{"id":27002,"date":"2026-03-08T01:00:04","date_gmt":"2026-03-08T04:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27002"},"modified":"2026-03-10T14:42:26","modified_gmt":"2026-03-10T17:42:26","slug":"os-donos-da-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/os-donos-da-verdade\/","title":{"rendered":"Os donos da verdade"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_21125\" aria-describedby=\"caption-attachment-21125\" style=\"width: 601px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-21125\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/05\/mentira.png\" alt=\"\" width=\"601\" height=\"453\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/05\/mentira.png 1018w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/05\/mentira-300x226.png 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/05\/mentira-768x579.png 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/05\/mentira-800x603.png 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/05\/mentira-550x414.png 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/05\/mentira-230x173.png 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 601px) 100vw, 601px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-21125\" class=\"wp-caption-text\">Charge do Cazo<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o, a frase: \u201ca verdade est\u00e1 espalhada por a\u00ed\u201d \u00e9 atribu\u00edda ao primeiro poeta grego, P\u00edndaro (518 a.C \u2013 438 a.C), posteriormente replicada pelo fil\u00f3sofo Nietzsche na obra autobiogr\u00e1fica Ecce Homo, de 1888. Com essa express\u00e3o, o que se busca demonstrar \u00e9 que a ideia da verdade pode ser encontrada em contextos e fontes diversas, espalhadas aos quatro cantos. Isso ocorre porque as convic\u00e7\u00f5es pessoais e empedernidas podem facilmente vir a se tornarem mais perigosas at\u00e9 do que a pr\u00f3pria mentira. O sentido profundo dessa express\u00e3o sugere algo fundamental para a vida intelectual e pol\u00edtica das sociedades: a verdade n\u00e3o pertence a um indiv\u00edduo, a um grupo ou a uma autoridade espec\u00edfica. Ela se encontra dispersa na experi\u00eancia humana, na raz\u00e3o, no debate p\u00fablico e na realidade dos fatos. Nenhuma autoridade, por mais poderosa que seja, possui monop\u00f3lio sobre ela. A pluralidade de perspectivas constitui justamente o mecanismo pelo qual sociedades conseguem se aproximar de interpreta\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas da realidade.<\/p>\n<p>O problema grave surge quando essa concep\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda por outra mais perigosa: a cren\u00e7a de que a verdade pode ser definida por decreto, por autoridade ou pela simples repeti\u00e7\u00e3o de narrativas pol\u00edticas. Nesse momento, convic\u00e7\u00f5es pessoais passam a ocupar o lugar que deveria ser reservado aos fatos. Aquilo que antes era objeto de investiga\u00e7\u00e3o e debate transforma-se em dogma. E dogmas pol\u00edticos, quando se consolidam, tendem a produzir crises institucionais profundas.<\/p>\n<p>O Brasil contempor\u00e2neo vive, em larga medida, sob os efeitos desse fen\u00f4meno. Polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica intensa, discursos mutuamente excludentes e disputas de narrativas permanentes criaram um ambiente em que cada grupo acredita possuir a pr\u00f3pria vers\u00e3o incontest\u00e1vel da realidade. Em vez de debate racional, instala-se uma guerra de narrativas. Em vez de busca pela verdade comum, prevalece a tentativa de impor vers\u00f5es particulares como se fossem fatos incontest\u00e1veis. A consequ\u00eancia inevit\u00e1vel desse ambiente \u00e9 o enfraquecimento das institui\u00e7\u00f5es. Quando diferentes grupos passam a afirmar que a verdade depende apenas da posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de quem a proclama, o terreno comum da conviv\u00eancia republicana come\u00e7a a desaparecer.