{"id":1010,"date":"2016-11-09T01:07:39","date_gmt":"2016-11-09T03:07:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1010"},"modified":"2016-11-09T01:07:39","modified_gmt":"2016-11-09T03:07:39","slug":"manifesto-convivialista-declaracao-de-interdependencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/manifesto-convivialista-declaracao-de-interdependencia\/","title":{"rendered":"Manifesto convivialista: Declara\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Este pequeno livro \u00e9 o resultado provis\u00f3rio de uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es travadas h\u00e1 um ano e meio no seio de um grupo de aproximadamente quarenta autores franc\u00f3fonos, representativos de numerosas correntes de pensamento e de a\u00e7\u00e3o que tentam tra\u00e7ar os contornos de um outro mundo poss\u00edvel. Depois da reda\u00e7\u00e3o de um primeiro esbo\u00e7o por Alain Caill\u00e9 e da entrada no grupo, nessa ocasi\u00e3o, de mais uns vinte novos participantes, v\u00e1rias modifica\u00e7\u00f5es sucessivas permitiram chegar a um amplo acordo sobre o texto que ser\u00e1 lido. Nenhum dos signat\u00e1rios est\u00e1, evidentemente, de acordo com tudo, mas todos concordam que vale a pena formular o que se pode considerar como algo pr\u00f3ximo do maior denominador comum dos pensamentos alternativos.<br \/>\nO primeiro m\u00e9rito do manifesto convivialista est\u00e1 em, com efeito, atestar que esses autores, por sinal em diverg\u00eancia quanto a v\u00e1rios pontos, souberam p\u00f4r em relevo suas converg\u00eancias. O manifesto apresenta, ademais, o m\u00e9rito de indicar em que terreno e em que posi\u00e7\u00f5es essas converg\u00eancias podem se desenvolver e se aprofundar.<br \/>\nA julgar pelas m\u00faltiplas demonstra\u00e7\u00f5es de apoio j\u00e1 recebidas e pelas muitas propostas de tradu\u00e7\u00e3o j\u00e1 formuladas antes mesmo da publica\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o original, pode-se pensar que esse manifesto vem ao encontro de uma verdadeira necessidade: a de, no m\u00ednimo, agregar n\u00famero e de ganhar for\u00e7a para se opor, de modo eficaz, aos dist\u00farbios do mundo.<br \/>\nAs ideias expressas neste manifesto n\u00e3o s\u00e3o propriedade de ningu\u00e9m. Elas ter\u00e3o seu destino reservado pelos leitores, desejem eles enriquec\u00ea-las ou contest\u00e1-las. De imediato, aqueles que quiserem testemunhar sua ades\u00e3o ao essencial deste manifesto e manter-se informados acerca dos seus desdobramentos podem consultar o site dos convivialistas: www.lesconvivialistes.fr<br \/>\nAlem da Teoria do manifesto convivialista de Alain Caill\u00e9, a editora Annablume vai publicar em 2014 um livro com breves coment\u00e1rios de intelectuais brasileiros que apoiam o Manifesto, mas desejam desprovincializar, ou mesmo reprovincializar as suas teses principais. Para uma lista dos primeiros apoiadores, vejam o site da editora: www.annablume.com.br<br \/>\n<em>Thais Florencio de Aguiar (Brasil) Claude Alphand\u00e9ry, Genevi\u00e8ve Ancel, Ana Maria Araujo (Uruguai), Claudine Attias-Donfut, Genevi\u00e8ve Azam, Akram Belka\u00efd (Arg\u00e9lia), Yann Moulier-Boutang, Fabienne Brug\u00e8re, Alain Caill\u00e9, Luis Roberto Cardoso de Oliveira (Brasil), Barbara Cassin, Philippe Chanial, Herv\u00e9 Chaygneaud-Dupuy, Eve Chiapello, Denis Clerc, Gabriel Cohn (Brasil) Ana M. Correa (Argentina), Thomas Coutrot, Jean-Pierre Dupuy, Fran\u00e7ois Flahault, Francesco Fistetti (It\u00e1lia), Anne-Marie Fixot, Jean-Baptiste de Foucauld,<\/em><br \/>\n<em>Christophe Fourel, Fran\u00e7ois Fourquet, Genauto Carvalho de Fran\u00e7a Filho (Brasil), Philippe Fr\u00e9meaux, Jean Gadrey, Vincent de Gaulejac, Fran\u00e7ois Gauthier (Su\u00ed\u00e7a), Sylvie Gendreau (Canad\u00e1), Susan George (Estados Unidos), Christiane Girard (Brasil), Fran\u00e7ois Gollain (Reino Unido), Roland Gori, Jean-Claude Guillebaud, Paulo Henrique Martins (Brasil), Dick Howard (Estados Unidos), Marc Humbert, \u00c9va Illouz (Israel), Ahmet Insel (Turquia), Genevi\u00e8ve Jacques, Florence Jany- Catrice, Zhe Ji (China), Herv\u00e9 Kempf, Elena Lasida, Serge Latouche, Jean-Louis Laville, Camille Laurens, Jacques Lecomte, Didier Livio, Gus Massiah, Dominique M\u00e9da, Margie Mendell (Canad\u00e1), Pierre-Olivier Monteil, Jacqueline Morand, Edgar Morin, Chantal Mouffe (Reino Unido), Osamu Nishitani (Jap\u00e3o), Brasilmar Ferreira Nunes (Brasil), Alfredo Pena-Vega, Bernard Perret, Elena Pulcini (It\u00e1lia), Ilana Silber (Israel), Roger Sue, Elvia Taracena (M\u00e9xico), Fr\u00e9d\u00e9ric Vandenberghe (Brasil), Patrick Viveret.<\/em><br \/>\n<strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nJamais a humanidade teve \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o tantos recursos materiais e compet\u00eancias t\u00e9cnicas e cient\u00edficas para assegurar seu bem-estar como agora. Considerada em sua globalidade, ela \u00e9 rica e poderosa, como ningu\u00e9m nos s\u00e9culos anteriores poderia imaginar. Nada prova, no entanto, que ela esteja mais feliz. Ainda assim, ningu\u00e9m deseja voltar atr\u00e1s, pois todos percebem que, cada vez mais, novas possibilidades de realiza\u00e7\u00e3o pessoal e coletiva se abrem todos os dias.<br \/>\nMas, por outro lado, ningu\u00e9m mais \u00e9 capaz de acreditar que essa acumula\u00e7\u00e3o de poder possa prosseguir indefinidamente, tal qual em uma l\u00f3gica de progresso t\u00e9cnico inalterada, sem se voltar contra si mesma e sem amea\u00e7ar a sobreviv\u00eancia f\u00edsica e moral da humanidade. A cada dia, os sinais anunciadores de uma poss\u00edvel cat\u00e1strofe se fazem mais precisos e inquietantes. A d\u00favida se refere apenas a saber o que \u00e9 mais imediatamente amea\u00e7ador e quais s\u00e3o as urg\u00eancias priorit\u00e1rias. Amea\u00e7as e urg\u00eancias indispens\u00e1veis de se ter sempre em mente se queremos nos dar uma verdadeira chance de realizar as promessas do presente.<\/p>\n<p><strong>As amea\u00e7as presentes<\/strong><br \/>\n&#8211; O aquecimento global, assim como os desastres e as gigantescas migra\u00e7\u00f5es em que ele acarretar\u00e1.<br \/>\n&#8211; A fragiliza\u00e7\u00e3o por vezes irrevers\u00edvel dos ecossistemas e a polui\u00e7\u00e3o que torna o ar de muitas cidades grandes cada vez mais irrespir\u00e1vel, como em Pequim e na Cidade do M\u00e9xico.<br \/>\n&#8211; O risco de uma cat\u00e1strofe nuclear muito maior do que as de Chernobil e Fukushima.<br \/>\n&#8211; A escassez de recursos energ\u00e9ticos (petr\u00f3leo, g\u00e1s), minerais ou alimentares que permitiram o crescimento, e tamb\u00e9m a guerra pelo acesso a esses recursos.