{"id":336,"date":"2015-10-25T16:43:38","date_gmt":"2015-10-25T16:43:38","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.hom.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=300"},"modified":"2015-11-18T15:40:07","modified_gmt":"2015-11-18T17:40:07","slug":"consideracoes-sobre-a-hora-de-verao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/consideracoes-sobre-a-hora-de-verao\/","title":{"rendered":"Considera\u00e7\u00f5es sobre a hora de ver\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>VISTO, LIDO E OUVIDO<\/strong><\/p>\n<p>1. Aspectos astron\u00f4mico e geogr\u00e1fico<\/p>\n<p>A chamada &#8220;hora de ver\u00e3o&#8221; consiste no artif\u00edcio de adiantar os rel\u00f3gios em uma hora no per\u00edodo do ano em que a dura\u00e7\u00e3o do dia supera em pelo menos sessenta minutos a da noite, a fim de melhor se aproveitar a claridade adicional desses dias. Essa pr\u00e1tica teve in\u00edcio na Europa durante a I Guerra Mundial, quando a economia exigia racionamento de todos os bens, e manteve-se apesar da resolu\u00e7\u00e3o que a condenou no Congresso Internacional de Cronometria, realizado em Genebra em agosto de 1949. Alertadas pela sua condena\u00e7\u00e3o internacional as nossas autoridades revogaram o seu uso em 24 de fevereiro de 1953. Entretanto depois, em car\u00e1ter excepcional, nos per\u00edodos de ver\u00e3o de 63\/64, 65\/66 e 66\/67, e a partir de 1985 o Brasil voltou a adotar a hora de ver\u00e3o. Mesmo na Europa unificada tem havido contesta\u00e7\u00f5es oficiais em Portugal e na Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>O in\u00edcio do ver\u00e3o (em 21 de dezembro no hemisf\u00e9rio sul), corresponde ao solst\u00edcio de ver\u00e3o, ou seja, quando a dura\u00e7\u00e3o do dia \u00e9 m\u00e1xima e a da noite m\u00ednima. Os dias mais longos do ano se distribuem, portanto antes e depois do in\u00edcio do ver\u00e3o. \u00c9 nesse per\u00edodo que vigora o esquema da chamada hora de ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos c\u00edrculos polares, como sabemos, no solst\u00edcio de ver\u00e3o h\u00e1 o sol da meia-noite. Ou seja, nas grandes latitudes a varia\u00e7\u00e3o dos dias e das noites \u00e9 acentuada em torno dos solst\u00edcios do ver\u00e3o e do inverno. Por outro lado, na linha do equador a dura\u00e7\u00e3o dos dias e das noites \u00e9 praticamente a mesma ao longo do ano inteiro. Por essa raz\u00e3o, n\u00e3o havendo suficiente excesso de claridade nas regi\u00f5es entre o equador e os tr\u00f3picos, n\u00e3o h\u00e1 viabilidade astron\u00f4mica para a ado\u00e7\u00e3o do esquema da hora de ver\u00e3o nessas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Por isso, com exce\u00e7\u00e3o do Brasil, n\u00e3o existe hora de ver\u00e3o em nenhum outro pa\u00eds tropical .<\/p>\n<p>Bras\u00edlia fica a 16\u00ba de latitude S enquanto a maior parte da Europa fica entre 36\u00ba e 60\u00ba de latitude N, estendendo-se a Escandin\u00e1via al\u00e9m do c\u00edrculo polar \u00e1rtico. O territ\u00f3rio brasileiro \u00e9 cortado pelo equador e fica entre 5\u00ba 16\u00b4N e 33\u00ba 45\u00b4S.<\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, o dia mais longo do ano, 22 de dezembro, dura 13h04. Nesse dia h\u00e1 uma hora e quatro minutos extra de sol. O per\u00edodo em que h\u00e1 no m\u00ednimo uma hora a mais de sol vai de 30 de novembro a 9 de janeiro. S\u00e3o apenas 39 dias .