{"id":10100,"date":"2025-03-16T07:18:54","date_gmt":"2025-03-16T10:18:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10100"},"modified":"2025-03-16T07:53:13","modified_gmt":"2025-03-16T10:53:13","slug":"posse-de-sarney-mostrou-que-nossa-democracia-nao-e-para-principiantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/posse-de-sarney-mostrou-que-nossa-democracia-nao-e-para-principiantes\/","title":{"rendered":"Posse de Sarney mostrou que nossa democracia n\u00e3o \u00e9 para principiantes"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Tanto os militares fracassaram no seu projeto autorit\u00e1rio, quanto os setores da oposi\u00e7\u00e3o que imaginavam uma ruptura que se confundisse com a revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Como resistir ao chiste de Ant\u00f4nio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom Jobim, sobre a complexidade da terra em que nascemos: &#8220;O Brasil n\u00e3o \u00e9 para principiantes&#8221;? Esses 40 anos de redemocratiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma prova disso. Alguns, mesmo hoje, por incompreens\u00e3o pol\u00edtica ou dogma ideol\u00f3gico, ainda torcem o nariz para o ex-presidente Jos\u00e9 Sarney, cuja posse, em 15 de mar\u00e7o de 1985, marcou o fim da ditadura militar. Entretanto, foi o pol\u00edtico que legalizou os partidos comunistas e convocou a Constituinte de 1985, sem a qual n\u00e3o ter\u00edamos as institui\u00e7\u00f5es capazes de barrar a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, cujo objetivo era destituir o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p>Ontem, comemorou-se a posse de Sarney como um marco inaugural da ordem democr\u00e1tica que temos hoje, num evento hist\u00f3rico realizado no Pante\u00e3o da P\u00e1tria, na Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, pela Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira e o Cidadania, com apoio do Correio Braziliense. Hoje, em Copacabana, haver\u00e1 uma grande manifesta\u00e7\u00e3o de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e em defesa da anistia aos condenados por invadirem os pr\u00e9dios da Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, vandalizando o Pal\u00e1cio do Planalto, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF).<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/03\/7084933-especial-40-anos-de-democracia-nova-republica-comeca-com-medos-e-receios.html\"><strong>Nova Rep\u00fablica come\u00e7a com medos e receios<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um retrato do &#8220;estado da arte&#8221; na qual a democracia brasileira se encontra, um momento complexo, como outros que j\u00e1 vivemos e devemos revisitar, para compreender no passado os riscos que corremos do presente. A transi\u00e7\u00e3o do regime militar para a democracia n\u00e3o foi fruto de um projeto nem de uma ruptura pol\u00edtica radical. Havia, sim, um projeto de institucionaliza\u00e7\u00e3o do regime militar, que propunha uma esp\u00e9cie de &#8220;mexicaniza\u00e7\u00e3o&#8221; do Brasil, num modelo parecido com o do Partido da Revolu\u00e7\u00e3o Institucional (PRI), que governava o M\u00e9xico h\u00e1 d\u00e9cadas, mais ou menos como ocorre hoje na pequena Cingapura, com o Partido da A\u00e7\u00e3o Popular, uma s\u00edntese de moderniza\u00e7\u00e3o com partido dominante, que serve de modelo para regimes &#8220;iliberais&#8221; no mundo.<\/p>\n<p>O modelo liberal adotado por Roberto Campos no governo Castelo Branco, logo ap\u00f3s o golpe militar de 1964, derivou na d\u00e9cada de 1970 para um capitalismo de Estado, que havia sido expandido pelos militares e entrara em crise com o &#8220;choque do petr\u00f3leo&#8221; de 1973. Houve tamb\u00e9m a perda de controle do processo de distens\u00e3o pol\u00edtica que havia sido implementado pelo governo Geisel para conter a oposi\u00e7\u00e3o, ainda que a pol\u00edtica de exterm\u00ednio de l\u00edderes oposicionistas tenha se mantido em seu governo, at\u00e9 a morte do jornalista Vladimir Herzog e o do oper\u00e1rio Manuel Fiel, em 1975, numa unidade do Ex\u00e9rcito