<\/p>\n<p>Institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, que deveriam funcionar como \u00e1rbitros imparciais, acabam sendo arrastadas para disputas pol\u00edticas intensas. Em vez de mediadoras, tornam-se parte do conflito. Essa transforma\u00e7\u00e3o produz efeitos corrosivos sobre a confian\u00e7a p\u00fablica. Pesquisas de opini\u00e3o, realizadas pelo Datafolha e por outros institutos indicam, ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, n\u00edveis elevados de desconfian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e administrativas. Tal desconfian\u00e7a n\u00e3o surge apenas de esc\u00e2ndalos ou crises econ\u00f4micas. Ela nasce tamb\u00e9m da percep\u00e7\u00e3o de que diferentes autoridades apresentam interpreta\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis com a realidade, muitas vezes moldadas por interesses circunstanciais. Fil\u00f3sofos pol\u00edticos, frequentemente, lembram que democracias dependem de um m\u00ednimo consenso sobre os fatos b\u00e1sicos da vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Hannah Arendt observou que a destrui\u00e7\u00e3o da verdade factual representa uma das formas mais perigosas de corros\u00e3o da esfera p\u00fablica. Sem fatos reconhecidos coletivamente, debate pol\u00edtico perde seu fundamento racional e passa a operar, exclusivamente, no campo da propaganda e da mobiliza\u00e7\u00e3o emocional. A situa\u00e7\u00e3o brasileira contempor\u00e2nea reflete, em parte, esse processo. A pr\u00f3pria ideia de verdade passa a ser substitu\u00edda por uma disputa permanente de vers\u00f5es.<\/p>\n<p>Retorno \u00e0 antiga intui\u00e7\u00e3o atribu\u00edda a P\u00edndaro oferece uma li\u00e7\u00e3o importante para tempos como os atuais. Se a verdade est\u00e1 espalhada, ela n\u00e3o pode ser monopolizada. Nenhum partido, governo ou institui\u00e7\u00e3o possui autoridade absoluta para defini-la. Ela emerge, gradualmente, do confronto entre evid\u00eancias, argumentos e experi\u00eancias diversas. A crise pol\u00edtica e institucional brasileira n\u00e3o pode ser compreendida apenas como resultado de diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas ou disputas eleitorais. Em grande medida, ela decorre da eros\u00e3o de um princ\u00edpio fundamental da vida republicana: o reconhecimento de que a verdade pertence ao dom\u00ednio comum e deve ser buscada coletivamente.<\/p>\n<p>Resgatar esse princ\u00edpio n\u00e3o significa eliminar diverg\u00eancias pol\u00edticas, algo imposs\u00edvel em qualquer sociedade livre. Significa reconhecer que o debate democr\u00e1tico precisa de um terreno m\u00ednimo compartilhado, onde fatos possam ser discutidos com base em evid\u00eancias e n\u00e3o apenas em convic\u00e7\u00f5es. Nesse ambiente, a verdade deixa de estar espalhada pela realidade e passa a ser substitu\u00edda por vers\u00f5es particulares. Quando isso ocorre, crises institucionais deixam de ser exce\u00e7\u00e3o e passam a se tornar parte permanente da vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>\u201cLealdade ao pa\u00eds, sempre!\u00a0<\/em><em>Lealdade ao governo,\u00a0<\/em><em>quando ele a merecer.\u201d<\/em><br \/>\nMark Twain<\/p>\n<figure id=\"attachment_13994\" aria-describedby=\"caption-attachment-13994\" style=\"width: 521px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-13994\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/05\/WhatsApp-Image-2019-05-03-at-18.22.53-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"521\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/05\/WhatsApp-Image-2019-05-03-at-18.22.53-1.jpeg 1080w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/05\/WhatsApp-Image-2019-05-03-at-18.22.53-1-300x184.jpeg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/05\/WhatsApp-Image-2019-05-03-at-18.22.53-1-768x471.jpeg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/05\/WhatsApp-Image-2019-05-03-at-18.22.53-1-1024x629.jpeg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/05\/WhatsApp-Image-2019-05-03-at-18.22.53-1-350x215.jpeg 350w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/05\/WhatsApp-Image-2019-05-03-at-18.22.53-1-550x338.jpeg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/05\/WhatsApp-Image-2019-05-03-at-18.22.53-1-230x141.jpeg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 521px) 100vw, 521px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13994\" class=\"wp-caption-text\">Mark Twain. Foto: cmgww.com<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nN\u00e3o foi dos melhores, o movimento da Proclama\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. O sr. Garcia, da Cidade Livre, levou claque, e t\u00f4da vez que dizia alguma coisa com mais \u00eanfase, l\u00e1 de traz batiam palmas e diziam muito bem. N\u00e3o era coisa t\u00e3o interessante porque s\u00f3 l\u00e1 atr\u00e1s batiam palmas. <strong>(Publicada em 16\/5\/1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o, a frase: \u201ca verdade est\u00e1 espalhada por a\u00ed\u201d \u00e9 atribu\u00edda ao primeiro poeta grego, P\u00edndaro (518 a.C \u2013 438 a.C), posteriormente replicada pelo fil\u00f3sofo Nietzsche na obra autobiogr\u00e1fica Ecce Homo, de 1888. 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