<br \/>\n&#8211; A continuidade, o surgimento, o crescimento ou o retorno do desemprego, da exclus\u00e3o ou da mis\u00e9ria praticamente em toda parte e, em particular, na velha Europa, cuja prosperidade parecia assegurada.<br \/>\n&#8211; As disparidades de riqueza que, em toda parte, se tornaram enormes entre os mais pobres e os mais ricos. Elas alimentam uma luta de todos contra todos em uma l\u00f3gica generalizada de avidez e contribuem para a forma\u00e7\u00e3o de oligarquias que n\u00e3o respeitam, a n\u00e3o ser em palavras, as normas democr\u00e1ticas.<br \/>\n&#8211; O colapso dos agrupamentos pol\u00edticos herdados, ou a impot\u00eancia de constituir<br \/>\nnovos, o que leva \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de guerras civis, tribais ou inter\u00e9tnicas.<br \/>\n&#8211; A perspectiva do poss\u00edvel retorno das grandes guerras entre estados, e que seriam, sem d\u00favida, infinitamente mais mort\u00edferas do que as precedentes.<br \/>\n&#8211; O desenvolvimento planet\u00e1rio de um terrorismo cego, viol\u00eancia do fraco contra o forte.<br \/>\n&#8211; A inseguran\u00e7a crescente, social, ecol\u00f3gica, c\u00edvica \u00e0 qual respondem os excessos das ideologias de seguran\u00e7a.<br \/>\n&#8211; A prolifera\u00e7\u00e3o de redes criminais ocultas e de m\u00e1fias cada vez mais violentas.<br \/>\n&#8211; Seus la\u00e7os difusos e preocupantes com os para\u00edsos fiscais e o mundo da alta finan\u00e7a rentista e especulativa.<br \/>\n&#8211; O peso crescente das exig\u00eancias dessa alta finan\u00e7a rentista e especulativa em todas as decis\u00f5es pol\u00edticas.<br \/>\n&#8211; Etc.<\/p>\n<p><strong>As promessas do presente<\/strong><br \/>\nNo entanto, ao contr\u00e1rio, se todas as amea\u00e7as estivessem afastadas, quantas potencialidades e perspectivas de desenvolvimento individual e coletivo nosso mundo comporta!<br \/>\n&#8211; O triunfo mundial do princ\u00edpio democr\u00e1tico ser\u00e1 infinitamente mais demorado e complexo do que se poderia pensar depois da queda do Muro de Berlim em 1989, mesmo porque esse princ\u00edpio foi desvirtuado pelas suas rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas com um capitalismo rentista e especulativo que, em grande parte, o esvaziou de seu conte\u00fado e de sua sedu\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 sempre em nome da democracia que ao redor do mundo se subleva, como atestam, por exemplo, as revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes, por mais inacabadas e amb\u00edguas que elas sejam.<br \/>\n&#8211; Torna-se, assim, realmente conceb\u00edvel acabar com todos os poderes ditatoriais ou corrompidos, gra\u00e7as especialmente ao aumento de circula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; A sa\u00edda da era colonial e o decl\u00ednio do \u201cocidentalcentrismo\u201d abrem caminho para um verdadeiro di\u00e1logo de civiliza\u00e7\u00f5es que, em contrapartida, torna poss\u00edvel o advento de um novo universalismo. Um universalismo de v\u00e1rias vozes, um pluriversalismo.<br \/>\n&#8211; Esse universalismo plural implica em uma igualdade de direitos e em uma paridade entre homens e mulheres finalmente encontrada.<br \/>\n&#8211; Ele \u00e9, ao mesmo tempo, a express\u00e3o e a resultante de novos modos de participa\u00e7\u00e3o e expertise cidad\u00e3s formadas por uma consci\u00eancia ecol\u00f3gica agora global, e que submete ao debate p\u00fablico a pr\u00f3pria quest\u00e3o do \u201cbem viver\u201d, do \u201cdesenvolvimento\u201d ou do \u201ccrescimento\u201d.<br \/>\n&#8211; As tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e de comunica\u00e7\u00e3o multiplicam as possibilidades de cria\u00e7\u00e3o e de realiza\u00e7\u00e3o pessoal, seja no campo da arte ou do saber, da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, da participa\u00e7\u00e3o nos assuntos da cidade, do esporte ou das rela\u00e7\u00f5es humanas atrav\u00e9s do mundo.<br \/>\n&#8211; O exemplo do Wikipedia ou do Linux mostra a dimens\u00e3o do que \u00e9 poss\u00edvel realizar em mat\u00e9ria de inven\u00e7\u00e3o e de mutualismo de pr\u00e1ticas e de saberes.<br \/>\n&#8211; A generaliza\u00e7\u00e3o dos modos de produ\u00e7\u00e3o e de troca descentralizados e aut\u00f4nomos torna cr\u00edvel a busca da \u201ctransi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d, em especial, no plano da economia social e solid\u00e1ria, em rela\u00e7\u00e3o ao qual conv\u00e9m assinalar a importante contribui\u00e7\u00e3o das mulheres.<br \/>\n&#8211; A erradica\u00e7\u00e3o da fome e da mis\u00e9ria constitui um objetivo de agora em diante acess\u00edvel, na perspectiva de uma reparti\u00e7\u00e3o mais justa dos recursos materiais existentes e no quadro das novas alian\u00e7as entre os atores do Norte e do Sul.<br \/>\n&#8211; A esperan\u00e7a da cura do c\u00e2ncer ou da aids n\u00e3o \u00e9 mais ut\u00f3pica. &#8211; Etc.<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo I: O desafio central<\/strong><br \/>\nMas nenhuma dessas potencialidades poder\u00e1 se produzir plenamente se n\u00f3s n\u00e3o soubermos enfrentar as amea\u00e7as de toda a esp\u00e9cie que nos assaltam. As primeiras s\u00e3o de ordem, principalmente, material, t\u00e9cnica, ecol\u00f3gica e econ\u00f4mica. Poder\u00edamos qualific\u00e1- las como amea\u00e7as entr\u00f3picas. Apesar dos enormes problemas que elas suscitam, poder\u00edamos talvez, em princ\u00edpio, dar respostas da mesma ordem. O que nos impede de faz\u00ea-lo \u00e9, primeiro, o fato de que v\u00e1rias dentre elas n\u00e3o s\u00e3o ainda imediatamente manifestas para todos, e \u00e9 dif\u00edcil se mobilizar contra riscos parcialmente indefinidos e de prazo incerto. Tal mobiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 conceb\u00edvel sen\u00e3o em termos de uma \u00e9tica do futuro. Todavia, mais profundamente, o que nos paralisa \u00e9 o fato de que somos ainda muito impotentes em sequer imaginar respostas ao segundo tipo de amea\u00e7as. Amea\u00e7as de ordem moral e pol\u00edtica. Amea\u00e7as que poder\u00edamos qualificar como antr\u00f3picas.<\/p>\n<p><strong>A m\u00e3e de todas as amea\u00e7as<\/strong><br \/>\n\u00c9 preciso, a partir de agora, nos colocar em situa\u00e7\u00e3o de enfrentar uma conclus\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o evidente quanto dram\u00e1tica:<br \/>\nA humanidade soube realizar progressos t\u00e9cnicos e cient\u00edficos fulminantes, mas ela permanece ainda incapaz de resolver seu problema essencial: como gerir a rivalidade e a viol\u00eancia entre os seres humanos? Como incit\u00e1-los a cooperar para que se desenvolvam e deem o melhor de si, permitindo-lhes ao mesmo tempo se opor sem se massacrar? Como criar obst\u00e1culos \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de poder, a partir de agora ilimitada e potencialmente autodestrutiva, sobre os homens e sobre a natureza? Se n\u00e3o souber rapidamente responder a essas quest\u00f5es, a humanidade desaparecer\u00e1, muito embora todas as condi\u00e7\u00f5es materiais estejam reunidas para que ela prospere, contanto que tomemos definitivamente consci\u00eancia de suas finitudes.