{"id":309,"date":"2015-09-27T01:40:00","date_gmt":"2015-09-27T01:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/visto_lido_e_ouvido-21-2\/"},"modified":"2015-11-18T15:40:21","modified_gmt":"2015-11-18T17:40:21","slug":"visto_lido_e_ouvido-21-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/visto_lido_e_ouvido-21-2\/","title":{"rendered":"VISTO, LIDO E OUVIDO"},"content":{"rendered":"<p>circecunha@gmail.com; arigcunha@ig.com.br&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br style=\"padding: 0px;margin: 0px;border: 0px currentcolor\"><br \/>Colabora\u00e7\u00e3o Mamfil&nbsp;&nbsp;   <\/p>\n<div>\n<\/div>\n<div>\n<p><strong>O cerrado j\u00e1 est\u00e1 extinto  <\/p>\n<p><\/strong> <\/p>\n<p>Destru\u00eddo  impiedosamente a partir dos anos 1960,&nbsp; primeiro para a instala\u00e7\u00e3o da  nova capital e, em seguida, para a expans\u00e3o das fronteiras agr\u00edcolas com  base na explora\u00e7\u00e3o intensiva das monoculturas, o cerrado, como bioma,  j\u00e1 n\u00e3o existe na pr\u00e1tica. <\/p>\n<p>Os impactos sobre o desaparecimento  desse ecossistema j\u00e1 s\u00e3o sentidos na sua inteireza, sobretudo na  diminui\u00e7\u00e3o e no desaparecimento de importantes reservat\u00f3rios de \u00e1gua  respons\u00e1veis pelo abastecimento de regi\u00f5es. O agroneg\u00f3cio tamb\u00e9m tem  seus dias contados. A derrubada sistem\u00e1tica de milh\u00f5es de hectares de  matas nativas para o cultivo de monoculturas e o uso intensivo de  pesticidas j\u00e1 provocaram, na parte central do Brasil, altera\u00e7\u00f5es  profundas e irrevers\u00edveis, de modo que as repercuss\u00f5es vir\u00e3o num  crescendo dif\u00edcil de prever. <\/p>\n<p>Ao lado das monoculturas de gr\u00e3os,  plantadas em grandes latif\u00fandios, o cerrado sofreu ainda com a  introdu\u00e7\u00e3o de outras culturas, como o eucalipto e a cana-de-a\u00e7\u00facar,  impulsionada pela campanha dos combust\u00edveis verdes. A expans\u00e3o dessas  culturas empurrou o gado para outras terras, acelerando a degrada\u00e7\u00e3o  ambiental a um tal ponto que hoje se torna quase imposs\u00edvel medir, com  precis\u00e3o, os ganhos reais que essa atividade trouxe vis-\u00e0-vis dos  estragos perenes que deixaram para tr\u00e1s. O fato \u00e9 que o festejado  agroneg\u00f3cio, respons\u00e1vel por saldos favor\u00e1veis na balan\u00e7a comercial, tem  deixado um rastro de destrui\u00e7\u00e3o de propor\u00e7\u00f5es b\u00edblicas. Como se trata  de um setor superavit\u00e1rio e com forte poder de lobby junto aos poderes  da Rep\u00fablica, as vozes contr\u00e1rias a essa bonan\u00e7a imediatista que rende  lucros cada vez mais a um pequeno n\u00famero de produtores s\u00e3o sempre  taxadas de reacion\u00e1rias e atrasadas, sendo muitas vezes caladas \u00e0 for\u00e7a. <\/p>\n<p>Goi\u00e1s,  Tri\u00e2ngulo Mineiro, Mato Grosso, norte de S\u00e3o Paulo, Bahia, Tocantins,  al\u00e9m de Piau\u00ed e sul do Amazonas j\u00e1 sentem os efeitos da destrui\u00e7\u00e3o desse  bioma. Trata-se n\u00e3o s\u00f3 de um crime contra os brasileiros e as pr\u00f3ximas  gera\u00e7\u00f5es, mas sobretudo de um crime ambiental para toda a humanidade. O que se observa \u00e9 que apenas 7,2% das \u00e1reas do cerrado s\u00e3o