{"id":26913,"date":"2026-02-19T01:00:51","date_gmt":"2026-02-19T04:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26913"},"modified":"2026-02-19T11:25:18","modified_gmt":"2026-02-19T14:25:18","slug":"fantasmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/fantasmas\/","title":{"rendered":"Fantasmas"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26924\" aria-describedby=\"caption-attachment-26924\" style=\"width: 462px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26924\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/LIPP.jpg\" alt=\"\" width=\"462\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/LIPP.jpg 761w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/LIPP-300x227.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/LIPP-550x417.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/LIPP-230x174.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 462px) 100vw, 462px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26924\" class=\"wp-caption-text\">Walter Lippmann. Foto: Los Angeles Times\/Wikimedia Commons<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400\">N\u00e3o s\u00e3o poucos os historiadores que concordam com a m\u00e1xima de que \u201co povo, em hist\u00f3ria, \u00e9 uma por\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m\u201d. No livro The phantom public (O p\u00fablico imagin\u00e1rio), do jornalista Walter Lippmann, publicado em 1925 e que se firmou como uma obra cl\u00e1ssica, esse tema volta com for\u00e7a total. No livro, Lippmann afirma que o p\u00fablico, nas democracias de massas, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 uma ilus\u00e3o, como \u00e9 um mito e um fantasma. O motivo, segundo ele, \u00e9 que o cidad\u00e3o comum n\u00e3o consegue compreender a complexidade dos eventos pol\u00edticos, vivendo em um \u201cpseudo-ambiente de narrativas fabricadas\u201d. Da mesma forma, a capacidade do p\u00fablico de vir a intervir diretamente na gest\u00e3o p\u00fablica \u00e9, para o autor, bastante question\u00e1vel. \u201cO p\u00fablico v\u00ea o governo como um problema t\u00e9cnico-administrativo, n\u00e3o como uma delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica constante\u201d. Mesmo o eleitor \u00e9 visto como uma esp\u00e9cie de espectador impotente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Apesar da vis\u00e3o pessimista, o livro se tornou um pilar da teoria pol\u00edtica e, mais incr\u00edvel, parece descrever a sociedade atual, hiperconectada e, ao mesmo tempo, longe da realidade. De fato, o diagn\u00f3stico formulado por Walter Lippmann permanece inquietantemente nos dias atuais. O que parecia um alerta te\u00f3rico do in\u00edcio do s\u00e9culo 20 tornou-se, no s\u00e9culo 21, uma descri\u00e7\u00e3o emp\u00edrica do cotidiano pol\u00edtico global. A premissa de Lippmann n\u00e3o \u00e9 que o povo seja irrelevante, mas que sua participa\u00e7\u00e3o efetiva \u00e9 mediada por filtros que condensam complexidades em s\u00edmbolos manej\u00e1veis. Em seu tempo, esses filtros eram jornais, l\u00edderes partid\u00e1rios e campanhas impressas; hoje, s\u00e3o plataformas digitais, algoritmos e m\u00e1quinas de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica capazes de segmentar audi\u00eancias com precis\u00e3o cir\u00fargica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A promessa de hiperconex\u00e3o ampliou o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o eliminou a assimetria cognitiva entre a complexidade dos sistemas pol\u00edticos e a capacidade individual de compreend\u00ea-los em profundidade. Ao contr\u00e1rio, a multiplica\u00e7\u00e3o de est\u00edmulos e a velocidade da circula\u00e7\u00e3o de conte\u00fados intensificaram o fen\u00f4meno que Lippmann descreveu: a opini\u00e3o p\u00fablica formada por imagens e slogans.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Essa din\u00e2mica n\u00e3o \u00e9 neutra. Governos, movimentos e corpora\u00e7\u00f5es aprenderam a operar no n\u00edvel simb\u00f3lico com not\u00e1vel efic\u00e1cia. O caso da brit\u00e2nica Cambridge Analytica tornou-se emblem\u00e1tico ao revelar o potencial de microssegmenta\u00e7\u00e3o comportamental no direcionamento de mensagens pol\u00edticas. A l\u00f3gica \u00e9 simples e poderosa: em vez de persuadir um p\u00fablico homog\u00eaneo, molda-se a narrativa para perfis psicol\u00f3gicos espec\u00edficos, refor\u00e7ando predisposi\u00e7\u00f5es e atenuando disson\u00e2ncias. O cidad\u00e3o deixa de ser interpelado como participante de uma esfera p\u00fablica comum e passa a ser tratado como um conjunto de tra\u00e7os comportamentais, suscet\u00edvel a est\u00edmulos personalizados. O resultado \u00e9 uma opini\u00e3o p\u00fablica fragmentada, na qual consensos s\u00e3o mais dif\u00edceis, e percep\u00e7\u00f5es divergentes coexistem sem di\u00e1logo efetivo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Temos exemplos eloquentes de lideran\u00e7as que exploram esse terreno simb\u00f3lico. A comunica\u00e7\u00e3o direta por redes sociais, adotada por figuras da pol\u00edtica, redefiniu a media\u00e7\u00e3o tradicional da imprensa.