<\/p>\n<p><strong>As respostas existentes<\/strong><br \/>\nDispomos de m\u00faltiplos elementos de resposta oferecidos ao longo dos s\u00e9culos por religi\u00f5es, morais, doutrinas pol\u00edticas, filosofia e ci\u00eancias humanas e sociais, quando n\u00e3o ca\u00edram em um sectarismo, moralismo e idealismo, ora impotentes, ora mortais, ou, enfim, em um cientificismo est\u00e9ril. Esses s\u00e3o elementos preciosos, que conv\u00e9m reunir e explicitar o mais rapidamente poss\u00edvel, de maneira que seja facilmente compreens\u00edvel e partilh\u00e1vel por todos ao redor do mundo \u2013 a imensa maioria \u2013 que veem suas esperan\u00e7as frustradas, sofrem as mudan\u00e7as em curso, ou as temem, e que desejam contribuir, cada um conforme sua medida e segundo seus meios, para o cuidado e a salvaguarda do mundo e da humanidade.<br \/>\nAs iniciativas que v\u00e3o nesse sentido s\u00e3o inumer\u00e1veis, produzidas por dezenas de milhares de organiza\u00e7\u00f5es ou associa\u00e7\u00f5es, e por dezenas ou centenas de milh\u00f5es de pessoas. Essas iniciativas se apresentam sob nomes, sob formas ou em escalas infinitamente variadas: a defesa dos direitos do homem, do cidad\u00e3o, do trabalhador, do desempregado, da mulher ou das crian\u00e7as; a economia social e solid\u00e1ria com todas os seus componentes: as cooperativas de produ\u00e7\u00e3o ou de consumo, o mutualismo, o com\u00e9rcio equitativo, as moedas paralelas ou complementares, os sistemas de troca local, as diversas associa\u00e7\u00f5es de apoio m\u00fatuo; a economia da contribui\u00e7\u00e3o digital (cf. Linux, Wikipedia etc.); o decrescimento e o p\u00f3s-desenvolvimento; os movimentos slow food, slow town, slow science; a reivindica\u00e7\u00e3o do buen vivir, a afirma\u00e7\u00e3o dos direitos da natureza e o elogio \u00e0 pachamama; o altermundialismo, a ecologia pol\u00edtica e a democracia radical, os indignados, Occupy Wall Street; a busca de indicadores de riqueza alternativos, os movimentos de transforma\u00e7\u00e3o pessoal, de simplicidade volunt\u00e1ria, de abund\u00e2ncia frugal, de di\u00e1logo de civiliza\u00e7\u00f5es, as teorias do care, os novos pensamentos dos communs etc.<br \/>\nPara que essas iniciativas t\u00e3o ricas possam se contrapor, com for\u00e7a suficiente, \u00e0s din\u00e2micas mort\u00edferas de nosso tempo e para que elas n\u00e3o sejam confinadas a um papel paliativo ou de simples contesta\u00e7\u00e3o, torna-se crucial reunir suas for\u00e7as e suas energias, da\u00ed a import\u00e2ncia de destacar e nomear o que elas t\u00eam em comum.<br \/>\nO que essas propostas t\u00eam em comum \u00e9 a busca por um convivialismo (adotemos esse termo, j\u00e1 que precisamos identificar uma base doutrinal m\u00ednima comum), por uma arte de viver juntos (con-vivere) que valorize a rela\u00e7\u00e3o e a coopera\u00e7\u00e3o e permita se opor sem se massacrar, cuidando do outro e da Natureza e favorecendo a abertura cooperativa com eles. Isso mesmo, opondo-se, pois seria n\u00e3o somente ilus\u00f3rio, mas tamb\u00e9m nefasto buscar construir uma sociedade que ignora o conflito entre os grupos e entre os indiv\u00edduos. Ele existe necessariamente e naturalmente em toda a sociedade. N\u00e3o somente porque em todo lugar e sempre os interesses e os pontos de vista diferem, entre pais e filhos, entre primog\u00eanitos e mais novos, homens e mulheres, entre os mais ricos e os mais pobres, os mais poderosos e os sem poder, entre os afortunados e os desafortunados etc., mas tamb\u00e9m porque, de modo mais geral, todo ser humano aspira a se ver reconhecido em sua singularidade, resultando ent\u00e3o em uma parte de rivalidade t\u00e3o potente e primordial quanto a aspira\u00e7\u00e3o, igualmente partilhada, \u00e0 conc\u00f3rdia e \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o. A sociedade s\u00e3 \u00e9 aquela que sabe fazer jus ao desejo de reconhecimento de todos e \u00e0 sua parte de rivalidade, de aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 supera\u00e7\u00e3o permanente de si e de abertura ao risco que ela comporta, impedindo que se transforme em desmedida, em hubris, e favorecendo, ao contr\u00e1rio, a abertura cooperativa ao outro. A sociedade sabe dar lugar \u00e0 diversidade dos indiv\u00edduos, dos grupos, dos povos, dos Estados e das na\u00e7\u00f5es, afastando o risco da rivalidade se transformar em guerra de todos contra todos. Em uma palavra, \u00e9 preciso fazer do conflito uma for\u00e7a de vida e n\u00e3o de morte. E da rivalidade, um meio de coopera\u00e7\u00e3o, uma arma para dissipar a viol\u00eancia destrutiva.<br \/>\nA aposta a ser feita de agora em diante \u00e9 justamente o que se busca desde o in\u00edcio da hist\u00f3ria humana: um fundamento s\u00f3lido, ao mesmo tempo \u00e9tico, econ\u00f4mico, ecol\u00f3gico e pol\u00edtico, para a exist\u00eancia comum. Nunca verdadeiramente encontrado ou sempre rapidamente esquecido. Ele \u00e9 buscado na refer\u00eancia ao sagrado, entre as primeiras religi\u00f5es como entre as grandes religi\u00f5es ou quase religi\u00f5es universais: tao\u00edsmo, hindu\u00edsmo, budismo, confucionismo, juda\u00edsmo, cristianismo, islamismo. \u00c9 buscado, ainda, na refer\u00eancia \u00e0 raz\u00e3o, entre todas as grandes filosofias ou morais laicas e humanistas. Buscado, enfim, na refer\u00eancia \u00e0 liberdade, atrav\u00e9s das grandes ideologias pol\u00edticas da modernidade: liberalismo, socialismo, comunismo ou anarquismo. O que muda sempre \u00e9 a maior ou menor \u00eanfase aplicada \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es ou \u00e0s esperan\u00e7as acordadas respectivamente ao indiv\u00edduo (a moral) ou ao coletivo (a pol\u00edtica), \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com a natureza (ecologia) e com o sobrenatural (religi\u00e3o) ou ao bem-estar material (a economia), conforme diferentes escalas espaciais e diferenciais. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, com efeito, aprender a viver junto, reconhecendo as identidades e as diferen\u00e7as n\u00e3o mort\u00edferas a alguns ou a milh\u00f5es ou a bilh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo II: <\/strong><strong>As quatro (mais uma) quest\u00f5es de base<\/strong><br \/>\nNesse momento, n\u00f3s precisamos, com toda a urg\u00eancia, de uma base doutrinal m\u00ednima partilh\u00e1vel que permita responder simultaneamente e em escala planet\u00e1ria, ao menos, a quatro quest\u00f5es essenciais:<br \/>\nAs quatro (mais uma) quest\u00f5es de base<br \/>\n&#8211; A quest\u00e3o moral: o que \u00e9 permitido aos indiv\u00edduos esperar e o que devem eles se proibir?