{"id":27119,"date":"2026-04-05T01:00:02","date_gmt":"2026-04-05T04:00:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27119"},"modified":"2026-04-08T12:31:05","modified_gmt":"2026-04-08T15:31:05","slug":"o-peixe-caro-num-pais-de-mar-imenso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/o-peixe-caro-num-pais-de-mar-imenso\/","title":{"rendered":"O peixe caro num pa\u00eds de mar imenso"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_27121\" aria-describedby=\"caption-attachment-27121\" style=\"width: 555px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-27121\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/peixe.jpg\" alt=\"\" width=\"555\" height=\"332\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-27121\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Rafa Neddermeyer\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Extens\u00e3o costeira de mais de 7.400 quil\u00f4metros e uma zona econ\u00f4mica exclusiva que avan\u00e7a por centenas de milhas mar adentro deveriam, em tese, garantir ao Brasil uma abund\u00e2ncia de pescado acess\u00edvel \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. No entanto, a realidade que se imp\u00f5e nos balc\u00f5es de supermercados e peixarias \u00e9 outra: peixe caro, muitas vezes inacess\u00edvel, transformado em item ocasional na mesa de milh\u00f5es de brasileiros. Epis\u00f3dios como o de uma simples posta de pescada amarela, com pouco mais de 100 gramas, sendo vendida por R$ 89, deixam de ser exce\u00e7\u00e3o e passam a simbolizar uma distor\u00e7\u00e3o estrutural. N\u00e3o se trata apenas de um problema pontual de pre\u00e7os, mas de um conjunto de falhas que, somadas, produziram um cen\u00e1rio em que um recurso abundante se torna escasso na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Primeira camada dessa distor\u00e7\u00e3o est\u00e1 na pr\u00f3pria estrutura da cadeia produtiva do pescado. Ao contr\u00e1rio de pa\u00edses que desenvolveram uma ind\u00fastria pesqueira robusta, com log\u00edstica integrada e pol\u00edticas de incentivo claras, o Brasil ainda opera de forma fragmentada. Grande parte da pesca \u00e9 artesanal, com baixa produtividade e limitada capacidade de armazenamento e distribui\u00e7\u00e3o. Essa caracter\u00edstica, por si s\u00f3, n\u00e3o seria um problema se houvesse infraestrutura adequada para escoamento e conserva\u00e7\u00e3o. No entanto, defici\u00eancia cr\u00f4nica em portos pesqueiros, aus\u00eancia de cadeias de frio eficientes e custos elevados de transporte encarecem o produto desde a origem. O peixe, altamente perec\u00edvel, exige rapidez e tecnologia para chegar ao consumidor final com qualidade e cada falha nesse processo se traduz em aumento de pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Outro fator relevante \u00e9 a carga tribut\u00e1ria. Embora alimentos b\u00e1sicos tenham, em alguns casos, regimes diferenciados, o sistema tribut\u00e1rio brasileiro permanece complexo e oneroso. Custos indiretos acumulam-se ao longo da cadeia, desde o combust\u00edvel utilizado nas embarca\u00e7\u00f5es at\u00e9 a energia necess\u00e1ria para conserva\u00e7\u00e3o e transporte. No final, o consumidor paga a conta. Tamb\u00e9m pesa a burocracia regulat\u00f3ria. Licen\u00e7as ambientais, autoriza\u00e7\u00f5es de pesca e regras muitas vezes inconsistentes ou sobrepostas criam um ambiente de inseguran\u00e7a para o setor. Evidentemente, a preserva\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 essencial, mas a aus\u00eancia de pol\u00edticas equilibradas, que conciliem sustentabilidade com produ\u00e7\u00e3o, acaba desestimulando investimentos e reduzindo a oferta.