\u00a0Ao falar \u201csem intermedi\u00e1rios\u201d, o l\u00edder parece reduzir a dist\u00e2ncia entre governante e governado. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, estabelece um circuito de mensagens de alto impacto emocional, com forte capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria. A pol\u00edtica torna-se espet\u00e1culo cont\u00ednuo, no qual a verifica\u00e7\u00e3o factual perde espa\u00e7o para a ades\u00e3o afetiva. O p\u00fablico, nesse cen\u00e1rio, oscila entre plateia e tropa, reagindo a est\u00edmulos que organizam o mundo em narrativas morais simples.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">No Brasil, essa l\u00f3gica encontra terreno f\u00e9rtil em um hist\u00f3rico de desconfian\u00e7a institucional e desigualdades informacionais. Quando a realidade administrativa, complexa por natureza, \u00e9 traduzida em enredos de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o, a delibera\u00e7\u00e3o p\u00fablica tende a ceder lugar \u00e0 performance pol\u00edtica. O debate sobre pol\u00edticas p\u00fablicas passa a ser substitu\u00eddo por disputas de enquadramento: quem define a narrativa, define o campo do poss\u00edvel. A consequ\u00eancia \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o a um papel reativo, convocado a aplaudir ou rejeitar, raramente a deliberar com base em informa\u00e7\u00f5es completas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O \u201cfantasma\u201d de Lippmann n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia do povo, mas sua presen\u00e7a esvaziada de ag\u00eancia substantiva. Obras posteriores aprofundaram esse diagn\u00f3stico. A tradi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que analisa propaganda, fabrica\u00e7\u00e3o do consenso e economia da aten\u00e7\u00e3o converge para a ideia de que a esfera p\u00fablica \u00e9 um espa\u00e7o disputado por atores com capacidades desiguais de produzir visibilidade. Em ambientes digitais, essa disputa \u00e9 intensificada por m\u00e9tricas de engajamento que privilegiam o conte\u00fado mais polarizador. A arquitetura das plataformas incentiva a simplifica\u00e7\u00e3o e a dramatiza\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando bolhas de percep\u00e7\u00e3o. Assim, o pseudo-ambiente n\u00e3o \u00e9 apenas um subproduto da media\u00e7\u00e3o; ele se torna um ecossistema aut\u00f4nomo, com regras pr\u00f3prias de relev\u00e2ncia e circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Governos que dominam essa gram\u00e1tica simb\u00f3lica conseguem governar tamb\u00e9m no plano das percep\u00e7\u00f5es. Pol\u00edticas complexas podem ser apresentadas como solu\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas; fracassos podem ser reconfigurados como vit\u00f3rias narrativas; opositores podem ser reduzidos a caricaturas. O risco, como advertia Lippmann, \u00e9 que a pol\u00edtica deixe de ser um processo de delibera\u00e7\u00e3o informada para se tornar um teatro de representa\u00e7\u00f5es no qual o p\u00fablico participa como espectador mobilizado. Isso n\u00e3o implica fatalismo. Onde a realidade \u00e9 substitu\u00edda por imagens convenientes, a cidadania torna-se um simulacro. Recuperar sua densidade \u00e9 o imperativo que define o futuro das democracias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cEu n\u00e3o troco a justi\u00e7a pela soberba.\u00a0<\/em><em>Eu n\u00e3o deixo o direito pela for\u00e7a.\u00a0<\/em><em>Eu n\u00e3o esque\u00e7o a fraternidade pela\u00a0<\/em><em>toler\u00e2ncia. Eu n\u00e3o substituo a f\u00e9 pela\u00a0<\/em><em>supersti\u00e7\u00e3o, a realidade pelo \u00eddolo.\u201d<\/em><br \/>\nRui Barbosa<\/p>\n<figure id=\"attachment_15775\" aria-describedby=\"caption-attachment-15775\" style=\"width: 323px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-15775\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/01\/rui-barbosa.jpg\" alt=\"\" width=\"323\" height=\"447\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-15775\" class=\"wp-caption-text\">Foto: academia.org<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Dos depoimentos na Comiss\u00e3o de Inqu\u00e9rito da Novacap, a imprensa teve not\u00edcia somente do que foi feito pelo deputado Ademar da Costa Carvalho, e isso mesmo porque \u00eale desfruta de imunidade parlamentar. <strong>(Publicada em 15\/5\/1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; N\u00e3o s\u00e3o poucos os historiadores que concordam com a m\u00e1xima de que \u201co povo, em hist\u00f3ria, \u00e9 uma por\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m\u201d. 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