<br \/>\n&#8211; A quest\u00e3o pol\u00edtica: quais s\u00e3o as comunidades pol\u00edticas leg\u00edtimas?<br \/>\n&#8211; A quest\u00e3o ecol\u00f3gica: o que nos \u00e9 permitido retirar da natureza e o que devemos lhe restituir?<br \/>\n&#8211; A quest\u00e3o econ\u00f4mica: qual quantidade de riqueza material nos \u00e9 permitido produzir, e como devemos faz\u00ea-lo, de modo a estar de acordo com as respostas dadas \u00e0s quest\u00f5es moral, pol\u00edtica e ecol\u00f3gica?<br \/>\n&#8211; Cada um \u00e9 livre para adicionar ou n\u00e3o a essas quatro quest\u00f5es aquela concernente ao sobrenatural ou ao invis\u00edvel: a quest\u00e3o religiosa ou espiritual.<br \/>\n\u00c9 preciso constatar que nenhuma das doutrinas herdadas, religiosas ou laicas, respondem satisfatoriamente e simultaneamente a essas quatro (ou cinco) quest\u00f5es. E muito menos oferecem resposta satisfat\u00f3ria na escala e na dimens\u00e3o dos desafios planet\u00e1rios atuais. As religi\u00f5es, enquanto tal, penam em atualizar sua mensagem sobre a boa pol\u00edtica, a boa economia ou a boa ecologia. Ao contr\u00e1rio, as ideologias pol\u00edticas modernas \u2013 liberalismo, socialismo, comunismo ou anarquismo \u2013 permanecem, enquanto tal, mudas sobre a quest\u00e3o moral e sobre a quest\u00e3o ecol\u00f3gica. Todas elas pressupuseram que o conflito entre os homens nasce da escassez material e da dificuldade de satisfazer as necessidades materiais. Elas pensam os humanos como seres de necessidade e n\u00e3o de desejo. Elas depositaram suas esperan\u00e7as na perspectiva de um crescimento econ\u00f4mico infinito, supondo poder levar a paz perp\u00e9tua \u00e0 Terra. Ora, esse postulado n\u00e3o \u00e9 (ou n\u00e3o mais \u00e9) sustent\u00e1vel. A aspira\u00e7\u00e3o ao crescimento material desperta tantos conflitos entre os humanos, ou mais, quanto os que apazigua. E, sobretudo, n\u00e3o considera a finitude, de agora em diante evidente, do Planeta e de seus recursos naturais. Seja intrinsecamente desej\u00e1vel ou n\u00e3o, o crescimento econ\u00f4mico sem limites n\u00e3o pode ser a solu\u00e7\u00e3o perene para o conflito entre os homens. Com uma taxa de crescimento m\u00e9dio de 3,5% por ano, por exemplo, o PIB mundial seria multiplicado por 31 em um s\u00e9culo. Imagine 31 vezes mais petr\u00f3leo, ur\u00e2nio ou CO2 consumidos em<br \/>\n2100?<br \/>\nA impot\u00eancia crescente dos partidos e das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para enfrentar os problemas de nossa \u00e9poca e para ganhar, ou mesmo manter, a confian\u00e7a do maior n\u00famero se explica pela incapacidade de reformular o ideal democr\u00e1tico \u2013 o \u00fanico aceit\u00e1vel porque \u00e9 o \u00fanico a fazer jus \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o e ao conflito \u2013 rompendo com o duplo postulado que ainda rege o pensamento pol\u00edtico ordin\u00e1rio, pensamento esse que inspira a pol\u00edtica de governo, e o \u00fanico que pode hoje ter acesso ao poder:<br \/>\n<strong>Algumas tarefas do pensamento<\/strong><br \/>\n&#8211; O postulado do primado absoluto dos problemas econ\u00f4micos acima de todos os outros;<br \/>\n&#8211; O postulado da profus\u00e3o sem limite de recursos naturais (ou de seus substitutos t\u00e9cnicos).<br \/>\nAos problemas de hoje e de amanh\u00e3, as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas sob suas diferentes formas n\u00e3o sabem, por conseguinte, propor sen\u00e3o respostas de ontem.<br \/>\nO mesmo vale para o mundo intelectual e cient\u00edfico, e mais particularmente para o campo das ci\u00eancias sociais e da filosofia moral e pol\u00edtica. \u00c9 a partir desse campo, porque somos dele parte integrante e estamos em boa posi\u00e7\u00e3o para medir a fragilidade dos instrumentos te\u00f3ricos mobilizados, que n\u00f3s assumimos a responsabilidade de redigir este manifesto, esperando que ele encontre eco em outros campos.<br \/>\n\u00c9 importante compreender, efetivamente, que a financeiriza\u00e7\u00e3o geral do mundo e a subordina\u00e7\u00e3o de todas as atividades humanas a uma norma mercantil ou quase mercantil \u2013 sob a \u00e9gide do que chamamos geralmente neoliberalismo \u2013 foram precedidas e como que legitimadas previamente por uma esp\u00e9cie de revolu\u00e7\u00e3o ou de contrarrevolu\u00e7\u00e3o que se operou no mundo do pensamento econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social. Essa contrarrevolu\u00e7\u00e3o intelectual culminou na ideia de um \u201cFim da Hist\u00f3ria\u201d que veria o triunfo planet\u00e1rio do Mercado estendido a todas as atividades humanas e de uma ordem democr\u00e1tica serva desse \u00fanico fim. A partir dos anos de 1970, a ci\u00eancia econ\u00f4mica, que tinha at\u00e9 ent\u00e3o limitado suas ambi\u00e7\u00f5es a explicar o que se passa no mercado de bens e servi\u00e7os recorrendo \u00e0 figura do homo \u0153conomicus \u2013 i.e. \u00e0 hip\u00f3tese que os seres humanos, na esfera do Mercado, devem ser considerados como se eles fossem indiv\u00edduos separados, mutuamente indiferentes, e unicamente preocupados em maximizar sua vantagem individual \u2013, come\u00e7ou a estender a validade potencial de suas explica\u00e7\u00f5es \u00e0 integralidade das atividades humanas e sociais. Tudo, consequentemente, devia se explicar por c\u00e1lculos econ\u00f4micos racionais de rentabilidade. No essencial, as outras ci\u00eancias sociais iam seguir os passos dos economistas, seja em nome do individualismo metodol\u00f3gico ou de uma \u201ceconomia geral da pr\u00e1tica\u201d etc. Quanto \u00e0 filosofia pol\u00edtica, ela ia se organizar, a t\u00edtulo primeiro, em torno da quest\u00e3o de saber como definir e fazer aceitar normas de justi\u00e7a por indiv\u00edduos \u201cracionais\u201d, i.e., mutuamente indiferentes.<br \/>\nDesde o in\u00edcio dos anos de 1980, uma vis\u00e3o totalmente econ\u00f4mica do mundo social e mesmo do mundo natural triunfa no campo cient\u00edfico e filos\u00f3fico. A porta \u00e9, desde ent\u00e3o, amplamente aberta no mundo anglo-sax\u00e3o \u2013 e tendencialmente em um n\u00famero cada vez maior de pa\u00edses \u2013 para a destrui\u00e7\u00e3o de todas as regula\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas em proveito somente das regula\u00e7\u00f5es de mercado. Pois se os homens s\u00e3o apenas homens econ\u00f4micos, que outra linguagem poderiam compreender, com efeito, sen\u00e3o a do interesse individual, da barganha, do toma-l\u00e1-d\u00e1-c\u00e1 e do contrato?