{"id":26926,"date":"2026-02-20T01:00:05","date_gmt":"2026-02-20T04:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26926"},"modified":"2026-02-19T11:48:41","modified_gmt":"2026-02-19T14:48:41","slug":"os-demonios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/os-demonios\/","title":{"rendered":"Os dem\u00f4nios"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_19510\" aria-describedby=\"caption-attachment-19510\" style=\"width: 552px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19510\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/06\/duke-1.jpg\" alt=\"\" width=\"552\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/06\/duke-1.jpg 693w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/06\/duke-1-300x269.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/06\/duke-1-550x493.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2021\/06\/duke-1-230x206.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 552px) 100vw, 552px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-19510\" class=\"wp-caption-text\">Charge do Duke<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 \u00e9pocas em que o crime precisa se esconder, e h\u00e1 \u00e9pocas mais estranhas em que ele se acomoda, aprende a falar baixo, veste-se de normalidade e passa a circular como se fosse parte do mobili\u00e1rio institucional. Dostoi\u00e9vski, que conhecia os subterr\u00e2neos da alma e desconfiava das ideias que prometem reden\u00e7\u00e3o total, talvez dissesse que o verdadeiro perigo n\u00e3o est\u00e1 no esc\u00e2ndalo, mas no costume; n\u00e3o no choque inicial, mas na repeti\u00e7\u00e3o que anestesia.<\/p>\n<p>Em Os dem\u00f4nios, n\u00e3o s\u00e3o apenas homens que agem, mas for\u00e7as, febres, possess\u00f5es morais que transformam convic\u00e7\u00f5es em licen\u00e7a; e licen\u00e7a, em m\u00e9todo. Tudo come\u00e7a, quase sempre, com uma pequena concess\u00e3o interior, uma dobra discreta na consci\u00eancia, um acordo silencioso entre o que se sabe e o que se tolera. Depois, o resto vem com a naturalidade de um procedimento administrativo, como se a gravidade moral fosse apenas um detalhe contorn\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sociedades inteiras podem ser educadas para essa toler\u00e2ncia. N\u00e3o por maldade expl\u00edcita, mas por repeti\u00e7\u00e3o. Certos s\u00edmbolos retornam como se fossem parte de uma liturgia n\u00e3o declarada, volumes que viajam sem perguntas, brilhos met\u00e1licos que desaparecem sem espanto duradouro, cifras que se tornam mais reais do que pessoas. Dinheiro, nesse cen\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 apenas moeda, \u00e9 gram\u00e1tica, senha, salvo-conduto moral, um idioma paralelo falado com flu\u00eancia.<\/p>\n<p>Impunidade, quando se instala como horizonte permanente, produz um efeito mais profundo do que o preju\u00edzo material. Produz dessensibiliza\u00e7\u00e3o. Produz a sensa\u00e7\u00e3o de que o mundo \u00e9 male\u00e1vel, de que limites existem apenas para os distra\u00eddos, de que a lei pode ser mat\u00e9ria interpret\u00e1vel, uma esp\u00e9cie de tecido el\u00e1stico que se ajusta conforme a conveni\u00eancia de quem o veste. Dostoi\u00e9vski perceberia, com desconforto, que a trag\u00e9dia n\u00e3o reside apenas no ato, mas na serenidade.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia moderna fala de tra\u00e7os sombrios, de personalidades que operam com baixa empatia e alta capacidade de instrumentalizar o outro. Pesquisas em psicologia social descrevem como o poder tende a reduzir a escuta, a percep\u00e7\u00e3o do sofrimento alheio, a capacidade de reconhecer o outro como fim e n\u00e3o como meio. N\u00e3o se trata, necessariamente, de monstros cl\u00ednicos, mas de ambientes que recompensam precisamente a frieza, promovendo a aus\u00eancia de remorso como pragmatismo e a manipula\u00e7\u00e3o como intelig\u00eancia estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica, quando perde o v\u00ednculo com a ideia de servi\u00e7o, transforma-se em mercado. Nesse mercado, o p\u00fablico vira mercadoria, a palavra vira instrumento, a moral vira ornamento. Dostoi\u00e9vski desconfiava das utopias porque sabia que o sonho abstrato costuma exigir sacrif\u00edcios concretos. Aqui, por\u00e9m, o sacrif\u00edcio n\u00e3o se d\u00e1 em nome de um futuro luminoso, mas em nome de uma aritm\u00e9tica imediata, cifras que substituem princ\u00edpios, c\u00e1lculos que substituem consci\u00eancias.