protegidas  por lei \u2014&nbsp; a maioria em parques nacionais \u2014&nbsp; e mesmo essas \u00e1reas sofrem  com a propaga\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios, provocados pelos fazendeiros e pelo forte  calor e seca. <\/p>\n<p>O professor Altair Sales Barbosa, da Universidade  Cat\u00f3lica de Goi\u00e1s (PUC-GO), criador do Memorial do Cerrado, lembra que o  cerrado \u00e9 um dos primeiros ambientes do planeta formado ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o  da vida sobre terra, h\u00e1 70 milh\u00f5es de anos. \u201cVivemos no local onde  houve as formas de ambiente mais antigas da hist\u00f3ria recente do planeta,  principalmente se levarmos em considera\u00e7\u00e3o as forma\u00e7\u00f5es vegetais. No  m\u00ednimo, o cerrado come\u00e7ou h\u00e1 65 milh\u00f5es de anos e se concretizou h\u00e1 40  milh\u00f5es de anos\u201d. Para o estudioso, o cerrado j\u00e1 atingiu o cl\u00edmax da sua  evolu\u00e7\u00e3o. Destru\u00eddo, n\u00e3o se recuperar\u00e1 em sua plenitude. <\/p>\n<p>O calor  e a secura cada vez mais intensos refletem as mudan\u00e7as dr\u00e1sticas das  \u00faltimas d\u00e9cadas sendo que, a cada ano, esses reflexos ser\u00e3o mais  sentidos. Para alguns especialistas,&nbsp; considerando a taxa de extin\u00e7\u00e3o de  dois milh\u00f5es de hectares por ano, daqui a apenas 15 anos (2030) o  cerrado deixar\u00e1 de existir. Trata-se de uma previs\u00e3o catastr\u00f3fica, mas  que&nbsp; n\u00e3o tem despertado a aten\u00e7\u00e3o das autoridades, satisfeitas apenas  com o brilho f\u00e1cil e r\u00e1pido do agroneg\u00f3cio. \u00c9 importante salientar que  nessa&nbsp; regi\u00e3o existem mais de 20 mil nascentes catalogadas, que  abastecem 12 diferentes regi\u00f5es hidrogr\u00e1ficas do pa\u00eds. <\/p>\n<p>Em pa\u00edses  civilizados, a regi\u00e3o seria tratada como \u00e1rea de seguran\u00e7a nacional,  dado o valor incomensur\u00e1vel das suas riquezas naturais. \u00c9 preciso que os  novos dirigentes tenham em mente que transformar essa \u00e1rea em celeiro  do mundo \u00e9 mais uma dessas mirabolantes fantasias que escondem um  passivo infinitamente maior do que toda a produ\u00e7\u00e3o somada nos \u00faltimos  anos. Altair Sales lembra que o abastecimento das tr\u00eas grandes bacias do  continente sul-americano (Guarani, Bambu\u00ed e Urucaia) t\u00eam sua origem no  cerrado. As mais de 12 mil esp\u00e9cies de plantas catalogadas captam mais  g\u00e1s carb\u00f4nico do que outras, em outras regi\u00f5es. Mais de 50 milh\u00f5es de  hectares de pastagem, 15 milh\u00f5es de lavouras, o plantio de esp\u00e9cies alien\u00edgenas \u2014&nbsp;  como eucalipto e cana-de-a\u00e7\u00facar \u2014 em larga escala, al\u00e9m de milhares de  carvoarias espalhadas nessa regi\u00e3o, somadas \u00e0s queimadas frequentes,  fazem do cerrado um bioma moribundo cujo desaparecimento custar\u00e1 a  sobreviv\u00eancia de milh\u00f5es de brasileiros. <\/p>\n<p>O professor lembra ainda  que \u201co cerrado foi inclu\u00eddo na pol\u00edtica de expans\u00e3o econ\u00f4mica  brasileira como fronteira de expans\u00e3o. \u00c9 uma \u00e1rea f\u00e1cil de trabalhar, em  um planalto, sem grandes modifica\u00e7\u00f5es geomorfol\u00f3gicas e com