{"id":10056,"date":"2025-03-02T08:08:52","date_gmt":"2025-03-02T11:08:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10056"},"modified":"2025-03-02T08:08:52","modified_gmt":"2025-03-02T11:08:52","slug":"ainda-estou-aqui-e-o-carnaval-do-ninguem-segura-este-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/ainda-estou-aqui-e-o-carnaval-do-ninguem-segura-este-pais\/","title":{"rendered":"Ainda estou aqui e o carnaval do ningu\u00e9m segura este pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>No ano em que o filme se passa, tamb\u00e9m coube \u00e0 Unidos de Padre Miguel abrir os desfiles de escolas de samba. N\u00e3o havia Samb\u00f3dromo, e a passarela era a Presidente Vargas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A arte existe porque a vida n\u00e3o basta, como dizia o poeta Ferreira Gullar. Em pleno domingo de carnaval, a arte brasileira pede passagem nos desfiles de escolas de samba e na sess\u00e3o de premia\u00e7\u00e3o da 97\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Oscar. Fernanda Torres e o filme do qual \u00e9 protagonista, Ainda estou aqui, de Walter Salles J\u00fanior, disputam tr\u00eas categorias do maior pr\u00eamio do cinema mundial: melhor atriz, melhor filme e melhor filme estrangeiro.<\/p>\n<p>O Brasil vai sambar com um olho na Marques de Sapuca\u00ed e outro no tradicional Teatro Dolby, em Los Angeles, Calif\u00f3rnia, onde ocorrer\u00e1 a cerim\u00f4nia do Oscar. O tapete vermelho ser\u00e1 exibido ao vivo, a partir das 20h30, na telinha, enquanto a Unidos de Padre Miguel abrir\u00e1 a passarela \u00e0s 22h, com o enredo Egb\u00e9 Iya Nass\u00f4. O Brasil vai parar para assistir a tudo isso, assim como aconteceu na &#8220;corrente pra frente&#8221; da Copa do Mundo de Futebol de 1970, no M\u00e9xico, transmitida pela tev\u00ea.<\/p>\n<p>Ainda estou aqui \u00e9 um recorte dos 21 anos de ditadura militar, um tormentoso processo pol\u00edtico marcado por sequestros, torturas e assassinatos, a partir do drama familiar de Eunice, vi\u00fava do ex-deputado Rubens Paiva (PTB-SP), que desapareceu num quartel do Ex\u00e9rcito no Rio de Janeiro. \u00c9 fruto de uma longa trajet\u00f3ria do cinema brasileiro, cujo reconhecimento internacional, iniciado com o Cinema Novo, hoje pode finalmente chegar \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o art\u00edstica maior e a um novo patamar de mercado.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/diversao-e-arte\/2025\/03\/7073425-profissionais-do-cinema-avaliam-chances-do-brasil-no-oscar.html\">Profissionais do cinema avaliam chances do Brasil no Oscar<\/a><\/p>\n<p>Walter Salles concorre ao pr\u00eamio pela segunda vez, a primeira foi com Central do Brasil, estrelado por Fernanda Montenegro, m\u00e3e de Fernanda Torres, que tamb\u00e9m aparece em Ainda estou aqui, no fim do filme, como Eunice idosa e com Alzheimer. Essa \u00e9 a primeira coprodu\u00e7\u00e3o da Globo Play, ao lado da Sony, Arte France e Conspira\u00e7\u00e3o, e marca a transi\u00e7\u00e3o da teledramaturgia consagrada da TV Globo para o patamar dos blockbusters destinados ao streaming internacional.<\/p>\n<p>Quando ocorreu o sequestro e a morte de Rubens Paiva, as Organiza\u00e7\u00f5es Globo estavam aliadas ao regime militar, embora abrigassem not\u00f3rios comunistas na reda\u00e7\u00e3o do seu jornal, que completa 100 anos, e na tev\u00ea. O drama de Eunice Paiva, coincidentemente, come\u00e7a no ano em que se exibia a novela O homem que deve morrer, de Janete Clair, esposa do dramaturgo comunista Dias Gomes e autora das novelas de maior sucesso na fase de maior repress\u00e3o do regime militar: Irm\u00e3os Coragem (197O), Selva de Pedra (1972) e Pecado Capital (1975).