{"id":27237,"date":"2026-04-30T01:00:21","date_gmt":"2026-04-30T04:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=27237"},"modified":"2026-04-30T10:24:42","modified_gmt":"2026-04-30T13:24:42","slug":"industria-em-queda-o-retrato-de-um-pais-que-perde-tracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/industria-em-queda-o-retrato-de-um-pais-que-perde-tracao\/","title":{"rendered":"Ind\u00fastria em queda: o retrato de um pa\u00eds que perde tra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade<\/p>\n<p><a href=\"mailto:jornalistacircecunha@gmail.com\">jornalistacircecunha@gmail.com<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/vistolidoeouvido?mibextid=ZbWKwL\">facebook.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/instagram.com\/vistolidoeouvido?igshid=YTQwZjQ0NmI0OA==\">instagram.com\/vistolidoeouvido<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_27241\" aria-describedby=\"caption-attachment-27241\" style=\"width: 543px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-27241\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/ind.jpg\" alt=\"\" width=\"543\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/ind.jpg 1182w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/ind-300x181.jpg 300w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/ind-768x463.jpg 768w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/ind-1024x618.jpg 1024w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/ind-800x483.jpg 800w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/ind-550x332.jpg 550w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/ind-230x139.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 543px) 100vw, 543px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-27241\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Reuters\/Paulo Whitaker<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">N\u00fameros recentes do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, IEDI, com base em dados da UNIDO, trazem um diagn\u00f3stico inc\u00f4modo, embora j\u00e1 n\u00e3o propriamente surpreendente, o Brasil est\u00e1 perdendo relev\u00e2ncia industrial em ritmo acelerado. Em um mundo no qual a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o permanece como eixo estruturante da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, da produtividade e da gera\u00e7\u00e3o de empregos de maior qualifica\u00e7\u00e3o, o pa\u00eds parece avan\u00e7ar na contram\u00e3o, como se observasse, \u00e0 dist\u00e2ncia, uma corrida da qual j\u00e1 participou com mais vigor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">A retra\u00e7\u00e3o de 1,8% na produ\u00e7\u00e3o industrial brasileira em 2025 n\u00e3o \u00e9 apenas um dado conjuntural, desses que se diluem com o tempo e desaparecem das an\u00e1lises mais rigorosas, mas um sintoma de um problema mais profundo, persistente e, sobretudo, cumulativo: a falta de dinamismo. A trajet\u00f3ria recente evidencia uma perda cont\u00ednua de posi\u00e7\u00e3o relativa no cen\u00e1rio global, algo que n\u00e3o se constr\u00f3i de um ano para outro, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o se explica apenas pelo peso do passado. No ranking global de dinamismo industrial elaborado pelo IEDI, o Brasil aparece na 72\u00aa coloca\u00e7\u00e3o entre 83 pa\u00edses no quarto trimestre de 2025, um resultado que o coloca atr\u00e1s de praticamente todos os polos industriais relevantes. Mais eloquente do que a posi\u00e7\u00e3o em si \u00e9 o movimento: uma queda sequencial que inclui o recuo expressivo de 44 posi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo do ano anterior, um deslocamento que, por sua magnitude, dispensa e, ao mesmo tempo, exige explica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Esse tipo de deteriora\u00e7\u00e3o raramente decorre de um \u00fanico fator. Ele \u00e9, em geral, a express\u00e3o vis\u00edvel de engrenagens que deixam de funcionar de forma coordenada. Custos elevados, inseguran\u00e7a jur\u00eddica, complexidade tribut\u00e1ria e infraestrutura deficiente continuam a compor o conhecido mosaico de entraves \u00e0 competitividade, mas o que chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a