari\u00e1veis de modo mais eficiente do que qualquer mente humana seria capaz de fazer. A consequ\u00eancia disso n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f4mica; \u00e9 existencial. Porque um mundo sem vida, ainda que tecnologicamente brilhante, \u00e9 um mundo sem amor. E aqui reside o aspecto mais profundo que a maioria dos debates t\u00e9cnicos tenta evitar: a intelig\u00eancia artificial, por mais avan\u00e7ada que seja, n\u00e3o experimenta o amor, n\u00e3o sente compaix\u00e3o, n\u00e3o conhece o perd\u00e3o, n\u00e3o compreende a dor, n\u00e3o estimula debates, n\u00e3o contempla o sublime, n\u00e3o se projeta no outro nem se reconhece na fragilidade do pr\u00f3ximo. Ela pode simular emo\u00e7\u00f5es, pode reproduzir padr\u00f5es de afeto, pode calcular probabilidades de comportamento, mas n\u00e3o tem interioridade, n\u00e3o possui alma, n\u00e3o carrega o invis\u00edvel que torna cada ser humano irrepet\u00edvel. A aus\u00eancia desse elemento desestabiliza toda a arquitetura de sentido do mundo, porque a exist\u00eancia n\u00e3o se sustenta apenas na l\u00f3gica das fun\u00e7\u00f5es, mas na presen\u00e7a do que n\u00e3o pode ser mensurado.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 tempo para restituir ao ser humano o centro da narrativa. Mas isso exige coragem para enfrentar a sedu\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas que prometem efici\u00eancia e oferecem, em troca, a eros\u00e3o silenciosa de nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Exige que compreendamos que a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o do futuro n\u00e3o ser\u00e1 tecnol\u00f3gica, mas \u00e9tica. E exige, sobretudo, que tenhamos a lucidez de perceber que nenhuma intelig\u00eancia artificial, por mais brilhante que seja, pode substituir o que torna a vida humana n\u00e3o apenas poss\u00edvel, mas preciosa: a experi\u00eancia de amar, criar, transcender e atribuir sentido ao mundo. Se n\u00e3o fizermos isso, ent\u00e3o sim, ser\u00e1 poss\u00edvel imaginar o planeta do futuro como um territ\u00f3rio impecavelmente administrado e completamente vazio, um monumento silencioso \u00e0quilo que fomos e deixamos de ser. Porque, no fim, a pergunta que atravessa todas as outras \u00e9 esta: que futuro pode haver para seres humanos num mundo dominado por m\u00e1quinas? A resposta, ainda que desconfort\u00e1vel, \u00e9 simples: apenas o futuro que tivermos coragem de defender.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>&#8220;A tecnologia est\u00e1 evoluindo mais r\u00e1pido do que a capacidade humana.&#8221;<\/em><br \/>\nThomas Friedman<\/p>\n<figure id=\"attachment_26695\" aria-describedby=\"caption-attachment-26695\" style=\"width: 475px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26695\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/thomas.jpg\" alt=\"\" width=\"475\" height=\"269\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/thomas.jpg 908w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/thomas-300x170.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/thomas-768x435.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/thomas-800x453.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/thomas-550x311.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2025\/11\/thomas-230x130.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 475px) 100vw, 475px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26695\" class=\"wp-caption-text\">Thomas Friedman. Foto: reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nResta, agora, \u00e0 Novacap, o servi\u00e7o de urbaniza\u00e7\u00e3o, para que possam ser iniciados os trabalhos de instala\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, luz e esgotos. <strong>(Publicada em 12.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; H\u00e1 algo de inquietante na hip\u00f3tese, cada vez menos ficcional e mais tecnicamente palp\u00e1vel, de um mundo habitado apenas por m\u00e1quinas e governado por sistemas de intelig\u00eancia artificial capazes de operar em velocidade, precis\u00e3o e autonomia superiores a qualquer capacidade [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":26694,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,2339,114,1390,3421,3405,2340],"class_list":["post-26691","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-circecunha-2","tag-historiadebrasilia","tag-humanidade","tag-ia","tag-inteligenciaartificial","tag-mamfil-2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26691","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26691"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26691\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26698,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26691\/revisions\/26698"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26694"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}