<\/p>\n<p>Normaliza\u00e7\u00e3o do inaceit\u00e1vel \u00e9 sempre um processo lento. Primeiro, o esc\u00e2ndalo. Depois, a ironia. Em seguida, o cansa\u00e7o. Por fim, a aceita\u00e7\u00e3o resignada. O dem\u00f4nio, nesses casos, n\u00e3o aparece com chifres, aparece com carimbos. N\u00e3o grita, assina. N\u00e3o amea\u00e7a, explica. N\u00e3o confessa, justifica. E a sociedade, exausta, aprende a conviver com o inomin\u00e1vel como quem convive com um ru\u00eddo de fundo.<\/p>\n<p>Subsolo moral, para Dostoi\u00e9vski, era o lugar onde a alma se debate quando percebe que perdeu o pr\u00f3prio eixo. Mem\u00f3rias do subsolo n\u00e3o \u00e9 apenas um livro sobre um homem ressentido, \u00e9 um aviso sobre a corros\u00e3o interior que ocorre quando a racionaliza\u00e7\u00e3o substitui a verdade. Tudo pode ser explicado, tudo pode ser relativizado, tudo pode ser interpretado, at\u00e9 que a pr\u00f3pria ideia de limite se dissolva.<\/p>\n<p>Liberdade, nessas circunst\u00e2ncias, n\u00e3o desaparece de modo dram\u00e1tico. Ela vai sendo colocada, pouco a pouco, numa gaiola decorada. Mant\u00e9m-se a apar\u00eancia, preserva-se o discurso, repete-se a liturgia democr\u00e1tica, mas restringe-se o espa\u00e7o interior onde a consci\u00eancia poderia respirar. Dostoi\u00e9vski sabia que a servid\u00e3o mais eficiente \u00e9 aquela que se apresenta como normalidade, aquela que n\u00e3o precisa de viol\u00eancia ostensiva porque j\u00e1 encontrou abrigo no h\u00e1bito.<\/p>\n<p>Inferno, em sua obra, n\u00e3o \u00e9 um lugar de fogo espetacular, mas um estado em que a d\u00favida moral se extingue. Tudo \u00e9 permitido, n\u00e3o porque se tenha declarado guerra \u00e0 \u00e9tica, mas porque se perdeu o h\u00e1bito de perguntar. Quando a alma j\u00e1 n\u00e3o discerne, quando a sociedade j\u00e1 n\u00e3o se espanta, quando o esc\u00e2ndalo vira rotina e a rotina vira paisagem, ent\u00e3o os dem\u00f4nios j\u00e1 n\u00e3o precisam agir, basta que permane\u00e7am.<\/p>\n<p>Resta, talvez, a pergunta que atravessa todos os seus romances, como um fio subterr\u00e2neo. O que acontece com um pa\u00eds quando a consci\u00eancia se torna inc\u00f4moda, quando o remorso \u00e9 tratado como fraqueza, quando a lei se dobra, quando o cifr\u00e3o se converte em absolvi\u00e7\u00e3o silenciosa. Dostoi\u00e9vski n\u00e3o ofereceria respostas f\u00e1ceis. Apenas lembraria, com sua crueldade l\u00facida, que o colapso raramente come\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, come\u00e7a no interior, no momento em que uma sociedade inteira aprende a viver e se inquietar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>\u201cA riqueza \u00e9 uma escravid\u00e3o impessoal.\u201d<\/em><br \/>\nLiev Tolst\u00f3i<\/p>\n<figure id=\"attachment_26931\" aria-describedby=\"caption-attachment-26931\" style=\"width: 458px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26931\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/liev.jpg\" alt=\"\" width=\"458\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/liev.jpg 616w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/liev-300x194.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/liev-550x355.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/liev-230x149.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26931\" class=\"wp-caption-text\">Liev Tolst\u00f3i (Foto: Flickr\/Octubre CCC\/Creative Commons)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nTodos os outros depoimentos foram sigilosos e, agora, a gente fica sabendo que, quando o deputado foi depor, a arrog\u00e2ncia das inquiri\u00e7\u00f5es foi aos poucos se transformando, at\u00e9 chegar a um ponto de sorrisos sem perguntas. <strong>(Publicada em 15\/02\/1963)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; H\u00e1 \u00e9pocas em que o crime precisa se esconder, e h\u00e1 \u00e9pocas mais estranhas em que ele se acomoda, aprende a falar baixo, veste-se de normalidade e passa a circular como se fosse parte do mobili\u00e1rio institucional. 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