persist\u00eancia desses elementos, mesmo diante de sucessivos diagn\u00f3sticos. Como observou recentemente o economista-chefe do Instituto Brasileiro de Economia da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas, \u201co Brasil n\u00e3o enfrenta um problema de falta de diagn\u00f3stico, mas de dificuldade em transformar diagn\u00f3stico em a\u00e7\u00e3o consistente\u201d, uma constata\u00e7\u00e3o que, embora recorrente, parece resistir ao desgaste do tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">No plano internacional, o cen\u00e1rio tampouco oferece conforto. Ao contr\u00e1rio, tornou-se mais competitivo e mais estrat\u00e9gico. Pa\u00edses centrais passaram a adotar pol\u00edticas industriais ativas, muitas vezes combinando subs\u00eddios diretos, incentivos fiscais e investimentos robustos em inova\u00e7\u00e3o e transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Os Estados Unidos, por meio do Inflation Reduction Act, mobilizaram centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares em apoio \u00e0 ind\u00fastria verde, enquanto a Uni\u00e3o Europeia avan\u00e7ou com seu plano de reindustrializa\u00e7\u00e3o focado em autonomia estrat\u00e9gica. N\u00e3o se trata apenas de proteger mercados internos, mas de reposicionar cadeias produtivas inteiras. Nesse contexto, a aus\u00eancia de resposta coordenada n\u00e3o \u00e9 neutra, ela implica perda de espa\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O problema brasileiro, como frequentemente apontam relat\u00f3rios do Banco Mundial e da OCDE, reside menos na falta de iniciativas pontuais e mais na fragmenta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas. Programas s\u00e3o anunciados com frequ\u00eancia, mas carecem de continuidade, integra\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o de impacto. A instabilidade regulat\u00f3ria e a imprevisibilidade das regras acabam por elevar o custo de investimento, especialmente em setores intensivos em capital e tecnologia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Outro ponto cr\u00edtico, talvez o mais silencioso e ao mesmo tempo o mais determinante, \u00e9 a produtividade. Dados recentes do IBGE indicam que o crescimento econ\u00f4mico observado em 2025, da ordem de 2,3%, n\u00e3o foi acompanhado por ganhos robustos de efici\u00eancia, o que refor\u00e7a a percep\u00e7\u00e3o de que o pa\u00eds cresce sem transformar estruturalmente sua base produtiva. Como sintetizou um relat\u00f3rio do IPEA, \u201csem avan\u00e7os consistentes de produtividade, o crescimento tende a ser limitado e vulner\u00e1vel a choques externos\u201d, uma advert\u00eancia que se projeta para al\u00e9m do curto prazo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Essa limita\u00e7\u00e3o se manifesta de forma concreta: produtos importados tornam-se progressivamente mais competitivos no mercado interno, enquanto as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras enfrentam dificuldades crescentes para se inserir em cadeias globais de valor, especialmente aquelas mais intensivas em tecnologia. O resultado \u00e9 um processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se anuncia de forma abrupta, mas que se consolida lentamente, quase de maneira silenciosa, at\u00e9 se tornar evidente demais para ser ignorado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Evidentemente, o impacto desse quadro ultrapassa os limites das f\u00e1bricas. A ind\u00fastria possui um conhecido efeito multiplicador sobre a economia, ela articula cadeias produtivas, estimula inova\u00e7\u00e3o e sustenta empregos de maior qualifica\u00e7\u00e3o e renda. Quando esse setor perde dinamismo, o efeito se difunde, menor crescimento, redu\u00e7\u00e3o de oportunidades e aumento da vulnerabilidade externa. Como j\u00e1 afirmou a pr\u00f3pria Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria, \u201cn\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento sustent\u00e1vel sem uma base industrial s\u00f3lida\u201d, uma frase que, \u00e0 primeira vista, pode soar como um lugar-comum, mas que encontra respaldo consistente na experi\u00eancia internacional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">O debate sobre as