{"id":26945,"date":"2026-02-25T01:00:14","date_gmt":"2026-02-25T04:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=26945"},"modified":"2026-02-25T11:09:51","modified_gmt":"2026-02-25T14:09:51","slug":"como-desinvestir-no-proprio-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/como-desinvestir-no-proprio-futuro\/","title":{"rendered":"Como desinvestir no pr\u00f3prio futuro"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_26949\" aria-describedby=\"caption-attachment-26949\" style=\"width: 336px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26949\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/dr.jpg\" alt=\"\" width=\"336\" height=\"509\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/dr.jpg 328w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/dr-198x300.jpg 198w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/dr-230x349.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26949\" class=\"wp-caption-text\">Dr.a Tatiana Sampaio, pesquisadora que descobriu a polilaminina. Foto:\u00a0faperj.b<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, o Brasil tem ocupado posi\u00e7\u00f5es que constrangem uma na\u00e7\u00e3o com ambi\u00e7\u00e3o de protagonismo global. N\u00e3o se trata de um trope\u00e7o isolado, mas de um padr\u00e3o que se repete em indicadores internacionais que medem aquilo que sustenta o desenvolvimento moderno: integridade institucional, ambiente econ\u00f4mico e capacidade de inovar. O retrato \u00e9 conhecido, mas, nem por isso, menos inquietante.<\/p>\n<p>No \u00cdndice de Percep\u00e7\u00e3o da Corrup\u00e7\u00e3o 2025, divulgado pela Transpar\u00eancia Internacional, o pa\u00eds caiu para a 107\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre 182 pa\u00edses, com\u00a0 35 pontos em uma escala de 0 a 100. Trata-se de uma das piores coloca\u00e7\u00f5es da s\u00e9rie hist\u00f3rica recente, refletindo deteriora\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o institucional no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>Em competitividade, o diagn\u00f3stico tamb\u00e9m \u00e9 severo. No<br \/>\nranking de 2025 do IMD World Competitiveness Center, o Brasil ocupa a 53\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre 69 economias avaliadas, evidenciando entraves estruturais \u00e0 produtividade, \u00e0 efici\u00eancia do setor p\u00fablico e ao ambiente de neg\u00f3cios. J\u00e1 no \u00cdndice de Liberdade Econ\u00f4mica 2025, produzido pela The Heritage Foundation, o pa\u00eds \u00e9 classificado como \u201cMostly Unfree\u201d (majoritariamente n\u00e3o livre), com pontua\u00e7\u00e3o inferior \u00e0 m\u00e9dia mundial, posi\u00e7\u00e3o incompat\u00edvel com a ret\u00f3rica de moderniza\u00e7\u00e3o. Independentemente da matriz ideol\u00f3gica do instituto, o dado refor\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o internacional de inseguran\u00e7a regulat\u00f3ria e instabilidade normativa.<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros n\u00e3o s\u00e3o meras abstra\u00e7\u00f5es. Eles se traduzem em investimento menor, inova\u00e7\u00e3o mais lenta, oportunidades escassas e dialogam com dados internos.\u00a0Segundo o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o Brasil registrou cerca de 29 mil pedidos de patente em 2023, n\u00famero modesto para uma economia do porte brasileiro e ainda fortemente concentrado em depositantes estrangeiros. No cen\u00e1rio global, conforme a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Propriedade Intelectual, o pa\u00eds permanece distante das na\u00e7\u00f5es l\u00edderes em dep\u00f3sitos de patentes.<\/p>\n<p>Em termos pr\u00e1ticos, significam menos empresas de base tecnol\u00f3gica, menos patentes, menos empregos qualificados, menor densidade inovadora e inser\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica nas<br \/>\ncadeias globais de valor. E, sobretudo, significam um Estado que falha em criar as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para que a intelig\u00eancia nacional flores\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que ganha contornos simb\u00f3licos o epis\u00f3dio envolvendo a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Reportagens publicadas em 2024 indicaram que a institui\u00e7\u00e3o deixou de manter a vig\u00eancia de uma patente relacionada \u00e0 tecnologia conhecida como polilaminina por inadimpl\u00eancia de taxas junto ao INPI. Logo, a institui\u00e7\u00e3o teria perdido a prote\u00e7\u00e3o de patente de uma tecnologia conhecida como Polilamina, resultado de anos de pesquisa p\u00fablica.\u00a0O caso, ainda que espec\u00edfico, tornou-se met\u00e1fora de uma fragilidade\u00a0 estrutural, a dificuldade de transformar pesquisa p\u00fablica em ativo protegido e economicamente explor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mais do que um rev\u00e9s administrativo, o epis\u00f3dio exp\u00f5e um paradoxo. O Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, segundo dados do Banco Mundial, percentual inferior ao de pa\u00edses que lideram a inova\u00e7\u00e3o global, como Coreia do Sul e Israel, que superam 4% do PIB. Investimos pouco e, quando investimos, frequentemente falhamos na prote\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do resultado. O fato exp\u00f5e uma ferida aberta: o pa\u00eds que se pretende pot\u00eancia cient\u00edfica n\u00e3o consegue honrar custos b\u00e1sicos para proteger a pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o. A Polilamina \u00e9 fruto de pesquisa de ponta em materiais e poderia ter impulsionado cadeias industriais inteiras, atra\u00eddo investimentos e projetado o Brasil no circuito internacional de inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em ambientes onde ci\u00eancia \u00e9 tratada