<br \/>\nCom base nesse postulado, o neomanagement se desenvolve e se expande amplamente no mundo, inclusive no setor p\u00fablico. Se supomos que n\u00e3o existe nenhuma \u201cmotiva\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca\u201d para o trabalho, que nada \u00e9 feito por senso de dever, por<br \/>\nsolidariedade ou por gosto do trabalho bem feito e do desejo de criar, ent\u00e3o n\u00e3o resta, realmente, sen\u00e3o as \u201cmotiva\u00e7\u00f5es extr\u00ednsecas\u201d a ativar, i.e., o gosto do ganho e da promo\u00e7\u00e3o na hierarquia \u2013 a libido dominandi. Benchmarking e reporting permanente tornam-se assim os instrumentos de base do lean management e da gest\u00e3o pelo estresse.<br \/>\nPouco a pouco, s\u00e3o todos os setores da exist\u00eancia e at\u00e9 os afetos e as rela\u00e7\u00f5es amistosas e amorosas que se encontram da mesma forma subordinados a uma l\u00f3gica cont\u00e1bil, t\u00e9cnica e gestion\u00e1ria.<br \/>\nMais especificamente, se o \u00fanico objetivo da exist\u00eancia \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ganhar o m\u00e1ximo de dinheiro poss\u00edvel, o lucro, por que n\u00e3o buscar maximiz\u00e1-lo, o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, gra\u00e7as \u00e0 especula\u00e7\u00e3o financeira? A generaliza\u00e7\u00e3o da norma de mercado ia assim abrir progressivamente a via para a norma da m\u00e1xima rentabilidade especulativa. E, em 2008, desembocar na crise dos subprimes, cujas \u201creplica\u00e7\u00f5es\u201d muito mais violentas e dolorosas s\u00e3o temidas.<br \/>\nSe o primeiro objetivo leg\u00edtimo atribu\u00eddo aos homens e valorizado socialmente, aquele que comanda todos os outros, \u00e9 enriquecer o m\u00e1ximo poss\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 de se surpreender que se desenvolva em todo lugar um clima de corrup\u00e7\u00e3o cada vez mais vasto por meio de um conluio crescente das classes pol\u00edticas e financeiras, ao mesmo tempo causa e efeito da universaliza\u00e7\u00e3o da normatividade especulativa e rentista.<br \/>\nA responsabilidade da ci\u00eancia econ\u00f4mica padr\u00e3o \u00e9 de ter amplamente contribu\u00eddo para forjar o mundo que ela pretendia descrever e explicar. De ter, com efeito, contribu\u00eddo para dar sempre mais realidade ao homo \u0153conomicus, em detrimento de todos os outros componentes daquilo que faz a humanidade. E de se mostrar, ao mesmo tempo, e mais evidentemente, incapaz de imaginar rem\u00e9dios plaus\u00edveis para a cat\u00e1strofe para a qual ela contribuiu. \u00c9 preciso acrescentar que ela se mostra igualmente incapaz de levar em conta a finitude da natureza, uma vez que raciocina com base na hip\u00f3tese de uma perfeita substitutibilidade dos recursos naturais esgotados ou destru\u00eddos pelos recursos fabricados, produtos da ci\u00eancia e da t\u00e9cnica. Uma tarefa intelectual e te\u00f3rica priorit\u00e1ria \u00e9, portanto, reconduzir a economia e a ci\u00eancia econ\u00f4mica ao seu lugar, reorientando em especial o olhar desta \u00faltima em dire\u00e7\u00e3o a setores inteiros da realidade que ela negligenciou consciente ou inconscientemente.<br \/>\nOutra prioridade \u00e9 tamb\u00e9m ajudar no desenvolvimento de ci\u00eancias humanas e sociais e de uma filosofia moral e pol\u00edtica definitivamente vacinadas contra o v\u00edrus do \u201ctudo econ\u00f4mico\u201d. Enfim, capazes de ver no ser humano, decididamente, outra coisa que n\u00e3o um simples homo \u0153conomicus e de pensar assim, em toda sua amplitude, os problemas que suscitam inevitavelmente o desejo leg\u00edtimo que todos os sujeitos t\u00eam de ter acesso a um justo reconhecimento. Como evitar que essas lutas por reconhecimento n\u00e3o se reduzam, como \u00e9 frequentemente o caso, a lutas de poder e a confrontos narc\u00edsicos que colocam em risco as quest\u00f5es e as causas em nome das quais elas pretendem se desenvolver?<br \/>\nEm suma, \u00e9 preciso aprender a pensar uma rela\u00e7\u00e3o mais duradoura com a<br \/>\nnatureza, mas tamb\u00e9m com a cultura. Isso implica em nos retirar resolutamente do horizonte do imediato ou do curto prazo e n\u00e3o somente nos projetarmos no futuro, mas tamb\u00e9m nos reapropriarmos de nosso passado. O passado de toda a humanidade na diversidade t\u00e3o rica de todas as suas tradi\u00e7\u00f5es culturais. \u00c9 um novo humanismo, radicalizado e abrangente, que se trata de inventar, e isso implica no desenvolvimento de novas humanidades.<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo III: Do convivialismo<\/strong><br \/>\nConvivialismo \u00e9 o nome dado a tudo aquilo que nas doutrinas existentes, laicas ou religiosas, concorre para a busca de princ\u00edpios que permitem aos seres humanos ao mesmo tempo rivalizar e cooperar, na plena consci\u00eancia da finitude dos recursos naturais e na preocupa\u00e7\u00e3o partilhada quanto ao cuidado com o mundo \u2013 e de nosso pertencimento ao mundo. N\u00e3o se trata de uma nova doutrina que viria se sobrepor a outras, com a inten\u00e7\u00e3o de anul\u00e1-las ou super\u00e1-las radicalmente. Ele \u00e9 o movimento de sua interroga\u00e7\u00e3o rec\u00edproca baseada no sentimento de extrema urg\u00eancia em face da cat\u00e1strofe poss\u00edvel. Ele pretende reter o que h\u00e1 de mais precioso em cada uma das doutrinas herdadas. E o que h\u00e1 de mais precioso? Como defini-lo e apreend\u00ea-lo? A essa quest\u00e3o n\u00e3o existe e n\u00e3o pode \u2013 e n\u00e3o deve \u2013 existir resposta \u00fanica e un\u00edvoca. Cabe a cada um decidi-lo. Existe, todavia, um crit\u00e9rio decisivo do que n\u00f3s podemos reter de cada doutrina em uma perspectiva de universaliza\u00e7\u00e3o ou de pluriversaliza\u00e7\u00e3o, impelidos duplamente pela imagem da cat\u00e1strofe poss\u00edvel e da esperan\u00e7a de um devir promissor para todos. Reter, exatamente, de cada doutrina a n\u00e3o ser o que permite compreender como controlar o conflito, para evitar que se degenere em viol\u00eancia, e cooperar condicionados pela limita\u00e7\u00e3o dos recursos. Admitindo-se a plausibilidade poss\u00edvel das respostas dadas por outras doutrinas a essa mesma quest\u00e3o, se abre ao di\u00e1logo e \u00e0 confronta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEssas considera\u00e7\u00f5es bastam para tra\u00e7ar os contornos gerais de uma doutrina universaliz\u00e1vel adaptada \u00e0s urg\u00eancias do momento e de escopo global, mesmo se sua aplica\u00e7\u00e3o concreta for necessariamente local ou conjuntural. E mesmo se for evidente que existir\u00e1 tantas variantes, eventualmente conflitantes, do convivialismo quanto do budismo, do isl\u00e3, do cristianismo, do liberalismo, do socialismo, do comunismo etc. At\u00e9 porque em nada os anula.