{"id":27205,"date":"2026-04-23T01:00:04","date_gmt":"2026-04-23T04:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27205"},"modified":"2026-04-24T18:34:59","modified_gmt":"2026-04-24T21:34:59","slug":"a-trilha-sonora-de-um-sonho-na-construcao-de-brasilia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/a-trilha-sonora-de-um-sonho-na-construcao-de-brasilia\/","title":{"rendered":"A trilha sonora de um sonho na constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18070\" aria-describedby=\"caption-attachment-18070\" style=\"width: 397px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18070\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/11\/lucio.jpg\" alt=\"\" width=\"397\" height=\"398\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/11\/lucio.jpg 397w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/11\/lucio-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/11\/lucio-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2020\/11\/lucio-230x231.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 397px) 100vw, 397px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-18070\" class=\"wp-caption-text\">L\u00facio Costa e presidente JK. Foto: arquivo.arq<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1960, o Brasil assistia a um de seus maiores atos de ousadia hist\u00f3rica: erguer, no cora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, uma capital inteira praticamente do nada. Bras\u00edlia surgia sob o signo do concreto, da poeira vermelha e da esperan\u00e7a. Mas n\u00e3o foi apenas o tra\u00e7o de Lucio Costa ou a genialidade de Oscar Niemeyer que deram forma \u00e0 nova capital. Havia algo invis\u00edvel, mas profundamente presente, que preenchia os vazios do Planalto Central: a m\u00fasica. Enquanto caminh\u00f5es levantavam nuvens de terra e os candangos enfrentavam jornadas duras sob o sol do Cerrado, r\u00e1dios chiavam em barracos improvisados, transmitindo aquilo que, mais do que entretenimento, era consolo, identidade e sonho. A capital nascia do barro, mas tamb\u00e9m nascia do som. O r\u00e1dio era o cora\u00e7\u00e3o pulsante de um pa\u00eds que buscava seu rumo com a constru\u00e7\u00e3o de uma nova capital.<\/p>\n<p>Antes da televis\u00e3o dominar os lares, o r\u00e1dio era soberano. Em 1960, ele n\u00e3o era apenas um meio de comunica\u00e7\u00e3o: era companhia, palco e ponte cultural. Programas de audit\u00f3rio, radionovelas, not\u00edcias e, sobretudo, m\u00fasica, faziam das ondas do r\u00e1dio uma esp\u00e9cie de cimento simb\u00f3lico que unia o pa\u00eds, inclusive aquela nova cidade que ainda nem tinha identidade pr\u00f3pria. As listas das m\u00fasicas mais toca das naquele ano revelam um Brasil musicalmente plural. Entre os grandes sucessos, estavam can\u00e7\u00f5es como Banho de lua, de Celly Campello; A noite do meu bem, de Dolores Duran; e Menina mo\u00e7a, de Tito Madi, ao lado de hits internacionais como Put your head on my shoulder, de Paul Anka; e It\u2019s now or never, de Elvis Presley, al\u00e9m de Maysa, Elizeth Cardoso, \u00c2ngela Maria, Cauby Peixoto e por a\u00ed ia.<\/p>\n<p>Essa mistura de influ\u00eancias n\u00e3o era casual, era o retrato de um pa\u00eds aberto ao mundo, mas ainda profundamente ligado \u00e0 pr\u00f3pria sensibilidade rom\u00e2ntica, melanc\u00f3lica e popular. Em Bras\u00edlia, onde tudo era provis\u00f3rio, o r\u00e1dio era permanente. Figuras pioneiras da comunica\u00e7\u00e3o local, como Galebi Balfaker e outros radialistas que ajudaram a dar voz \u00e0 nova capital, transformaram o sil\u00eancio do Cerrado em um espa\u00e7o sonoro vibrante. Eles n\u00e3o apenas transmitiam m\u00fasica, ajudavam a criar uma cultura urbana onde antes havia apenas canteiros de obras.<\/p>\n<p>A vida dos candangos era \u00e1rdua. Vindos de todas as regi\u00f5es do Brasil, especialmente do Nordeste, carregavam consigo n\u00e3o s\u00f3 ferramentas, mas tamb\u00e9m suas refer\u00eancias culturais. Nesse contexto, a m\u00fasica funcionava como ref\u00fagio emocional. Luiz Gonzaga, com seu bai\u00e3o, levava o Nordeste para o Planalto Central. Seus acordes de sanfona ecoavam como mem\u00f3ria viva de uma terra deixada para tr\u00e1s, amenizando a saudade e refor\u00e7ando a identidade daqueles trabalhadores. Ao mesmo tempo, boleros interpretados por nomes como Nelson Gon\u00e7alves embalavam noites solit\u00e1rias, enquanto o Trio Irakitan trazia harmonias que misturavam romantismo e sofistica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um per\u00edodo de efervesc\u00eancia