{"id":26885,"date":"2026-02-13T01:00:19","date_gmt":"2026-02-13T04:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26885"},"modified":"2026-02-13T15:10:32","modified_gmt":"2026-02-13T18:10:32","slug":"quando-o-enredo-se-reescreve-com-novas-mascaras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/quando-o-enredo-se-reescreve-com-novas-mascaras\/","title":{"rendered":"Quando o enredo se reescreve com novas m\u00e1scaras"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26897\" aria-describedby=\"caption-attachment-26897\" style=\"width: 475px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26897\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/democra.jpg\" alt=\"\" width=\"475\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/democra.jpg 547w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/democra-300x237.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/democra-230x182.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 475px) 100vw, 475px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26897\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: tribunadoplanalto.com<\/figcaption><\/figure>\n<p>Parecia que o Brasil atravessava uma dessas horas em que a pol\u00edtica deixa de ser apenas disputa institucional e se transforma em atmosfera, em tens\u00e3o espalhada pelas ruas, em sensa\u00e7\u00e3o quase f\u00edsica de que algo, no centro do poder, se aproximava de um ponto irrevers\u00edvel. Aconteceu na capital federal, que era apenas um palco condensado de press\u00f5es, boatos, reuni\u00f5es fechadas, sirenes morais e expectativas contradit\u00f3rias. Mais do que uma instala\u00e7\u00e3o que abrigava autoridades, o local convertia-se num s\u00edmbolo sitiado, cercado por vozes que exigiam, por um lado, a ren\u00fancia imediata, e por outro, a perman\u00eancia obstinada de algu\u00e9m, que para milh\u00f5es, ainda representava o Estado protetor e o pai pol\u00edtico de uma era.<\/p>\n<p>A crise n\u00e3o surgira do nada, nem era fruto exclusivo de um epis\u00f3dio isolado, embora um evento em si catalisava como fa\u00edsca em terreno saturado. Poderia ser qualquer evento, mas esse epis\u00f3dio desencadeou um processo de corros\u00e3o acelerada. Era a prova do descontrole e viol\u00eancia nos subterr\u00e2neos do poder que alimentou a certeza de que o governo havia perdido a legitimidade moral para continuar. A oposi\u00e7\u00e3o intensificava sua ofensiva, e setores militares, inquietos, falavam abertamente em ruptura, num cen\u00e1rio em que a democracia brasileira, ainda jovem e fr\u00e1gil, parecia sempre caminhar sobre gelo fino.<\/p>\n<p>Naquele dia anterior, os jornais j\u00e1 n\u00e3o escondiam o tom de ultimato. Reda\u00e7\u00f5es fervilhavam. Rep\u00f3rteres se acotovelavam, tentando captar sinais m\u00ednimos, uma janela que se abrisse, um carro oficial que sa\u00edsse, um ministro que entrasse apressado. Muitos testemunhos posteriores insistiriam na mesma impress\u00e3o, a de que autoridades estavam tomadas por um sil\u00eancio incomum, como se o centro do poder tivesse se tornado uma sala de espera da Hist\u00f3ria. Um funcion\u00e1rio, citado em mem\u00f3rias e entrevistas, descreveu os corredores \u201cmais longos do que nunca\u201d, passos abafados, e a sensa\u00e7\u00e3o de que ningu\u00e9m falava alto, como se cada palavra pudesse precipitar um desfecho.<\/p>\n<p>Segundo pessoas pr\u00f3ximas, aquela autoridade apresentava-se abatida, mas n\u00e3o derrotada no sentido convencional. Havia nele, como declarou a filha, uma mistura de cansa\u00e7o e lucidez, a percep\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se tratava apenas de um governo em crise, mas de um projeto pol\u00edtico sob ataque, e de uma disputa mais ampla sobre o papel do Estado e do povo. Os relatos indicavam que ele passava horas ouvindo relat\u00f3rios, recebendo auxiliares, conversando com ministros, e recusando-se a aceitar, sem resist\u00eancia, a ideia de ren\u00fancia. A palavra ren\u00fancia, ali, n\u00e3o era um gesto administrativo, mas uma capitula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, e talvez, por isso, parecesse carregar nos ombros n\u00e3o apenas o peso de um mandato, mas o de uma era inteira.<\/p>\n<p>O ambiente militar era particularmente sens\u00edvel. Generais e oficiais discutiam abertamente a necessidade de afastamento, e circulavam exig\u00eancias formais para que se retirasse, sob pena de medidas mais duras. Um dos elementos mais dram\u00e1ticos daquela v\u00e9spera era precisamente essa suspens\u00e3o institucional, pois o pa\u00eds n\u00e3o sabia se amanheceria com uma solu\u00e7\u00e3o negociada, com uma deposi\u00e7\u00e3o ou com um colapso. A democracia brasileira, naquele instante, parecia depender de conversas noturnas, de telefonemas discretos, de encontros reservados, e essa fragilidade estrutural produzia um medo difuso, sentido tanto nas elites quanto nas ruas.