<\/p>\n<p>J\u00e1 no in\u00edcio da hora de ver\u00e3o, em 8 de outubro, o sol passa a nascer \u00e0s 6h48 quando na noite mais longa do ano, no solst\u00edcio de inverno, em 23 de junho, o sol nasce dez minutos mais cedo, \u00e0s 6h38. No final da hora de ver\u00e3o, em 18 de fevereiro, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior: o sol s\u00f3 nasce \u00e0s 7h08 Ou seja, com a hora de ver\u00e3o o dia amanhece at\u00e9 meia hora mais tarde do que no auge do inverno ! \u00c9 uma prova da inviabilidade de hora de ver\u00e3o de t\u00e3o longa dura\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia. Tamb\u00e9m uma hora de ver\u00e3o de 39 dias seria de pouca vantagem pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Somente em Porto Alegre o per\u00edodo em que h\u00e1, no m\u00ednimo, uma hora de sol a mais abrange 121 dias, de 22 de outubro a 19 de fevereiro. Mas a hora de ver\u00e3o brasileira dura 133 dias.<\/p>\n<p>Pode-se ainda argumentar, por outro lado, que mesmo sem o esquema da hora de ver\u00e3o, os dias de &#8220;ver\u00e3o&#8221; sempre ser\u00e3o mais longos do que os de \u201cinverno\u201d, ou seja, nesse per\u00edodo h\u00e1 menor necessidade de ilumina\u00e7\u00e3o artificial e uma natural economia de luz el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Em suma, se n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a sens\u00edvel entre o dia e a noite a hora de ver\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pratic\u00e1vel. Se existe diferen\u00e7a a hora de ver\u00e3o \u00e9 sup\u00e9rflua.<\/p>\n<p>2. Aspecto econ\u00f4mico<\/p>\n<p>No Brasil, segundo dados oficiais da Aneel, a hora de ver\u00e3o propicia uma economia de 0,8% na demanda e uma redu\u00e7\u00e3o de 5,6% no pico do consumo.<\/p>\n<p>* Cabe ponderar que os aparelhos de medi\u00e7\u00e3o comerciais t\u00eam erros variando de 1 a 3%. Assim, 0,8%, al\u00e9m de ser insignificante, estaria dentro do erro de medi\u00e7\u00e3o n\u00e3o sendo, portanto um dado confi\u00e1vel.<\/p>\n<p>* A diminui\u00e7\u00e3o do pico do consumo \u00e9 tamb\u00e9m question\u00e1vel. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo de 27 de outubro de 1997, para a usina de Itaipu a hora de ver\u00e3o n\u00e3o existe. &#8220;A \u00fanica mudan\u00e7a \u00e9 no hor\u00e1rio de pico. Se antes ele ocorria das 18h \u00e0s 19h, agora poder\u00e1 ser registrado das 19h \u00e0s 20h&#8221;. (Anexo III)<\/p>\n<p>J\u00e1 a Gazeta Mercantil de 5 de fevereiro de 1998 noticiou: &#8220;O problema vai ser definir o hor\u00e1rio de ponta. Na semana passada no Rio de Janeiro o maior consumo de energia foi registrado \u00e0s 11 horas da noite, e no in\u00edcio de janeiro a ponta foi registrada \u00e0 1 hora da madrugada (&#8230;) O diretor de Planejamento da Eletrobr\u00e1s (Benedito Carraro) atribuiu o alto consumo de energia na madrugada como conseq\u00fc\u00eancia do uso de sistemas de refrigera\u00e7\u00e3o. &#8220;Janeiro foi muito quente e todo carioca ligou seu aparelho de refrigera\u00e7\u00e3o. Somente isso explica um alto consumo na madrugada, disse.&#8221;<\/p>\n<p>* \u00c9 bom lembrar que a hora de ver\u00e3o dura 126 dias por ano. E que nos outros 239 dias do ano o sistema tem que suportar a demanda do pico de consumo. Deve-se recordar que, embora a hora de ver\u00e3o acabe no terceiro domingo de fevereiro, o calor do ver\u00e3o persiste at\u00e9 meados de abril, ou seja, os condicionadores de ar continuar\u00e3o ligados em todos os lares e escrit\u00f3rios muito al\u00e9m do final do per\u00edodo da hora de ver\u00e3o.