causas, inevitavelmente, transita pelo terreno das escolhas de pol\u00edtica econ\u00f4mica. H\u00e1 leituras distintas, por vezes conflitantes, sobre prioridades e estrat\u00e9gias. No entanto, independentemente da perspectiva adotada, h\u00e1 um ponto de converg\u00eancia dif\u00edcil de contornar, resultados importam, e os resultados, at\u00e9 aqui, t\u00eam sido insuficientes para reverter a tend\u00eancia de perda de relev\u00e2ncia industrial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Isso n\u00e3o significa, contudo, que o cen\u00e1rio esteja dado de forma irrevers\u00edvel. Experi\u00eancias internacionais mostram que processos de reindustrializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis quando h\u00e1 consist\u00eancia de pol\u00edticas, estabilidade institucional e foco claro em competitividade. Mas essas experi\u00eancias tamb\u00e9m indicam que o primeiro passo \u00e9 reconhecer o problema sem ambiguidade, o segundo \u00e9 transform\u00e1-lo em prioridade pol\u00edtica efetiva. A competi\u00e7\u00e3o global por produ\u00e7\u00e3o, tecnologia e investimento tornou-se mais intensa e mais seletiva. Pa\u00edses que hesitam, que fragmentam suas estrat\u00e9gias ou que postergam reformas estruturais acabam ficando para tr\u00e1s, e recuperar terreno, uma vez perdido, tende a ser um exerc\u00edcio mais custoso e mais demorado. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000\">Recolocar a ind\u00fastria no centro da estrat\u00e9gia de desenvolvimento implica em avan\u00e7ar na simplifica\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria de forma efetiva, melhorar o ambiente de neg\u00f3cios, investir em infraestrutura, qualificar a m\u00e3o de obra e estimular a inova\u00e7\u00e3o de maneira integrada. Sem esses elementos, o pa\u00eds continuar\u00e1 assistindo, quase sempre com perplexidade tardia, \u00e0 eros\u00e3o de sua base produtiva. A d\u00e9cada que se desenha ainda est\u00e1 em aberto, mas os sinais j\u00e1 s\u00e3o suficientemente claros para indicar os riscos de repeti\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es conhecidos, crescimento baixo, produtividade estagnada e perda de protagonismo. Trata-se, como quase sempre, de escolhas, e das consequ\u00eancias que inevitavelmente decorrem delas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A frase que foi pronunciada:<\/strong><br \/>\n<em>&#8220;Por meio de um processo cont\u00ednuo de infla\u00e7\u00e3o, o governo pode confiscar, secretamente e sem ser notado, uma parte importante da riqueza de seus cidad\u00e3os.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>John Maynard Keynes<\/p>\n<figure id=\"attachment_27243\" aria-describedby=\"caption-attachment-27243\" style=\"width: 384px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-27243\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/john.jpg\" alt=\"\" width=\"384\" height=\"521\" srcset=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/john.jpg 527w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/john-221x300.jpg 221w, https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/wp-content\/uploads\/sites\/13\/2026\/04\/john-230x312.jpg 230w\" sizes=\"auto, (max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-27243\" class=\"wp-caption-text\">John Maynard Keynes por volta de 1938.<br \/>Gordon Anthony (Getty Images)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria de Bras\u00edlia<\/strong><br \/>\nSe os cariocas soubessem disto, viriam fazer compra em Bras\u00edlia. O feij\u00e3o aqui custa 75 cruzeiros, o arroz 35 e o filet mignon (que existe) est\u00e1 sendo vendido a 140 cruzeiros. <strong>(Publicada em 17. 05.1962)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, com Circe Cunha e Mamfil \u2013 Manoel de Andrade jornalistacircecunha@gmail.com facebook.com\/vistolidoeouvido instagram.com\/vistolidoeouvido &nbsp; &nbsp; N\u00fameros recentes do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, IEDI, com base em dados da UNIDO, trazem um diagn\u00f3stico inc\u00f4modo, embora j\u00e1 n\u00e3o propriamente surpreendente, o Brasil est\u00e1 perdendo relev\u00e2ncia industrial em ritmo acelerado. 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