{"id":27193,"date":"2026-04-19T01:00:59","date_gmt":"2026-04-19T04:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27193"},"modified":"2026-04-24T17:11:09","modified_gmt":"2026-04-24T20:11:09","slug":"quem-compra-sabe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/quem-compra-sabe\/","title":{"rendered":"Quem compra, sabe"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_27195\" aria-describedby=\"caption-attachment-27195\" style=\"width: 610px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-27195\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/alimento.jpg\" alt=\"\" width=\"610\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/alimento.jpg 666w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/alimento-300x167.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/alimento-550x306.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/alimento-230x128.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-27195\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ilustra\u00e7\u00e3o: Vandr\u00e9 Kramer\/Gazeta do Povo com DALL-E<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Num pa\u00eds em que a economia se apresenta frequentemente como um exerc\u00edcio de abstra\u00e7\u00e3o, mediado por gr\u00e1ficos, relat\u00f3rios e proje\u00e7\u00f5es, talvez fosse o caso de deslocar o eixo da an\u00e1lise para um territ\u00f3rio menos te\u00f3rico e mais concreto, ainda que menos prestigiado: o cotidiano das donas de casa e dos respons\u00e1veis pela administra\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica. Afinal, poucos observadores acompanham com tamanha precis\u00e3o a varia\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos alimentos quanto aqueles que, diariamente, percorrem corredores de supermercados e feiras livres em busca de equil\u00edbrio entre renda limitada e necessidades inadi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Essa observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, constru\u00edda \u00e0 margem das f\u00f3rmulas tradicionais, revela uma din\u00e2mica que nem sempre coincide com os indicadores oficiais. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica, a infla\u00e7\u00e3o acumulada dos alimentos no domic\u00edlio apresenta varia\u00e7\u00f5es que, embora relevantes, parecem insuficientes para traduzir a percep\u00e7\u00e3o social de encarecimento cont\u00ednuo. J\u00e1 entidades do setor, como a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Supermercados, apontam aumentos significativamente mais expressivos em itens essenciais: o caf\u00e9 torrado com eleva\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima de 40% em per\u00edodos recentes, o \u00f3leo de soja acumulando reajustes em torno de 30%, a carne bovina variando em patamares semelhantes e o leite longa vida registrando altas pr\u00f3ximas de 20%. S\u00e3o n\u00fameros que, isoladamente, poderiam ser relativizados, mas que, em conjunto, comp\u00f5em um quadro inequ\u00edvoco de press\u00e3o sobre o consumo b\u00e1sico.<\/p>\n<p>O impacto desses aumentos torna-se ainda mais evidente quando se observa o comportamento da cesta b\u00e1sica nas capitais brasileiras. Levantamentos do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos indicam que, em 16 das 17 capitais analisadas, houve eleva\u00e7\u00e3o no custo m\u00e9dio dos itens essenciais ao longo do \u00faltimo per\u00edodo, com varia\u00e7\u00f5es que, em alguns casos, ultrapassam dois d\u00edgitos anuais. Esse movimento n\u00e3o apenas reduz o poder de compra, mas altera qualitativamente o padr\u00e3o alimentar, induzindo substitui\u00e7\u00f5es, simplifica\u00e7\u00f5es e, em situa\u00e7\u00f5es mais cr\u00edticas, restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A eros\u00e3o do poder aquisitivo n\u00e3o \u00e9 fen\u00f4meno recente. Desde a introdu\u00e7\u00e3o do real, em 1994, estima-se que a moeda brasileira tenha perdido parcela significativa de seu poder de compra ao longo das d\u00e9cadas, ainda que estabiliza\u00e7\u00f5es pontuais tenham ocorrido. Mais relevante, contudo, \u00e9 a defasagem entre o sal\u00e1rio m\u00ednimo vigente e o chamado sal\u00e1rio m\u00ednimo necess\u00e1rio, calculado pelo DIEESE. Dados recentes apontam que, para sustentar uma fam\u00edlia de quatro pessoas com dignidade, seria necess\u00e1rio um rendimento superior a cinco vezes o sal\u00e1rio m\u00ednimo oficial, superando a marca de sete mil reais mensais. Essa discrep\u00e2ncia n\u00e3o se manifesta apenas em estat\u00edsticas, mas no cotidiano de milh\u00f5es de trabalhadores que destinam parcela crescente de sua renda \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, estimativas indicam que o brasileiro m\u00e9dio pode comprometer mais de 50% de seus rendimentos apenas com despesas alimentares b\u00e1sicas, sendo necess\u00e1rio, em alguns casos, mais de 100 horas de trabalho mensal para adquirir uma cesta b\u00e1sica. Trata-se de um indicador silencioso, mas eloquente, da deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es materiais de vida, sobretudo