<\/p>\n<p>Nas ruas, contudo, a percep\u00e7\u00e3o era amb\u00edgua. N\u00e3o se tratava de um povo uniformemente mobilizado, mas de uma sociedade dividida entre o apoio visceral e o desgaste acumulado. Trabalhadores lembravam as conquistas e o viam como algu\u00e9m perseguido pelos mesmos setores que sempre resistiram \u00e0 inclus\u00e3o. Uma costureira entrevistada anos depois por pesquisadores do per\u00edodo resumiu a emo\u00e7\u00e3o popular com simplicidade contundente, \u201cqueriam tirar o homem que olhava pelos pobres\u201d. Ao mesmo tempo, setores urbanos de classe m\u00e9dia, influenciados pela ret\u00f3rica moralizante da oposi\u00e7\u00e3o, repetiam que o governo estava cercado de corrup\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia, e que a perman\u00eancia seria insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Foi o jornalista que conviveu de perto que descreveu o clima de trag\u00e9dia anunciada, como se todos soubessem que a crise j\u00e1 ultrapassara o campo do poss\u00edvel retorno. Relatou que o chefe compreendia a solid\u00e3o do poder, e que parecia cada vez mais consciente de que seus advers\u00e1rios n\u00e3o buscavam apenas sua sa\u00edda, mas sua humilha\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Esse componente, frequentemente subestimado, \u00e9 essencial para entender a atmosfera da v\u00e9spera, pois o drama n\u00e3o era apenas pol\u00edtico, mas profundamente psicol\u00f3gico, um homem acuado n\u00e3o apenas por for\u00e7as externas, mas por uma narrativa que pretendia transform\u00e1-lo em vil\u00e3o absoluto ou em obst\u00e1culo a ser removido.<\/p>\n<p>Claro que os ministros se dividiam. Alguns defendiam a resist\u00eancia, outros sugeriam concess\u00f5es, outros, ainda, tentavam construir uma sa\u00edda intermedi\u00e1ria. Mas a pr\u00f3pria ideia de sa\u00edda intermedi\u00e1ria parecia evaporar, porque a crise se alimentava de radicaliza\u00e7\u00e3o. A oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o queria acordos, queria o fim. Parte dos militares n\u00e3o queria transi\u00e7\u00e3o, queria ruptura. Por sua vez, ele parecia recusar o papel que simplesmente abandona a cadeira sob press\u00e3o. O impasse, portanto, n\u00e3o era t\u00e9cnico, era existencial.<\/p>\n<p>Naquela v\u00e9spera, o Brasil vivia uma esp\u00e9cie de vertigem institucional. As conversas em caf\u00e9s, os murm\u00farios nos transportes coletivos, as manchetes, tudo parecia anunciar que o dia seguinte n\u00e3o seria comum. Uma testemunha, citada em cr\u00f4nicas posteriores, disse que \u201ca capital estava com cara de domingo triste\u201d, mesmo sendo dia \u00fatil, como se a cidade pressentisse que a pol\u00edtica, quando chega ao limite, deixa de ser debate e se torna destino.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio, portanto, era de cerco, n\u00e3o apenas aquela autoridade, mas ao pr\u00f3prio significado do Estado. Era amado e odiado, s\u00edmbolo e contradi\u00e7\u00e3o, estava no centro de uma tempestade que misturava moralismo, luta de classes, disputa geopol\u00edtica, ressentimentos militares e expectativas populares. Naquele \u00faltimo dia inteiro, antes do fato que mudaria o curso da Rep\u00fablica, o pa\u00eds parecia suspenso, como se respirasse com dificuldade, aguardando o instante em que a Hist\u00f3ria, impaciente, finalmente se imporia.<\/p>\n<p>Que esp\u00e9cie de obstina\u00e7\u00e3o nos impede de olhar para a Hist\u00f3ria e reconhecer nela o aviso necess\u00e1rio para n\u00e3o repetirmos, uma vez mais, os mesmos erros?<\/p>\n<p>Era o dia 24 de agosto de 1954, por volta das 8h30 da manh\u00e3. Get\u00falio Vargas estava no seu quarto no Pal\u00e1cio do Catete, no Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o se pode fazer pol\u00edtica com o f\u00edgado, conservando o rancor e ressentimentos na geladeira. A P\u00e1tria n\u00e3o \u00e9 capanga de idiossincrasias pessoais. \u00c9 indecoroso fazer pol\u00edtica uterina, em benef\u00edcio de filhos, irm\u00e3os e cunhados. O bom pol\u00edtico costuma ser mau parente.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ulysses Guimar\u00e3es<\/p>\n<figure id=\"attachment_12350\" aria-describedby=\"caption-attachment-12350\" style=\"width: 518px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-12350\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/10\/ulysses_guimaraes.jpg\" alt=\"\" width=\"518\" height=\"343\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/10\/ulysses_guimaraes.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/10\/ulysses_guimaraes-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/10\/ulysses_guimaraes-768x509.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/10\/ulysses_guimaraes-350x232.jpg 350w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/10\/ulysses_guimaraes-550x364.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/10\/ulysses_guimaraes-230x152.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 518px) 100vw, 518px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-12350\" class=\"wp-caption-text\">Foto: agenciabrasil.ebc.com.br<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Ajuda e Campanha do Cobertor. H\u00e1 muita crian\u00e7a com frio, sem agasalho, em Bras\u00edlia. <strong>(Publicada em 15.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; Parecia que o Brasil atravessava uma dessas horas em que a pol\u00edtica deixa de ser apenas disputa institucional e se transforma em atmosfera, em tens\u00e3o espalhada pelas ruas, em sensa\u00e7\u00e3o quase f\u00edsica de que algo, no centro do poder, se aproximava [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":26897,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,2339,828,290,1702,4138,114,2340,261],"class_list":["post-26885","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-circecunha-2","tag-democracia","tag-democracianobrasil","tag-getuliovargas","tag-governovargas","tag-historiadebrasilia","tag-mamfil-2","tag-politicanobrasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26885"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26885\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26898,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26885\/revisions\/26898"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26897"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}