<br \/>\n<strong>Considera\u00e7\u00f5es gerais<\/strong><br \/>\nA \u00fanica pol\u00edtica leg\u00edtima \u00e9 aquela que se inspira em um princ\u00edpio de comum humanidade, de comum socialidade, de individua\u00e7\u00e3o e de oposi\u00e7\u00e3o controlada.<br \/>\nPrinc\u00edpio de comum humanidade: acima das diferen\u00e7as de cor de pele, de nacionalidade, de idioma, de cultura, de religi\u00e3o ou de riqueza, de sexo ou de orienta\u00e7\u00e3o sexual, h\u00e1 somente uma humanidade, que deve ser respeitada na pessoa de cada um de seus membros.<br \/>\n\ufffc\ufffc<br \/>\nPrinc\u00edpio de comum socialidade: os seres humanos s\u00e3o seres sociais para quem a maior riqueza existente \u00e9 a riqueza de suas rela\u00e7\u00f5es sociais.<br \/>\nPrinc\u00edpio de individua\u00e7\u00e3o: em conformidade com os dois primeiros princ\u00edpios, a pol\u00edtica leg\u00edtima \u00e9 a que permite a cada um afirmar da melhor maneira sua individualidade singular em devir, desenvolvendo suas capabilidades, sua pot\u00eancia de ser e de agir sem prejudicar a dos outros, na perspectiva da igual liberdade.<br \/>\nPrinc\u00edpio de oposi\u00e7\u00e3o controlada: porque todos t\u00eam voca\u00e7\u00e3o para manifestar sua individualidade singular, \u00e9 natural que os humanos possam se opor. Mas s\u00f3 lhes \u00e9 leg\u00edtimo faz\u00ea-lo enquanto isso n\u00e3o coloca em perigo o marco de comum socialidade que torna essa rivalidade fecunda e n\u00e3o destrutiva. A pol\u00edtica boa \u00e9 por isso aquela que permite aos seres humanos se diferenciar, aceitando e controlando o conflito.<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo IV: Considera\u00e7\u00f5es morais, pol\u00edticas, ecol\u00f3gicas e econ\u00f4micas<\/strong><br \/>\nDetalhemos minimamente essas considera\u00e7\u00f5es gerais:<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es morais<\/strong><br \/>\nO que \u00e9 permitido a cada indiv\u00edduo esperar \u00e9 o reconhecimento de sua igual dignidade para com todos os outros seres humanos, \u00e9 ter acesso a condi\u00e7\u00f5es materiais suficientes para levar a cabo sua concep\u00e7\u00e3o de vida boa, com respeito \u00e0s concep\u00e7\u00f5es dos outros, e buscar dessa forma gozar do reconhecimento pelos outros, participando efetivamente, se o deseja, na vida pol\u00edtica e na tomada de decis\u00f5es que implicam seu futuro e o da sua comunidade.<br \/>\nO que lhe \u00e9 proibido \u00e9 cair em desmedida (a hubris dos Gregos), i.e. violar o princ\u00edpio de comum humanidade e por em perigo a comum socialidade, na inten\u00e7\u00e3o de pertencer a uma esp\u00e9cie superior ou a\u00e7ambarcar e monopolizar uma quantidade tal de bens ou poderes que a exist\u00eancia social de todos fica comprometida.<br \/>\nConcretamente, \u00e9 dever de cada um lutar contra a corrup\u00e7\u00e3o. Passivamente, isso implica recusar-se, em sua vida, em seu trabalho ou em suas atividades, a fazer em rela\u00e7\u00e3o ao dinheiro (ou ao poder ou ao prest\u00edgio institucional) o que a consci\u00eancia reprova. Recusar-se, assim, a se deixar desviar do que cremos justo e intrinsecamente desej\u00e1vel. Ativamente, isso implica em lutar contra a corrup\u00e7\u00e3o nos outros, na propor\u00e7\u00e3o dos meios e da coragem de que dispomos.<br \/>\nConsidera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<br \/>\n\ufffc\ufffc\ufffc\ufffc\ufffc\ufffc\ufffc\ufffc\ufffc\ufffc\ufffc<br \/>\n\u00c9 uma ilus\u00e3o esperar, em um futuro previs\u00edvel, pela constitui\u00e7\u00e3o de um Estado mundial. A forma de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dominante ser\u00e1 por um longo per\u00edodo aquela dos Estados \u2013 sejam nacionais, plurinacionais, pr\u00e9 ou p\u00f3s-nacionais \u2013 mesmo se novas formas pol\u00edticas forem buscadas, na Europa especialmente, e mesmo se existirem outros modos de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, notadamente via associa\u00e7\u00f5es e ONGs. Na perspectiva convivialista, um Estado, ou um governo, ou uma institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nova s\u00f3 podem ser considerados leg\u00edtimos se:<br \/>\n&#8211; Eles respeitam os quatro princ\u00edpios, de comum humanidade, de comum socialidade, de individua\u00e7\u00e3o e de oposi\u00e7\u00e3o controlada, e se facilitam a implementa\u00e7\u00e3o das considera\u00e7\u00f5es morais, ecol\u00f3gicas e econ\u00f4micas deles decorrentes;<br \/>\n&#8211; Esses princ\u00edpios se inscrevem no marco de uma universaliza\u00e7\u00e3o dos direitos, civis e pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m econ\u00f4micos, sociais, culturais, ambientais. Eles retomam e ampliam o esp\u00edrito da declara\u00e7\u00e3o da Filad\u00e9lfia (que em 1944 redefine os objetivos da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho), cujo artigo II estipulava que \u201ctodos os seres humanos, de qualquer ra\u00e7a, cren\u00e7a ou sexo, t\u00eam o direito de buscar progresso material e desenvolvimento espiritual, dentro da liberdade e da dignidade, da seguran\u00e7a econ\u00f4mica e com chances iguais\u201d. A pol\u00edtica boa \u00e9 uma pol\u00edtica da dignidade;<br \/>\n&#8211; Mais especificamente, os Estados leg\u00edtimos garantem a todos os seus cidad\u00e3os mais pobres um m\u00ednimo de recursos, uma renda b\u00e1sica, seja qual for sua forma, que os mant\u00e9m a salvo da abje\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e pro\u00edbe progressivamente aos mais ricos, via instaura\u00e7\u00e3o de uma renda m\u00e1xima, cair na abje\u00e7\u00e3o da extrema riqueza, ultrapassando um n\u00edvel que tornaria inoperantes os princ\u00edpios de comum humanidade e de comum socialidade;<br \/>\n&#8211; Eles zelam pelo bom equil\u00edbrio entre bens e interesses privados, comuns, coletivos e p\u00fablicos;<br \/>\n&#8211; Eles favorecem, antes e depois do Estado e do Mercado, a multiplica\u00e7\u00e3o das atividades coletivas e associativas, constitutivas de uma sociedade civil mundial em que o princ\u00edpio de autogoverno encontra seus direitos em uma pluralidade de espa\u00e7os de engajamento c\u00edvico, aqu\u00e9m e al\u00e9m dos Estados e das na\u00e7\u00f5es;<br \/>\n&#8211; Eles reconhecem nas m\u00faltiplas redes digitais, dentre as quais a Internet \u00e9 uma das principais, mas n\u00e3o a \u00fanica, uma formid\u00e1vel ferramenta de democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade e de inven\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es que nem o Mercado, nem o Estado