musical sem precedentes. No Brasil, nascia a MPB como conceito, enquanto a bossa nova ganhava o mundo com sua batida suave e sofisticada. Poucos anos depois, surgiria a Jovem Guarda, liderada por Roberto Carlos, que aparecia nas paradas de 1960 com \u201cBrotinho sem ju\u00edzo\u201d. Paralelamente, o mundo vivia a explos\u00e3o do rock internacional. Elvis Presley era um fen\u00f4meno global e, em breve, os Beatles inaugurariam o movimento que ficaria conhecido como i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea, influenciando profundamente a juventude brasileira. Essa conviv\u00eancia de estilos criava uma paisagem sonora rica e diversa. Era como se Bras\u00edlia, ainda em constru\u00e7\u00e3o, estivesse sendo em balada por uma trilha sonora igualmente em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia n\u00e3o foi apenas um projeto urban\u00edstico. Foi, acima de tudo, um projeto simb\u00f3lico: a ideia de um Brasil moderno, integrado e voltado para o futuro. E toda grande narrativa precisa de uma trilha sonora. As m\u00fasicas que tocavam nas r\u00e1dios naquele per\u00edodo ajudaram a moldar o imagin\u00e1rio coletivo. Elas davam ritmo ao trabalho, preenchiam o sil\u00eancio das noites e alimentavam a esperan\u00e7a de que aquele esfor\u00e7o gigantesco resultaria em algo duradouro. Entre um turno e outro, entre um barraco e outro, entre o concreto fresco e o horizonte infinito, havia sempre uma can\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes rom\u00e2ntica, \u00e0s vezes dan\u00e7ante, \u00e0s vezes nost\u00e1lgica, mas sempre presente. Era sem d\u00favida um tempo de esperan\u00e7a e muita cria\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas art\u00edsticas. O Brasil de 1960 vivia um raro momento de otimismo.<\/p>\n<p>Construir Bras\u00edlia simbolizava a capacidade de realiza\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds que acreditava em si mesmo. E a m\u00fasica refletia exatamente isso: criatividade, diversidade e vitalidade. Hoje, ao olhar para a cidade consolidada, com suas avenidas largas e monumentos imponentes, \u00e9 f\u00e1cil esquecer que tudo come\u00e7ou com improviso, esfor\u00e7o e sonho. Mas h\u00e1 algo que permanece intocado, inclusive a mem\u00f3ria afetiva daquele tempo. A mem\u00f3ria tem som, cheiro e gosto. O som das r\u00e1dios chiando ao fundo. O som de um bolero atravessando a noite. O som de um bai\u00e3o trazendo saudade da terra natal, o som de um pa\u00eds que, entre dificuldades e esperan\u00e7as, ousou reinventar-se. Bras\u00edlia foi erguida com um misto de concreto e de m\u00fasica. E, talvez, seja essa trilha invis\u00edvel feita de vozes, acordes e emo\u00e7\u00f5es que melhor explica a grandeza daquele momento hist\u00f3rico que ficou perdido na poeira do tempo h\u00e1 66 anos no passado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>&#8220;Ao voltar a Bras\u00edlia e v\u00ea-la constru\u00edda,\u00a0<\/em><em>com tanta vida, gostaria de lembr\u00e1-lo\u00a0<\/em><em>que o Brasil n\u00e3o tem voca\u00e7\u00e3o para\u00a0<\/em><em>mediocridade\u2026\u201d<\/em><br \/>\nLucio Costa<\/p>\n<figure id=\"attachment_11815\" aria-describedby=\"caption-attachment-11815\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-11815\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/08\/LucioOscar.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"305\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/08\/LucioOscar.jpg 400w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/08\/LucioOscar-300x229.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/08\/LucioOscar-350x267.jpg 350w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2018\/08\/LucioOscar-230x175.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-11815\" class=\"wp-caption-text\">Sob a batuta de L\u00facio Costa, Oscar se diverte grafite e aquarela, 29x21cm, 2010 (evblogaleria.blogspot.com)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nEst\u00e1 marcado para amanh\u00e3 o julgamento mais sensacional do Tribunal do J\u00fari de Bras\u00edlia. Ser\u00e1 julgado o delegado Jo\u00e3o Pelles.\u00a0<strong>(Publicada em 17\/5\/1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; Em 1960, o Brasil assistia a um de seus maiores atos de ousadia hist\u00f3rica: erguer, no cora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, uma capital inteira praticamente do nada. Bras\u00edlia surgia sob o signo do concreto, da poeira vermelha e da esperan\u00e7a. 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