<\/p>\n<p>Ao produzir o filme de Walter Salles J\u00fanior, a emissora faz um ajuste de contas com o seu pr\u00f3prio passado, que \u00e9 muito bem retratado pelo jornalista Ernesto Rodrigues no livro A Globo: Hegemonia,1965-1984 (Aut\u00eantica). \u00c9 o primeiro volume da trilogia que faz uma imers\u00e3o profunda e independente nos bastidores da maior emissora do Brasil, cuja hist\u00f3ria se entrela\u00e7a com o poder militar e uma revolu\u00e7\u00e3o na tev\u00ea, protagonizada por Roberto Marinho, Walter Clark e Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Oliveira Sobrinho, o Boni.<\/p>\n<p><strong>\u00d3 abre-alas<\/strong><\/p>\n<p>No ano em que Rubens Paiva foi sequestrado e assassinado, coube \u00e0 Unidos de Padre Miguel abrir os desfiles de escolas de samba. N\u00e3o havia Samb\u00f3dromo, e a passarela era a Avenida Presidente Vargas. Naquela ocasi\u00e3o, o Acad\u00eamicos do Salgueiro conquistou o seu quinto t\u00edtulo, com um desfile sobre a hist\u00f3ria de uma visita de nobres africanos a Maur\u00edcio de Nassau no Recife.<\/p>\n<p>O enredo Festa para um rei negro fora sugerido por Jo\u00e3ozinho Trinta e Maria Augusta, que venceram no carnaval do Rio pela primeira vez. O desfile tamb\u00e9m teve a assinatura de Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona. Um dos destaques da apresenta\u00e7\u00e3o foi o samba-enredo composto por Zuzuca, eternizado pelo refr\u00e3o &#8220;O-l\u00ea-l\u00ea, o-l\u00e1-l\u00e1 \/ Pega no ganz\u00ea \/ Pega no ganz\u00e1&#8221;, que \u00e9 cantado at\u00e9 hoje na quadra do Salgueiro.<\/p>\n<p>Campe\u00e3 do ano anterior, a Portela ficou com o vice-campeonato ao homenagear o bairro da Lapa. Terceiro colocado, o Imp\u00e9rio Serrano realizou um desfile sobre a Regi\u00e3o Nordeste do Brasil. Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Mangueira, em quarto lugar, trouxe o enredo Os modernos bandeirantes. Com um desfile sobre a cana-de-a\u00e7\u00facar, a Unidos de Vila Isabel se classificou em quinto lugar.<\/p>\n<p>A grata surpresa foi a s\u00e9tima colocada, a Imperatriz Leopoldinense, com o enredo Barra de ouro, barra de rio, barra de saia, com samba de Z\u00e9 Catimba, um ano depois do antol\u00f3gico samba Oropa, Fran\u00e7a e Bahia, de Carlinhos Sideral, sobre a Semana de Arte Moderna. Nos meios de comunica\u00e7\u00e3o e nos enredos, n\u00e3o havia qualquer possibilidade de cr\u00edtica ao regime militar. O carnaval de rua era s\u00f3 para os foli\u00f5es de ra\u00e7a dos blocos de sujo da Avenida Rio Branco, do minguado desfile do Cord\u00e3o do Bola Preta e de dois grandes blocos rivais, Bafo da On\u00e7a e Cacique de Ramos.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/opiniao\/2025\/03\/7074026-visao-do-correio-o-premio-maior-de-ainda-estou-aqui.html\"><strong>O pr\u00eamio maior de Ainda Estou Aqui<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A m\u00fasica mais tocada nas r\u00e1dios era Ningu\u00e9m segura esse pa\u00eds, de Brasinha, que enaltecia o regime militar e abria o elep\u00ea das marchinhas de carnaval de 1971. Nem de longe era p\u00e1reo, no gog\u00f3 dos foli\u00f5es, para \u00d3 abre-alas (Chiquinha Gonzaga,1899), Mam\u00e3e eu quero (Jararaca e Vicente Paiva, 1936), A jardineira (Humberto Porto e Benedito Lacerda, 1938), Allah-l\u00e1-\u00f4 (Haroldo Lobo e N\u00e1ssara, 1940), Aurora (Mario Lago, 1941) e Cacha\u00e7a (Mirabeau Pinheiro, L\u00facio de Castro e Heber Lobato, 1953), entre outras que s\u00e3o cantadas at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ano em que o filme se passa, tamb\u00e9m coube \u00e0 Unidos de Padre Miguel abrir os desfiles de escolas de samba. N\u00e3o havia Samb\u00f3dromo, e a passarela era a Presidente Vargas A arte existe porque a vida n\u00e3o basta, como dizia o poeta Ferreira Gullar. 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