foram capazes de produzir; eles as favorecem por meio de uma pol\u00edtica de abertura, de acesso gratuito, de neutralidade e de compartilhamento;<br \/>\n&#8211; Ao implementar uma pol\u00edtica de preserva\u00e7\u00e3o dos bens comuns existentes nas sociedades tradicionais, de incentivo \u00e0 emerg\u00eancia, \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o e \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o de novos bens comuns da humanidade, eles renovam fortemente a antiga heran\u00e7a dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<br \/>\n<strong>\ufffc<\/strong><br \/>\n<strong> Considera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas<\/strong><br \/>\nO Homem n\u00e3o pode mais se considerar como dono e senhor da Natureza. Tendo em vista que longe de se opor \u00e0 Natureza, ele faz parte dela, ele deve estabelecer com ela, ao menos metaforicamente, uma rela\u00e7\u00e3o de dom\/contradom. Para legar \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras um patrim\u00f4nio natural preservado, ele deve, portanto, devolver \u00e0 Natureza tanto ou mais do que dela toma ou recebe.<br \/>\n&#8211; O n\u00edvel de prosperidade material universaliz\u00e1vel em escala planet\u00e1ria \u00e9 aproximadamente aquele que os pa\u00edses mais ricos conheciam em m\u00e9dia por volta de 1970, com a condi\u00e7\u00e3o que o obtenhamos com as t\u00e9cnicas produtivas de hoje. Como n\u00e3o pode ser exigido o mesmo esfor\u00e7o ecol\u00f3gico dos pa\u00edses que mais extra\u00edram da Natureza ap\u00f3s s\u00e9culos e daqueles que come\u00e7am somente agora a faz\u00ea-lo, i.e, aos mais ricos e aos mais pobres, respectivamente, cabe aos pa\u00edses mais opulentos fazer de tal forma que suas explora\u00e7\u00f5es da Natureza diminuam regularmente em rela\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es dos anos de 1970. Se eles querem preservar seu n\u00edvel de vida atual, o progresso das t\u00e9cnicas deve consagrar-se prioritariamente a esse objetivo;<br \/>\n&#8211; A prioridade absoluta \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de CO2 e o recurso priorit\u00e1rio a energias renov\u00e1veis alternativas tanto \u00e0 energia nuclear quanto ao petr\u00f3leo;<br \/>\n&#8211; A rela\u00e7\u00e3o de dom\/contradom deve se exercer especialmente com os animais, que devem deixar de ser considerados como material industrial. E, mais genericamente, com a Terra.<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas<\/strong><br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 correla\u00e7\u00e3o comprovada entre riqueza monet\u00e1ria ou material, de um lado, e felicidade ou bem-estar, de outro. O estado ecol\u00f3gico do planeta torna necess\u00e1rio buscar todas as formas poss\u00edveis de prosperidade sem crescimento. \u00c9 necess\u00e1rio para isso, em uma perspectiva de economia plural, instaurar um equil\u00edbrio entre Mercado, economia p\u00fablica e economia de tipo associativo (social e solid\u00e1ria), dependendo se os bens ou os servi\u00e7os a serem produzidos s\u00e3o individuais, coletivos ou comuns.<br \/>\n&#8211; O mercado e a busca por uma rentabilidade monet\u00e1ria s\u00e3o plenamente leg\u00edtimos desde que respeitem \u2013 notadamente via direitos (sociais e) sindicais \u2013 os postulados de comum humanidade e de comum socialidade, e que estejam em coer\u00eancia com as considera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas precedentes;<br \/>\n&#8211; Isso implica no estabelecimento de um teto aos ganhos e ao patrim\u00f4nio dos dirigentes de empresa ou das estrelas do esporte ou do show business, que pode ser relativamente elevado, mas n\u00e3o al\u00e9m do que sup\u00f5e o senso de dec\u00eancia comum (common decency);<br \/>\n&#8211; A prioridade \u00e9 lutar contra as derivas rentistas e especulativas da economia<br \/>\nfinanceira que s\u00e3o a principal causa da desmedida capitalista. Isso implica em impedir a dissocia\u00e7\u00e3o entre economia real e economia financeira, regulando de perto a atividade banc\u00e1ria e os mercados financeiros e de mat\u00e9rias-primas, limitando o tamanho dos bancos e dando fim aos para\u00edsos fiscais;<br \/>\n&#8211; Assim se tornar\u00e1 poss\u00edvel o desenvolvimento efetivo de todas as riquezas humanas, que est\u00e3o bem longe de se reduzir unicamente \u00e0 riqueza econ\u00f4mica, material ou monet\u00e1ria: o sentido de dever cumprido, da solidariedade ou do l\u00fadico; todas as formas de criatividade art\u00edstica, t\u00e9cnica, cient\u00edfica, liter\u00e1ria, te\u00f3rica, esportiva etc. Em uma palavra, toda riqueza inerente a uma forma ou outra de gratuidade e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com os outros.<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo V: E mais concretamente?<\/strong><br \/>\nEdificar uma sociedade convivial universaliz\u00e1vel, que vise assegurar a todos uma prosperidade e um bem-estar satisfat\u00f3rios, sem contar com um crescimento forte e perp\u00e9tuo, que se tornou imposs\u00edvel e perigoso e, para isso, lutar contra todas as formas de ilimita\u00e7\u00e3o e de desmedida \u2013 como se nota, o desafio \u00e9 consider\u00e1vel. E a tarefa, \u00e1rdua e perigosa. N\u00e3o se deve dissimular o fato de que ser\u00e1 preciso, para obter \u00eaxito, enfrentar for\u00e7as extraordin\u00e1rias e tem\u00edveis tanto financeiras, quanto materiais, t\u00e9cnicas, cient\u00edficas ou intelectuais, militares e criminais.<br \/>\n<strong>Que fazer?<\/strong><br \/>\nContra essas for\u00e7as colossais e frequentemente invis\u00edveis e ilocaliz\u00e1veis, as tr\u00eas armas principais ser\u00e3o:<br \/>\n&#8211; A indigna\u00e7\u00e3o experimentada em face da desmedida e da corrup\u00e7\u00e3o e a vergonha, que se faz necess\u00e1ria de ser sentida por aqueles que diretamente ou indiretamente, ativamente ou passivamente, violam os princ\u00edpios de comum humanidade e de comum socialidade;<br \/>\n&#8211; O sentimento de pertencimento a uma comunidade humana mundial. Sentimento de ser milh\u00f5es, dezenas de milh\u00f5es, ou mesmo bilh\u00f5es de indiv\u00edduos, de todos os pa\u00edses, de todas as l\u00ednguas, de todas as culturas e religi\u00f5es, de toda a condi\u00e7\u00e3o social, a participar no mesmo combate por um mundo plenamente humanizado. \u00c9 preciso, para isso, que eles possam partilhar um s\u00edmbolo comum que os designa como lutando contra a corrup\u00e7\u00e3o e a ilimita\u00e7\u00e3o;<br \/>\n&#8211; Muito al\u00e9m das \u201cescolhas racionais\u201d de uns e de outros, a mobiliza\u00e7\u00e3o dos afetos e das paix\u00f5es. Nada se faz sem eles, seja a pior ou a melhor das coisas. O pior \u00e9 o apelo ao assassinato, que