<\/p>\n<p>* Perfil do consumo : Excetuando os condicionadores de ar e freezers , aparelhos ainda fora do alcance de boa parte da popula\u00e7\u00e3o, 95% do consumo dom\u00e9stico est\u00e1 dividido entre geladeira (30%), chuveiro el\u00e9trico (25%), ilumina\u00e7\u00e3o (20%), televisor (10%), ferro el\u00e9trico (6%) e m\u00e1quina de lavar roupa (4%). V\u00ea-se que a ilumina\u00e7\u00e3o que seria poupada, uma fra\u00e7\u00e3o de desses 20%, pesa muito pouco no total, ao contr\u00e1rio do in\u00edcio do s\u00e9culo, quando se adotou a hora de ver\u00e3o na Europa.<\/p>\n<p>* Transtornos : \u00c9 impratic\u00e1vel adotar a hora de ver\u00e3o no mesmo fuso hor\u00e1rio em todo o territ\u00f3rio nacional. Em 1999 e em 2000 foram inclu\u00eddos o Nordeste e Roraima, por\u00e9m isso causou tal trauma e revolta popular que teve que ser revogado. Por outro lado deve-se reconhecer que o estabelecimento de uma hora diferente entre o Nordeste e Bras\u00edlia, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo durante a hora de ver\u00e3o causa transtornos econ\u00f4micos imensur\u00e1veis, mas significativos, como, por exemplo, nos hor\u00e1rios banc\u00e1rios, na programa\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o e mesmo nos v\u00f4os comerciais dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>3. Aspecto biol\u00f3gico<\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 regido por ciclos circadianos, ou seja, temos um &#8220;rel\u00f3gio biol\u00f3gico&#8221; ao longo das 24 horas do dia. Qualquer altera\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de sono resulta em reflexos mal\u00e9ficos na sa\u00fade das pessoas, como sonol\u00eancia durante o dia, ins\u00f4nia durante a noite, cansa\u00e7o, irritabilidade, agressividade etc. As crian\u00e7as e idosos s\u00e3o os mais sens\u00edveis. Durante a vig\u00eancia da hora de ver\u00e3o o rendimento escolar cai para as crian\u00e7as que t\u00eam aulas pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, o risco de acidentes que podem ser fatais, como os de tr\u00e2nsito. O assunto foi estudado no cap\u00edtulo &#8220;Morte no hor\u00e1rio de ver\u00e3o&#8221; do livro Ladr\u00f5es do Sono , de Stanley Coren, professor de Neuropsicologia da Universidade da Col\u00fambia Brit\u00e2nica (Canad\u00e1). Com os dados nas m\u00e3os, o Dr. Coren faz a seguinte afirmativa: &#8220;Os resultados referentes \u00e0 mudan\u00e7a para o hor\u00e1rio de ver\u00e3o s\u00e3o bastante esclarecedores. Nos quatro primeiros dias a perda de sono, embora pequena, provoca aumento de 6% no n\u00famero de mortes acidentais, comparando-se com a semana anterior&#8221;.<\/p>\n<p>4. Aspecto social<\/p>\n<p>Para uma minoria privilegiada a hora de ver\u00e3o propicia um melhor desfrute do final da tarde para o lazer: a happy hour e as pr\u00e1ticas esportivas. Entretanto para a grande maioria silenciosa a hora de ver\u00e3o pune pela manh\u00e3 quem mora longe dos locais de trabalho e estudo e que depende do transporte coletivo. Essas numerosas pessoas, de menor poder aquisitivo, s\u00e3o obrigadas a sair de suas casas ainda na escurid\u00e3o, com riscos crescentes com o aumento da viol\u00eancia urbana que assola as cidades maiores. Como exemplo, registrado nas p\u00e1ginas amarelas da revista Veja de 13-12-95, h\u00e1 o caso do assalto e estupro ocorrido no primeiro dia da vig\u00eancia da hora de ver\u00e3o na periferia de S\u00e3o Paulo em 1992, e que chegou aos tribunais por quest\u00e3o do direito de aborto.<\/p>\n<p>Na realidade, a hora de ver\u00e3o aumenta a dura\u00e7\u00e3o da claridade da tarde \u00e0s custas do aumento do tempo de escurid\u00e3o do final da madrugada.