esta\u00e7\u00f5es  bem definidas. Junte-se a isso toda a tecnologia que h\u00e1 para a corre\u00e7\u00e3o  do solo. \u00c9 poss\u00edvel tirar a acidez utilizando o calc\u00e1rio; aumentar a  fertilidade usando adubos. Com isso, altera-se a qualidade do solo, mas  afeta-se os len\u00e7\u00f3is subterr\u00e2neos e, sem a vegeta\u00e7\u00e3o nativa, a \u00e1gua n\u00e3o  pode mais infiltrar na terra\u201d. O estudioso lembra que onde houve  modifica\u00e7\u00e3o do solo pela introdu\u00e7\u00e3o do calc\u00e1rio e gram\u00edneas ex\u00f3ticas, a  vegeta\u00e7\u00e3o nativa n\u00e3o brota mais. E ressalta um detalhe fundamental:  \u201cQuando se retira a vegeta\u00e7\u00e3o nativa dos chapad\u00f5es, trocando-a por outro  tipo, altera-se o ambiente. Ocorre que essa vegeta\u00e7\u00e3o introduzida \u2014&nbsp;  por exemplo, a soja ou o algod\u00e3o&nbsp; \u2014&nbsp; tem uma raiz extremamente  superficial. Ent\u00e3o, quando as chuvas caem, a \u00e1gua n\u00e3o infiltra como  deveria. Com o passar dos tempos o n\u00edvel dos len\u00e7\u00f3is vai diminuindo,  afetando o n\u00edvel dos aqu\u00edferos, que fica menor a cada ano.\u201d <\/p>\n<p>A  devasta\u00e7\u00e3o do cerrado tem sido respons\u00e1vel pelo desaparecimento de dez  pequenos rios a cada ano. Esses pequenos riachos s\u00e3o alimentadores de  outros rios maiores e o processo de seca acaba se estendendo por cadeia,  com consequ\u00eancias que j\u00e1 come\u00e7amos a sentir na pele. O professor alerta  que \u201cvai chegar um tempo, n\u00e3o muito distante, em que n\u00e3o haver\u00e1 mais  \u00e1gua para alimentar os rios. Ent\u00e3o, esses rios v\u00e3o desaparecer.\u201d As  consequ\u00eancias dessa ocupa\u00e7\u00e3o desenfreada pelo agroneg\u00f3cio e outros  agentes alheios ao cerrado ser\u00e3o, segundo Altair Sales ,ainda mais  severos .\u201cN\u00e3o existem mais comunidades vegetais de formas intactas; n\u00e3o  existem mais comunidades de animais&nbsp; \u2014&nbsp; grande parte da fauna j\u00e1 foi  extinta ou est\u00e1 em processo de extin\u00e7\u00e3o, os insetos e animais  polinizadores j\u00e1 foram, na maioria, extintos tamb\u00e9m; por consequ\u00eancia, as plantas n\u00e3o d\u00e3o mais frutos por n\u00e3o serem polinizadas, o que as leva \u00e0 extin\u00e7\u00e3o.\u201d <\/p>\n<p>Por  fim, a \u00e1gua, fator primordial para o equil\u00edbrio de todo esse  ecossistema, est\u00e1 em menor quantidade a cada ano. \u201cCom um volume t\u00e3o  impressionante de previs\u00f5es catastr\u00f3ficas como essa, o que aflige mais,  sem d\u00favidas, \u00e9 a cara de paisagem das autoridades, alheias a um futuro  de pen\u00faria extrema, que j\u00e1 chegou.<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>circecunha@gmail.com; arigcunha@ig.com.br&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Colabora\u00e7\u00e3o Mamfil&nbsp;&nbsp; O cerrado j\u00e1 est\u00e1 extinto Destru\u00eddo impiedosamente a partir dos anos 1960,&nbsp; primeiro para a instala\u00e7\u00e3o da nova capital e, em seguida, para a expans\u00e3o das fronteiras agr\u00edcolas com base na explora\u00e7\u00e3o intensiva das monoculturas, o cerrado, como bioma, j\u00e1 n\u00e3o existe na pr\u00e1tica. 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