nutre as paix\u00f5es totalit\u00e1rias, sect\u00e1rias e extremistas. O melhor \u00e9 o que pode conduzir \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o, em escala planet\u00e1ria, de sociedades efetivamente democr\u00e1ticas, civilizadas e convivialistas;<br \/>\n&#8211; Sobre essas bases ser\u00e1 poss\u00edvel, aos que se reconhecem nos princ\u00edpios do convivialismo, influenciar radicalmente no jogo pol\u00edtico institu\u00eddo e empregar toda a sua criatividade para inventar outras maneiras de viver, de produzir, de brincar, de amar, de pensar e de ensinar. Viver convivialmente. Rivalizar-se sem se odiar ou se destruir. Isso tudo em uma perspectiva ao mesmo tempo de reterritorializa\u00e7\u00e3o e de relocaliza\u00e7\u00e3o e de abertura \u00e0 sociedade mundial em vias de se edificar;<br \/>\n&#8211; Localmente, ou em um e outro setor determinado de atividade, conselhos livremente constitu\u00eddos sondar\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de implementa\u00e7\u00e3o efetiva dos princ\u00edpios convivialistas. Comunicando com seus hom\u00f3logos de outras regi\u00f5es, de outros pa\u00edses ou de outros continentes, eles tecer\u00e3o a trama de uma sociedade civil mundial associacionista;<br \/>\n&#8211; A Internet, as novas tecnologias e a ci\u00eancia estar\u00e3o ao servi\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o dessa sociedade civil ao mesmo tempo local e mundial. E ao mesmo tempo poderosamente enraizada e aberta \u00e0 alteridade. Assim se desenha um novo Progressismo, livre de todo economismo e de todo cientificismo;<br \/>\n&#8211; Talvez, para simbolizar e encarnar a unidade do convivialismo, para se pronunciar, com uma autoridade e uma repercuss\u00e3o midi\u00e1tica suficientes, sobre as m\u00faltiplas quest\u00f5es urgentes a decidir, seria sensato, em conex\u00e3o com todas as redes de conselhos convivialistas, criar um esbo\u00e7o de Assembleia Mundial compreendendo os representantes da sociedade civil mundial associacionista, da filosofia, das ci\u00eancias humanas e sociais e das diferentes correntes \u00e9ticas, espirituais e religiosas que se reconhecem nos princ\u00edpios do convivialismo.<\/p>\n<p><strong>Ruptura e transi\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nO mais dif\u00edcil, no intuito de possibilitar uma grande inflex\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica mundial indispens\u00e1vel para se desviar da trajet\u00f3ria que leva ao caos e \u00e0 cat\u00e1strofe prov\u00e1veis \u2013 ou em todo caso poss\u00edveis \u2013, \u00e9 propor um conjunto de medidas pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais que permitam ao maior n\u00famero mensurar o que ele tem a ganhar com um novo acordo (um New Deal) convivialista, n\u00e3o somente em m\u00e9dio e longo prazo, mas imediatamente. J\u00e1 a partir de amanh\u00e3. N\u00e3o pode haver uma resposta absolutamente geral para essa quest\u00e3o. Muitas coisas dependem do contexto espec\u00edfico, hist\u00f3rico, geogr\u00e1fico, cultural, pol\u00edtico etc., pr\u00f3prio a cada pa\u00eds, regi\u00e3o ou conjunto suprarregional ou supranacional. Mas toda pol\u00edtica convivialista concreta e aplicada dever\u00e1 necessariamente levar em considera\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8211; O imperativo da justi\u00e7a e da comum socialidade, que implica na redu\u00e7\u00e3o das desigualdades vertiginosas que explodiram em todos os lugares desde os anos 1970 entre os mais ricos e o resto da popula\u00e7\u00e3o, e a instaura\u00e7\u00e3o conjugada de uma renda m\u00ednima e de uma renda m\u00e1xima, a um ritmo mais ou menos r\u00e1pido conforme as circunst\u00e2ncias locais;<br \/>\n&#8211; A preocupa\u00e7\u00e3o de dar vida aos territ\u00f3rios e \u00e0s localidades, e assim de reterritorializar e de relocalizar o que a globaliza\u00e7\u00e3o tanto desterritorializou e deslocalizou. S\u00f3 pode existir convivialismo na abertura aos outros, certamente, mas tamb\u00e9m em um entre si suficientemente s\u00f3lido para que seja fonte de confian\u00e7a e cordialidade;<br \/>\n&#8211; A absoluta necessidade de preservar o meio ambiente e os recursos naturais; responder a isso n\u00e3o deve ser visto como uma carga ou um fardo suplementar, mas, ao contr\u00e1rio, como uma formid\u00e1vel oportunidade de inventar novos modos de vida, de encontrar novas fontes de criatividade e de dinamizar novamente os territ\u00f3rios;<br \/>\n&#8211; A obriga\u00e7\u00e3o imperiosa de fazer o desemprego desaparecer e oferecer a todos uma fun\u00e7\u00e3o e um papel reconhecidos entre as atividades \u00fateis \u00e0 sociedade. O desenvolvimento de pol\u00edticas de reterritorializa\u00e7\u00e3o e de luta contra os desafios ambientais contribuir\u00e1 para isso fortemente. Mas essa pol\u00edtica de redistribui\u00e7\u00e3o dos empregos s\u00f3 poder\u00e1 ganhar toda amplitude e ter efeitos potencialmente significativos se combinada com medidas de diminui\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho e com forte incentivo \u00e0 expans\u00e3o da economia associacionista (social e solid\u00e1ria).<br \/>\nNa Europa, uma fragilidade a mais se instaurou em raz\u00e3o da acelera\u00e7\u00e3o imprudente de uma integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e monet\u00e1ria n\u00e3o coordenada com nenhuma integra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social. Essa dessincroniza\u00e7\u00e3o terminou por deixar muitos pa\u00edses europeus em um estado de impot\u00eancia e de afli\u00e7\u00e3o insuport\u00e1vel. Qualquer solu\u00e7\u00e3o a ser adotada deve absolutamente ter como objetivo conjugar de novo, sob uma forma ou outra: soberania monet\u00e1ria, soberania pol\u00edtica e soberania social.<br \/>\nA tradu\u00e7\u00e3o do convivialismo em a\u00e7\u00f5es concretas deve articular, na pr\u00e1tica, respostas \u00e0 urg\u00eancia de melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida das camadas populares e a edifica\u00e7\u00e3o de uma alternativa ao modo de exist\u00eancia atual t\u00e3o carregado de m\u00faltiplas amea\u00e7as. Uma alternativa que cessar\u00e1 de fazer crer que o crescimento econ\u00f4mico ilimitado ainda poderia ser a solu\u00e7\u00e3o para todos nossos males.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este pequeno livro \u00e9 o resultado provis\u00f3rio de uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es travadas h\u00e1 um ano e meio no seio de um grupo de aproximadamente quarenta autores franc\u00f3fonos, representativos de numerosas correntes de pensamento e de a\u00e7\u00e3o que tentam tra\u00e7ar os contornos de um outro mundo poss\u00edvel. 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