entre as camadas mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, multiplicam-se estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o que escapam \u00e0s medi\u00e7\u00f5es convencionais. A procura por produtos em \u201cxepa\u201d, o consumo de itens pr\u00f3ximos ao vencimento, a redu\u00e7\u00e3o do tamanho das embalagens \u2014 pr\u00e1tica conhecida como \u201cshrinkflation\u201d \u2014 e a fragmenta\u00e7\u00e3o de produtos tradicionalmente vendidos em cortes maiores tornam-se mecanismos cotidianos de sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica. S\u00e3o ajustes discretos, mas reveladores de uma economia que se reorganiza n\u00e3o pela expans\u00e3o da renda, mas pela compress\u00e3o do consumo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, nesse aspecto, oferece paralelos inquietantes. Ao longo dos s\u00e9culos, movimentos sociais e rupturas institucionais raramente foram impulsionados por formula\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas complexas, mas sim por fatores elementares relacionados \u00e0 subsist\u00eancia. O aumento no pre\u00e7o dos alimentos, a escassez e a percep\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a distributiva figuram entre os gatilhos mais recorrentes de instabilidade. A fome, ou mesmo a sua imin\u00eancia, permanece como um dos mais potentes agentes de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Nesse contexto, a experi\u00eancia das donas de casa \u2014 frequentemente relegada ao plano dom\u00e9stico e invis\u00edvel \u2014 adquire dimens\u00e3o anal\u00edtica. N\u00e3o se trata apenas de percep\u00e7\u00e3o subjetiva, mas de leitura cont\u00ednua de um sistema que se expressa, de forma mais transparente, nas prateleiras do que nos relat\u00f3rios. A economia, nesse n\u00edvel, deixa de ser abstra\u00e7\u00e3o para se tornar pr\u00e1tica cotidiana, marcada por escolhas dif\u00edceis e ren\u00fancias silenciosas.<\/p>\n<p>Talvez resida a\u00ed uma das principais contradi\u00e7\u00f5es do debate contempor\u00e2neo: enquanto a linguagem econ\u00f4mica se sofistica, incorporando modelos e m\u00e9tricas cada vez mais complexos, a realidade que pretende explicar se imp\u00f5e de maneira direta, quase rudimentar. Entre n\u00fameros oficiais e pre\u00e7os efetivos, entre proje\u00e7\u00f5es e experi\u00eancia concreta, estabelece-se uma dist\u00e2ncia que n\u00e3o pode ser ignorada sem custo.<\/p>\n<p>Perguntar \u00e0s donas de casa, portanto, n\u00e3o \u00e9 um gesto de simplifica\u00e7\u00e3o, mas de reconhecimento. \u00c9 admitir que, antes de qualquer teoria, existe uma pr\u00e1tica que resiste, observa e traduz, diariamente, os movimentos de uma economia que, para muitos, j\u00e1 deixou de ser promessa para se tornar obst\u00e1culo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n\u201cA infla\u00e7\u00e3o \u00e9 a maior inimiga de todas as pessoas e das nossas esperan\u00e7as de crescimento econ\u00f4mico. Ela est\u00e1 na raiz dos problemas.\u201d<\/p>\n<p>Ronald Reagan<\/p>\n<figure id=\"attachment_21238\" aria-describedby=\"caption-attachment-21238\" style=\"width: 372px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-21238\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/06\/ronald.jpg\" alt=\"\" width=\"372\" height=\"463\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/06\/ronald.jpg 497w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/06\/ronald-241x300.jpg 241w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2022\/06\/ronald-230x286.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 372px) 100vw, 372px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-21238\" class=\"wp-caption-text\">Ronald Reagan. Retrato Oficial<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nPara uma situa\u00e7\u00e3o como esta, \u00e9 necess\u00e1rio que uma repres\u00e1lia forte d\u00ea um ensinamento aos desonestos, reprimindo os abusos para sempre, de uma vez. <strong>(Publicada em 17. 05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; Num pa\u00eds em que a economia se apresenta frequentemente como um exerc\u00edcio de abstra\u00e7\u00e3o, mediado por gr\u00e1ficos, relat\u00f3rios e proje\u00e7\u00f5es, talvez fosse o caso de deslocar o eixo da an\u00e1lise para um territ\u00f3rio menos te\u00f3rico e mais concreto, ainda que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":27195,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[2337,2338,2339,114,962,2340,3850],"class_list":["post-27193","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-integra","tag-aricunha-2","tag-brasilia-2","tag-circecunha-2","tag-historiadebrasilia","tag-inflacao","tag-mamfil-2","tag-precodosalimentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27193"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27193\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27197,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27193\/revisions\/27197"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media\/27195"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}