{"id":7152,"date":"2015-12-23T09:47:30","date_gmt":"2015-12-23T11:47:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/?p=7152"},"modified":"2015-12-30T09:48:06","modified_gmt":"2015-12-30T11:48:06","slug":"maltratada-lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/aricunha\/maltratada-lingua\/","title":{"rendered":"Maltratada l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00daltima flor do L\u00e1cio, inculta e bela,<br \/>\n\u00c9s, a um tempo, esplendor e sepultura.\u201d<br \/>\nOlavo Bilac<\/p>\n<p>Fosse alinhada, pelo grau crescente de import\u00e2ncia para o desenvolvimento da esp\u00e9cie humana, sem d\u00favida, a linguagem ocuparia o mais alto dos patamares. Gra\u00e7as ao aperfei\u00e7oamento paulatino dessa faculdade cognitiva, foi poss\u00edvel estabelecer sistema de comunica\u00e7\u00e3o oral e intelig\u00edvel entre os indiv\u00edduos, o que permitiu a transmiss\u00e3o e a troca de experi\u00eancias pessoais sobre o mundo em volta.<br \/>\nAo lado da m\u00e3o, a linguagem se destaca como a principal ferramenta que abriu o caminho evolutivo para a humanidade. Como atores da fala, as m\u00e3os representam, em seus infinitos gestos, o que se diz. \u00c9 dessa uni\u00e3o entre fala e m\u00e3os que v\u00e3o surgindo os sinais e os c\u00f3digos, que, posteriormente, ser\u00e3o fixados em argila e em pergaminhos.<br \/>\nNesse longo processo que vai da escrita cuneiforme ao mundo virtual dos computadores, a linguagem sempre se manteve presente gra\u00e7as \u00e0capacidade inesgot\u00e1vel de acompanhar as mudan\u00e7as, adaptando-se aos novos tempos.<br \/>\nA l\u00edngua, no sentido de idioma, \u00e9 sempre instrumento vivo. Por isso cresce, se desenvolve, transforma-se e pode, eventualmente, deixar de existir. Como elemento e bem cultural, seu valor \u00e9 inconteste. Nesse sentido, faz-se importante destacar alguns fatos recentes, que mesmo isolados entre si, dizem respeito \u00e0 l\u00edngua como bem a ser preservado como joia rara de fam\u00edlia.<br \/>\nAntes, contudo, \u00e0 guisa de mera ilustra\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso destacar que, de acordo com estudiosos da l\u00edngua portuguesa, o mais antigo documento oficial datado, escrito em portugu\u00eas, que chegou at\u00e9 n\u00f3s (o Testamento de Afonso II, de 1214), prova, devido \u00e0s conven\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas mais ou menos est\u00e1veis, que, no ambiente da Corte, j\u00e1 se escrevia em portugu\u00eas h\u00e1 algum tempo. Com isso se harmoniza a data\u00e7\u00e3o da mais antiga cantiga trovadoresca, Ora faz ost\u2019o senhor de Navarra, de Jo\u00e3o Soares de Paiva: o ano de 1196. E a Not\u00edcia de Torto, um documento privado sem data, mas situ\u00e1vel por volta de 1214, atesta como a l\u00edngua portuguesa era j\u00e1 usada, pontualmente, para registar apontamentos informais e ef\u00eameros. Essa pr\u00e1tica foi recentemente comprovada por uma Not\u00edcia de Fiadores, de 1175.<br \/>\nMas \u00e9 a partir de 1255 que come\u00e7a a produ\u00e7\u00e3o regular de documentos escritos em portugu\u00eas, primeiro na chancelaria r\u00e9gia, depois por toda a parte. (Instituto Cam\u00f5es). Nestes mil anos que nos separam dos primeiros arranjos da l\u00edngua portuguesa, vemos que o idioma, falado por mais de 250 milh\u00f5es de pessoas nos quatro continentes, \u00e9 hoje a quarta l\u00edngua mais falada no planeta, sendo, tamb\u00e9m, o quinto idioma mais usado na internet. No Facebook, o portugu\u00eas \u00e9 a terceira l\u00edngua mais usada e a que cresceu oito vezes mais em conex\u00f5es entre 2010 e 2012.<br \/>\nDe acordo com estat\u00edsticas levantadas pelo Instituto Cam\u00f5es, aproximadamente, 335 milh\u00f5es de pessoas falar\u00e3o a l\u00edngua portuguesa. Pela import\u00e2ncia que vem ganhando como idioma global e pelo fato de ser a l\u00edngua oficial falada em oito pa\u00edses, \u00e9 de se supor que no Brasil, onde 205 milh\u00f5es de cidad\u00e3os se entendem por meio desse idioma, a popula\u00e7\u00e3o e, principalmente, as autoridades, atribuam algum valor a essa heran\u00e7a cultural.<br \/>\nO acordo ortogr\u00e1fico, prevendo mudan\u00e7as na l\u00edngua portuguesa, dever\u00e1 entrar em vigor a partir de 1\u00ba de janeiro de 2016. O acordo para padronizar a ortografia da l\u00edngua foi acertado pelos membros da Comunidade de Pa\u00edses de L\u00edngua Portuguesa (CPLP) em 1990. Com a nova medida, a l\u00edngua portuguesa ser\u00e1 alterada em 0,8% dos voc\u00e1bulos, no Brasil, e 1,3% em Portugal. A inten\u00e7\u00e3o dos reformadores \u00e9 facilitar o processo de interc\u00e2mbio cultural entre os pa\u00edses e ampliar a divulga\u00e7\u00e3o do idioma e da literatura. As 23 letras do nosso alfabeto passar\u00e3o a ser acrescidas das letras K, W e Y, por exemplo.<br \/>\nNo Brasil, o flagelo de um governo que soube, como ningu\u00e9m, reinventar a crise em todas as suas vers\u00f5es pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social, possui, na atualidade, uma \u201cpresidenta\u201d alheia ao idioma, que o massacra a cada fala improvisada. De tanto se expressar de forma torta, Dilma tem lugar garantido na hist\u00f3ria do Brasil como a mandat\u00e1ria mais desleixada no uso da l\u00edngua. Suas falas frequentes viraram idioma pr\u00f3prio: o dilm\u00eas. A cole\u00e7\u00e3o de frases sem sentido, no que os jornalistas chamam de terreno baldio da mente de Dilma, tem produzido um tal n\u00famero de p\u00e9rolas da l\u00edngua que, reunidas em livro, se transformaram no best-seller do ano: Dilm\u00eas, o idioma da mulher sapiens, do jornalista Celso Arnaldo Ara\u00fajo.<br \/>\nNa era da mediocridade em que o Brasil est\u00e1 mergulhado, mis\u00e9ria pouca \u00e9 bobagem. Para coroar o ano de pragas como o Zika v\u00edrus, a morte do Rio Doce e o inc\u00eandio no Museu da L\u00edngua Portuguesa em S\u00e3o Paulo, parece selar simbolicamente nosso destino de eternos terceiro-mundistas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00daltima flor do L\u00e1cio, inculta e bela, \u00c9s, a um tempo, esplendor e sepultura.\u201d Olavo Bilac Fosse alinhada, pelo grau crescente de import\u00e2ncia para o desenvolvimento da esp\u00e9cie humana, sem d\u00favida, a linguagem ocuparia o mais alto dos patamares. 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