<\/p>\n<p>5. Conclus\u00e3o<\/p>\n<p>Pelas raz\u00f5es expostas, considerando a inviabilidade astron\u00f4mica e geogr\u00e1fica, a duvidosa e insignificante vantagem econ\u00f4mica e os preju\u00edzos biol\u00f3gicos e sociais para a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o, sou de opini\u00e3o que, para o bem estar de todos, a hora de ver\u00e3o deve ser revogada em todo o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Rold\u00e3o Simas Filho nascido em Niter\u00f3i em 1933, neto de av\u00f3s paternos a\u00e7orianos.<br \/>\nQu\u00edmico formado pela atual UFRJ trabalhou como engenheiro de refina\u00e7\u00e3o e de m\u00e9todos na Petrobr\u00e1s, onde ingressou em 1958.<br \/>\nHoje, aposentado, escreveu e publicou: Dicion\u00e1rio L\u00e1 &amp; C\u00e1 &#8211; Portugu\u00eas, Idioma de Cada Dia, Enquanto \u00e9 Tempo e \u00c1gua Mole&#8230;, editados pela Thesaurus, de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>PRIMEIRA NOTA<\/strong><br \/>\nHora de Ver\u00e3o<\/p>\n<p>Se a hora de ver\u00e3o representasse uma economia de eletricidade significativa, talvez valesse a pena ponderar a viabilidade de sua ado\u00e7\u00e3o. Mas, como a economia \u00e9 insignificante, deve ser extinta tais as desvantagens sociais que causa.<br \/>\nVejamos:<br \/>\nEm Bras\u00edlia, no dia 18 de outubro, j\u00e1 na vig\u00eancia da Hora de Ver\u00e3o, o Sol nasceu \u00e0s 6h43, ou seja, 5h43 no hor\u00e1rio astron\u00f4mico normal. Quem precisa acordar \u00e0s 6 horas estar\u00e1 se levantando na realidade \u00e0s 5 horas, ainda noite fechada, e vai acender as l\u00e2mpadas em casa.<br \/>\nPor outro lado, como a noite chega mais tarde, h\u00e1 uma tend\u00eancia de se aproveitar mais a claridade e de se deitar mais tarde. A noite de sono estar\u00e1 menor. Dorme-se menos horas.<br \/>\nVale destacar que as crian\u00e7as que estudam pela manh\u00e3 estar\u00e3o sonolentas e seu rendimento escolar ser\u00e1 baixo. No Jap\u00e3o, a hora de ver\u00e3o foi introduzida depois da Segunda Guerra Mundial, mas foi cancelada em 1952 tendo em vista que o rendimento escolar havia ca\u00eddo. L\u00e1 a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o nacional acima dos outros problemas.<\/p>\n<p>Rold\u00e3o Simas Filho<br \/>\nBras\u00edlia, 21 de outubro de 2015<\/p>\n<p><strong>SEGUNDA NOTA<\/strong><\/p>\n<p>Hora de Ver\u00e3o no Jap\u00e3o<\/p>\n<p>No Jap\u00e3o, a hora de ver\u00e3o foi introduzida depois da Segunda Guerra Mundial pelas tropas de ocupa\u00e7\u00e3o norte-americanas, mas foi cancelada em 1952 tendo em vista a oposi\u00e7\u00e3o dos agricultores. Apesar do ministro do Com\u00e9rcio e Ind\u00fastria Internacional ter defendido a introdu\u00e7\u00e3o da hora de ver\u00e3o com objetivo de reduzir o consumo de energia, a oposi\u00e7\u00e3o dos fazendeiros e do ministro da Educa\u00e7\u00e3o \u2013 alegou que a maior quantidade de luz \u00e0 tarde iria atrair as crian\u00e7as para as recrea\u00e7\u00f5es ao ar livre ap\u00f3s o t\u00e9rmino das aulas, afastando-as dos seus trabalhos e deveres de casa \u2013 n\u00e3o se adotou a hora de ver\u00e3o, mantendo-se a hora legal sem corre\u00e7\u00e3o. No Jap\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o nacional acima dos outros problemas.<\/p>\n<p>(fonte: Vantagens e desvantagens da hora de ver\u00e3o \u2013 Ronaldo Mour\u00e3o (astr\u00f4nomo) Jornal do Brasil 26-10-2009, \u201cSociedade Aberta\u201d p. A9)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VISTO, LIDO E OUVIDO 1. 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