em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Tanto os militares fracassaram nesse processo, quanto os setores da oposi\u00e7\u00e3o que imaginavam uma ruptura com o regime que se confundisse com uma revolu\u00e7\u00e3o, como ocorreu na Nicar\u00e1gua, em 1979. A anistia aprovada pelo Congresso no governo de Jo\u00e3o Figueiredo foi mais um exemplo de que as coisas no Brasil sempre t\u00eam singularidade: tanto os oposicionistas quanto carcereiros, torturadores e assassinos foram anistiados. A volta dos principais l\u00edderes de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vida pol\u00edtica veio acompanhada de uma reforma partid\u00e1ria que restabeleceu o pluripartidarismo e deu in\u00edcio a um processo de transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cuja g\u00eanese pol\u00edtica pode ser localizada na espetacular vit\u00f3ria eleitoral do MDB em 1974.<\/p>\n<p><strong>Frente ampla<\/strong><\/p>\n<p>Os grupos que haviam aderido \u00e0 luta armada foram dizimados pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, por\u00e9m, as vit\u00f3rias eleitorais consolidaram o MDB como principal estu\u00e1rio da oposi\u00e7\u00e3o. Isso p\u00f4s em xeque o projeto de institucionaliza\u00e7\u00e3o do regime, porque a pol\u00edtica de frente democr\u00e1tica reagrupou as for\u00e7as que haviam sido respons\u00e1veis pela elei\u00e7\u00e3o do presidente Juscelino Kubitschek, em 1955: liberais (PSD), trabalhistas (PTB), socialistas (PSB) e comunistas (PCB). Sua consolida\u00e7\u00e3o, com um programa que defendia a anistia e a convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembleia Nacional Constituinte, se daria com uma nova vit\u00f3ria eleitoral em 1978.<\/p>\n<p>Entretanto, essa alian\u00e7a n\u00e3o era suficiente para mudar o regime. Os fatores decisivos eram uma mistura de azeite e vinagre: de um lado, a emerg\u00eancia do um novo sindicalismo do ABC, cujas bases estavam nas grandes empresas da moderniza\u00e7\u00e3o conservadora promovida pelo regime militar, que deu aos trabalhadores em geral um novo protagonismo pol\u00edtico; de outro, a amplia\u00e7\u00e3o da frente democr\u00e1tica para al\u00e9m do MDB, com atra\u00e7\u00e3o de dissidentes do PDS, a antiga Arena, como o senador Teot\u00f4nio Vilela (AL), l\u00edder da campanha da anistia, que percorria as cadeias para visitar os prisioneiros pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Imediatamente ap\u00f3s a grande frustra\u00e7\u00e3o pela derrota da Emenda Dante de Oliveira (MDB-MT), que propunha a volta das elei\u00e7\u00f5es diretas para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, a mobiliza\u00e7\u00e3o popular e a amplia\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as para setores dissidentes do regime foram decisivas para a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves, tendo como vice-presidente Jos\u00e9 Sarney, no col\u00e9gio eleitoral, em 15 de janeiro de 1985. A frente democr\u00e1tica era mais ampla que o MDB, ao incorporar a dissid\u00eancia do PDS que formou o PFL e indicou para vice-presidente da Rep\u00fablica o pol\u00edtico maranhense, cuja origem era a antiga UDN bossa nova. Quis a for\u00e7a do destino que assumisse a Presid\u00eancia e o protagonismo da reconcilia\u00e7\u00e3o nacional. A verdadeira ruptura com o regime militar foi a convoca\u00e7\u00e3o da Assembleia Nacional Constituinte pelo presidente Sarney.<\/p>\n<p>Leia ainda: <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/03\/7085396-democracia-brasileira-tem-um-caminho-inacabado-avalia-cristovam.html\"><em><strong>Democracia brasileira tem um caminho inacabado, avalia Cristovam<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tanto os militares fracassaram no seu projeto autorit\u00e1rio, quanto os setores da oposi\u00e7\u00e3o que imaginavam uma ruptura que se confundisse com a revolu\u00e7\u00e3o Como resistir ao chiste de Ant\u00f4nio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom Jobim, sobre a complexidade da terra em que nascemos: &#8220;O Brasil n\u00e3o \u00e9 para principiantes&#8221;? 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