{"id":27063,"date":"2026-03-25T01:00:02","date_gmt":"2026-03-25T04:00:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27063"},"modified":"2026-03-26T09:01:31","modified_gmt":"2026-03-26T12:01:31","slug":"o-progresso-como-avanco-da-poeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/o-progresso-como-avanco-da-poeira\/","title":{"rendered":"O progresso como avan\u00e7o da poeira"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_27067\" aria-describedby=\"caption-attachment-27067\" style=\"width: 456px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-27067\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/DF.jpg\" alt=\"\" width=\"456\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/DF.jpg 612w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/DF-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/DF-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/DF-550x548.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/03\/DF-230x229.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 456px) 100vw, 456px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-27067\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Joel Rodrigues\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cAo progresso cabe o avan\u00e7o da poeira\u201d, escreveu o satirista austr\u00edaco Karl Kraus. A frase, aparentemente simples, carrega uma cr\u00edtica profunda: nem todo avan\u00e7o t\u00e9cnico ou econ\u00f4mico representa, de fato, um avan\u00e7o humano. Quando o chamado progresso deixa de servir \u00e0 dignidade das pessoas, ele se converte em for\u00e7a bruta, uma m\u00e1quina que constr\u00f3i \u00e0 superf\u00edcie enquanto empurra para debaixo dela tudo aquilo que n\u00e3o quer ou n\u00e3o sabe resolver. Essa contradi\u00e7\u00e3o torna-se vis\u00edvel de forma inc\u00f4moda no Brasil contempor\u00e2neo e, de maneira particularmente simb\u00f3lica, em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Cidade planejada, concebida como express\u00e3o m\u00e1xima da modernidade urban\u00edstica do s\u00e9culo XX, Bras\u00edlia deveria representar ordem, racionalidade e desenvolvimento. No entanto, por baixo de suas vias largas, seus eixos monumentais e sua arquitetura celebrada internacionalmente, cresce uma realidade paralela que desafia qualquer narrativa otimista sobre progresso. Sob viadutos, em \u00e1reas esquecidas e at\u00e9 mesmo em galerias pluviais, comunidades inteiras de pessoas vivem \u00e0 margem daquilo que se convencionou chamar de desenvolvimento. N\u00e3o se trata apenas de indiv\u00edduos isolados, mas de agrupamentos humanos que, privados de acesso \u00e0 moradia digna, trabalho formal e assist\u00eancia cont\u00ednua, acabam criando formas prec\u00e1rias de sobreviv\u00eancia em espa\u00e7os que nunca foram pensados para abrigar vida humana.<\/p>\n<p>Um dos exemplos mais emblem\u00e1ticos dessa situa\u00e7\u00e3o encontra-se na regi\u00e3o do Lago Norte, onde estruturas do complexo vi\u00e1rio da nova Braguetto passaram a servir de abrigo improvisado para uma popula\u00e7\u00e3o invis\u00edvel. Ali, entre concreto, sombra e fluxo constante de ve\u00edculos, forma-se uma esp\u00e9cie de cidade subterr\u00e2nea, distante do olhar cotidiano de quem transita acima.<\/p>\n<p>\u00c9 o retrato literal da poeira de que falava Kraus\u00a0 aquilo que o progresso levanta, mas prefere n\u00e3o enxergar. Fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 exclusivo da capital brasileira. Em Nova Yorque, uma das metr\u00f3poles mais ricas do planeta, comunidades semelhantes se formaram ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas nos subterr\u00e2neos do sistema de transporte da Metropolitan Transportation Authority. Reportagens e estudos acad\u00eamicos documentaram a exist\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es vivendo em t\u00faneis de metr\u00f4, em condi\u00e7\u00f5es extremas, longe da visibilidade p\u00fablica e das pol\u00edticas sociais convencionais.<\/p>\n<p>Compara\u00e7\u00e3o entre essas realidades revela um ponto inquietante: n\u00edveis distintos de riqueza ou desenvolvimento n\u00e3o impedem a forma\u00e7\u00e3o de bols\u00f5es de exclus\u00e3o profunda. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a capacidade econ\u00f4mica de uma sociedade, mas sua disposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e moral de integrar todos os seus membros ao espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n<p>No Brasil, dados recentes do Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA) indicam crescimento significativo da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua nos \u00faltimos anos. Estimativas apontam para centenas de milhares de pessoas vivendo nessas condi\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds. Esse aumento n\u00e3o pode ser explicado apenas por fatores individuais; ele reflete falhas estruturais em pol\u00edticas habitacionais, mercado de trabalho e redes de prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Retomando a provoca\u00e7\u00e3o de Kraus, percebe-se que o progresso material, quando desvinculado da dignidade humana, produz efeitos paradoxais. Grandes obras, expans\u00e3o urbana e crescimento econ\u00f4mico coexistem com a amplia\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o social. O mesmo trator que abre avenidas e ergue edif\u00edcios pode, simbolicamente, empurrar pessoas para as margens invis\u00edveis da cidade. O fil\u00f3sofo Zygmunt Bauman descreveu fen\u00f4meno semelhante ao falar da \u201cmodernidade l\u00edquida\u201d, na qual estruturas sociais se tornam inst\u00e1veis e indiv\u00edduos considerados \u201cexcedentes\u201d acabam sendo descartados pelo sistema. Em sociedades marcadas por efici\u00eancia e produtividade, aqueles que n\u00e3o conseguem se integrar ao ritmo econ\u00f4mico dominante frequentemente s\u00e3o empurrados para fora do campo de vis\u00e3o. Bras\u00edlia, com todo o seu simbolismo pol\u00edtico e arquitet\u00f4nico, torna essa contradi\u00e7\u00e3o ainda mais evidente.<\/p>\n<p>A cidade que abriga os centros de decis\u00e3o do pa\u00eds convive, ao mesmo tempo, com realidades que parecem pertencer a outro mundo. A poucos quil\u00f4metros dos pal\u00e1cios e das institui\u00e7\u00f5es, multiplicam-se sinais de abandono social. Importante ressaltar que a exist\u00eancia dessas comunidades n\u00e3o representa apenas uma quest\u00e3o social, mas tamb\u00e9m um desafio \u00e9tico e pol\u00edtico. Ela questiona diretamente o sentido do desenvolvimento adotado.<\/p>\n<p>Se o progresso n\u00e3o alcan\u00e7a aqueles que mais precisam, ele cumpre plenamente sua fun\u00e7\u00e3o? Ou estaria apenas redistribuindo benef\u00edcios de forma desigual, ampliando dist\u00e2ncias j\u00e1 existentes? Editorialmente, a resposta n\u00e3o pode ser confort\u00e1vel. Ignorar essas realidades significa aceitar uma defini\u00e7\u00e3o de progresso que exclui parte da popula\u00e7\u00e3o. Significa admitir que o avan\u00e7o material pode coexistir com a degrada\u00e7\u00e3o humana sem que isso seja considerado um problema central. A imagem da poeira levantada pelo progresso, evocada por Kraus, ganha assim uma dimens\u00e3o concreta. Reconhecer essa realidade \u00e9 o primeiro passo. Torn\u00e1-la vis\u00edvel \u00e9 o segundo. O terceiro, e mais dif\u00edcil, \u00e9 enfrentar as causas estruturais que produzem esse tipo de exclus\u00e3o. Sem isso, o que continuar\u00e1 avan\u00e7ando n\u00e3o ser\u00e1 apenas o progresso, mas tamb\u00e9m a poeira encobrindo, silenciosamente, aquilo que uma sociedade prefere n\u00e3o ver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cNossas vidas come\u00e7am a terminar no dia em que nos calamos sobre as coisas que importam.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Martin Luther King Jr.<\/p>\n<figure id=\"attachment_13807\" aria-describedby=\"caption-attachment-13807\" style=\"width: 549px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-13807\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/04\/martin_luther.jpg\" alt=\"\" width=\"549\" height=\"330\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/04\/martin_luther.jpg 699w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/04\/martin_luther-300x180.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/04\/martin_luther-350x210.jpg 350w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/04\/martin_luther-550x330.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2019\/04\/martin_luther-230x138.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 549px) 100vw, 549px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-13807\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Martin Luther King, l\u00edder do movimento pelos direitos civis nos EUA e Nobel da Paz | Arquivo (blogs.oglobo.globo.com)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>Pois bem. O mesmo servi\u00e7o de imprensa anunciava que ter\u00e7a-feira o presidente viajaria para Bras\u00edlia. O sr. Jo\u00e3o Goulart, contrariando a previs\u00e3o, chegou segunda-feira. <strong>(Publicada em 16.05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; \u201cAo progresso cabe o avan\u00e7o da poeira\u201d, escreveu o satirista austr\u00edaco Karl Kraus. A frase, aparentemente simples, carrega uma cr\u00edtica profunda: nem todo avan\u00e7o t\u00e9cnico ou econ\u00f4mico representa, de fato, um avan\u00e7o humano. 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