como pol\u00edtica de Estado, descobertas com potencial disruptivo s\u00e3o cercadas por mecanismos \u00e1geis de prote\u00e7\u00e3o e transfer\u00eancia tecnol\u00f3gica. Aqui, sucumbem \u00e0 burocracia, \u00e0 escassez or\u00e7ament\u00e1ria e \u00e0 indiferen\u00e7a. O dano \u00e9 duplo. Perde-se o retorno econ\u00f4mico direto e, ao mesmo tempo, dilui-se o prest\u00edgio cient\u00edfico. H\u00e1 casos na hist\u00f3ria recente em que descobertas laboratoriais, devidamente protegidas e desenvolvidas, renderam reconhecimento m\u00e1ximo \u00e0 pesquisa, inclusive o mais alto pr\u00eamio internacional da \u00e1rea. Ao permitir que uma inova\u00e7\u00e3o se perca por inadimpl\u00eancia, o Brasil envia ao mundo uma mensagem inequ\u00edvoca: a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 prioridade. Esse descompasso entre discurso e pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 novo.<\/p>\n<p>Laborat\u00f3rios operam com equipamentos obsoletos, editais s\u00e3o irregulares, bolsas n\u00e3o acompanham a infla\u00e7\u00e3o e jovens pesquisadores migram para centros estrangeiros. A evas\u00e3o de c\u00e9rebros, frequentemente tratada como fatalidade, \u00e9, na verdade, consequ\u00eancia l\u00f3gica de um ambiente que oferece pouco horizonte. A intelig\u00eancia n\u00e3o abandona o pa\u00eds por capricho; ela busca condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>O argumento de restri\u00e7\u00e3o fiscal, recorrente em tempos de aperto, n\u00e3o resiste a um exame mais atento. Pa\u00edses que hoje lideram em inova\u00e7\u00e3o fizeram escolhas claras: protegeram seus sistemas de ci\u00eancia e tecnologia mesmo em per\u00edodos de crise. Investimento em pesquisa n\u00e3o \u00e9 gasto sup\u00e9rfluo; \u00e9 infraestrutura do s\u00e9culo XXI. Sem ele, qualquer projeto de desenvolvimento \u00e9 ret\u00f3rica vazia.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, um problema de coordena\u00e7\u00e3o. O Brasil produz ci\u00eancia de qualidade em diversas \u00e1reas, mas falha na tradu\u00e7\u00e3o do conhecimento em produto, na prote\u00e7\u00e3o da propriedade intelectual e na conex\u00e3o com o setor produtivo. A perda de uma patente relevante por inadimpl\u00eancia revela a aus\u00eancia de um sistema robusto de governan\u00e7a da inova\u00e7\u00e3o, aquele que acompanha prazos, assegura recursos e transforma descobertas em valor econ\u00f4mico e social.<\/p>\n<p>Os rankings internacionais, t\u00e3o frequentemente descartados como percep\u00e7\u00f5es externas, s\u00e3o, na verdade, espelhos imperfeitos de realidades internas. Quando um pa\u00eds figura mal em integridade, competitividade e liberdade econ\u00f4mica, o efeito cumulativo recai justamente sobre o ecossistema que deveria produzir solu\u00e7\u00f5es: a ci\u00eancia. Sem ambiente institucional est\u00e1vel, o laborat\u00f3rio se isola; sem mercado din\u00e2mico, a inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o escala; sem prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica eficiente, a patente n\u00e3o sobrevive.<\/p>\n<p>O custo dessa trajet\u00f3ria \u00e9 pago em sil\u00eancio. \u00c9 pago pelo estudante que abandona a pesquisa por falta de bolsa; pelo laborat\u00f3rio que fecha as portas; pela empresa que deixa de inovar; pela sociedade que perde acesso a tecnologias pr\u00f3prias. \u00c9 pago, sobretudo, pelo futuro, que se torna cada vez mais dependente de solu\u00e7\u00f5es importadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam exemplos de revers\u00e3o poss\u00edvel. Onde houve continuidade de financiamento, metas claras de inova\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o da carreira cient\u00edfica, resultados surgiram. O Brasil possui massa cr\u00edtica, universidades consolidadas e pesquisadores reconhecidos internacionalmente. O que falta \u00e9 decis\u00e3o pol\u00edtica consistente, previsibilidade or\u00e7ament\u00e1ria e gest\u00e3o eficiente da propriedade intelectual.<\/p>\n<p>A agenda \u00e9 conhecida: garantir financiamento est\u00e1vel e plurianual; simplificar processos de registro e manuten\u00e7\u00e3o de patentes; fortalecer n\u00facleos de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nas universidades; criar pontes efetivas com a ind\u00fastria; valorizar carreiras cient\u00edficas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>&#8220;Todo filme de desastre come\u00e7a com o governo ignorando um cientista.&#8221;<\/em><br \/>\nAn\u00f4nimo<\/p>\n<figure id=\"attachment_26950\" aria-describedby=\"caption-attachment-26950\" style=\"width: 557px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-26950\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/ci\u00ca.jpg\" alt=\"\" width=\"557\" height=\"370\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/ci\u00ca.jpg 699w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/ci\u00ca-300x199.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/ci\u00ca-550x365.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/02\/ci\u00ca-230x153.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 557px) 100vw, 557px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-26950\" class=\"wp-caption-text\">Charge do Gilmar Fraga<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nEla surgiu, inocentemente, de uma conversa no bar do acampamento do jornal, \u00e0quela \u00e9poca secretariado pelo Eduardo Santa Maria. \u00cale sugeriu que o jornal deveria ter uma coluna para defender a cidade, e assim teve in\u00edcio o nosso trabalho.\u00a0<strong>(Publicada em 15.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, o Brasil tem ocupado posi\u00e7\u00f5es que constrangem uma na\u00e7\u00e3o com ambi\u00e7\u00e3o de protagonismo global. 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