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o pa\u00eds assiste ao crescimento da importa\u00e7\u00e3o de pescado. Em vez de abastecer o mercado interno com sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o, o Brasil recorre a fornecedores externos para suprir parte da demanda. Esse fen\u00f4meno revela uma contradi\u00e7\u00e3o evidente: um pa\u00eds com vasto litoral que n\u00e3o consegue transformar seu potencial em oferta acess\u00edvel. H\u00e1 ainda o problema da concentra\u00e7\u00e3o na distribui\u00e7\u00e3o. Grandes redes varejistas, com poder significativo de negocia\u00e7\u00e3o, acabam influenciando pre\u00e7os e margens. Em muitos casos, o pequeno produtor ou pescador recebe valores reduzidos por sua produ\u00e7\u00e3o, enquanto o consumidor final paga pre\u00e7os elevados. A diferen\u00e7a entre esses dois extremos evidencia distor\u00e7\u00f5es no funcionamento do mercado.<\/p>\n<p>Ao longo do tempo, o consumo de pescado no Brasil permaneceu relativamente baixo em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses costeiros. Essa menor demanda hist\u00f3rica contribuiu para a falta de investimentos estruturais no setor, criando um ciclo em que baixa oferta e alto pre\u00e7o se retroalimentam. N\u00e3o se pode ignorar, ainda, o impacto do custo do combust\u00edvel. A atividade pesqueira depende diretamente de embarca\u00e7\u00f5es, e o pre\u00e7o do diesel influencia de forma decisiva o custo final do produto. Oscila\u00e7\u00f5es nesse insumo afetam toda a cadeia, pressionando ainda mais os pre\u00e7os. Especialistas em economia do setor apontam que pa\u00edses que conseguiram democratizar o acesso ao pescado investiram em tr\u00eas pilares: infraestrutura, pol\u00edtica p\u00fablica consistente e integra\u00e7\u00e3o de mercado. Sem esses elementos, a abund\u00e2ncia natural n\u00e3o se traduz automaticamente em acessibilidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>No caso brasileiro, aus\u00eancia de uma estrat\u00e9gia nacional clara para o setor pesqueiro contribuiu para o cen\u00e1rio atual. Pol\u00edticas p\u00fablicas, quando existem, tendem a ser fragmentadas, descontinuadas ou insuficientes para enfrentar desafios estruturais. Resultado \u00e9 um paradoxo dif\u00edcil de ignorar. Em um pa\u00eds com vastos recursos naturais, o peixe torna-se artigo caro. Em um territ\u00f3rio cercado por \u00e1gua, o acesso ao alimento que dela prov\u00e9m \u00e9 limitado. E, em uma economia que busca crescimento, um setor com enorme potencial permanece subexplorado.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso organiza\u00e7\u00e3o, investimento e pol\u00edticas eficazes para que essa riqueza se converta em benef\u00edcio real para a popula\u00e7\u00e3o. Enquanto essas quest\u00f5es estruturais n\u00e3o forem enfrentadas, cenas como a de um consumidor diante de um balc\u00e3o, surpreso com o pre\u00e7o de um alimento que deveria ser comum, continuar\u00e3o a se repetir. E o mar, imenso e generoso, seguir\u00e1 distante da mesa da maioria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>\u201cSe Deus quiser quando eu voltar do mar\/ Um peixe bom eu vou trazer.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Su\u00edte do Pescador &#8211; Dorival Caymmi<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Su\u00edte do Pescador - Dorival Caymmi\" width=\"720\" height=\"405\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_HYi_AIP1n4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nO ministro da Fazenda, que estava com viagem marcada para Bras\u00edlia hoje \u00e0 tarde, chegar\u00e1 cedo, para organizar um esquema de pagamentos e libera\u00e7\u00e3o de verbas. <strong>(Publicada em 17. 05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; Extens\u00e3o costeira de mais de 7.400 quil\u00f4metros e uma zona econ\u00f4mica exclusiva que avan\u00e7a por centenas de milhas mar adentro deveriam, em tese, garantir ao Brasil uma abund\u00e2ncia de pescado acess\u00edvel \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. 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