{"id":10280,"date":"2025-05-08T06:53:55","date_gmt":"2025-05-08T09:53:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10280"},"modified":"2025-05-08T06:53:55","modified_gmt":"2025-05-08T09:53:55","slug":"moscou-nao-cre-em-lagrimas-80-anos-apos-derrota-do-nazismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/moscou-nao-cre-em-lagrimas-80-anos-apos-derrota-do-nazismo\/","title":{"rendered":"Moscou n\u00e3o cr\u00ea em l\u00e1grimas, 80 anos ap\u00f3s derrota do nazismo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O encontro de Lula com Putin segue a linha de independ\u00eancia da pol\u00edtica externa brasileira, mas acontece num contexto muito diferente de outras ocasi\u00f5es, por causa da guerra da Ucr\u00e2nia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O escritor judeu-russo Ilya Ehrenburg Grigoryevich era um veterano jornalista quando acompanhou a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a experi\u00eancia de rep\u00f3rter que cobriu a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Amigo de Jorge Amado e Pablo Neruda, teve v\u00e1rias obras traduzidas no Brasil, entre as quais, A queda de Paris, que descreve a ocupa\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a pelos alem\u00e3es, e Moscou n\u00e3o cr\u00ea em l\u00e1grimas, que narra a resili\u00eancia russa. Ehrenburg foi o primeiro escritor a denunciar os n\u00fameros do Holocausto, no Livro negro, com relatos de judeus sobreviventes da Pol\u00f4nia e da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sobre os campos de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o fim da guerra, por\u00e9m, foi muito criticado porque tratou todos os alem\u00e3es como &#8220;boches&#8221; durante a guerra, n\u00e3o distinguia um agente da Gestapo do adolescente mandado para a frente de batalha como bucha de canh\u00e3o: &#8220;Vamos matar. Se voc\u00ea n\u00e3o tiver matado pelo menos um alem\u00e3o um dia, voc\u00ea teve desperdi\u00e7ado aquele dia\u2026 N\u00e3o conte dias; n\u00e3o conte milhas. Conte apenas o n\u00famero de alem\u00e3es que voc\u00ea matou\u2026&#8221;, chegou a dizer, num artigo intitulado Morte aos alem\u00e3es. O ex\u00e9rcito de Hitler foi parado \u00e0s portas de Moscou e, depois, derrotado na sangrenta batalha de Stalingrado, que marcou o in\u00edcio da derrocada militar do l\u00edder nazista. Morreram na guerra 20 milh\u00f5es de sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2025\/05\/7139665-qual-foi-o-papel-da-urss-na-2-guerra-mundial-que-putin-hoje-usa-politicamente.html\"><strong>Qual foi o papel da URSS na 2\u00aa Guerra Mundial, que Putin hoje usa politicamente?<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Mais tarde, para se defender, Ehrenburg lembrou um artigo de 1942, quanto Stalingrado ainda estava sob cerco alem\u00e3o, no qual advogava a benevol\u00eancia com os prisioneiros. Em 2 de fevereiro de 1943, 91 mil homens esfomeados, doentes e exaustos foram feitos prisioneiros, entre eles, 22 generais do 6\u00ba Ex\u00e9rcito, depois da rendi\u00e7\u00e3o do marechal alem\u00e3o Von Paulus. Essa l\u00f3gica do &#8220;n\u00f3s contra eles&#8221; tamb\u00e9m teve seus ecos por aqui, quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial, depois de um longo namoro do presidente Get\u00falio Vargas com o Eixo (Alemanha-It\u00e1lia-Jap\u00e3o), nos primeiros anos do Estado Novo (1937-1945).<\/p>\n<p>Em 1942, quando navios brasileiros foram afundados por submarinos alem\u00e3es no Oceano Atl\u00e2ntico, Vargas fez um acordo com o presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, e o Brasil entrou na guerra ao lado dos Aliados (Estados Unidos, Inglaterra, Fran\u00e7a e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, entre outros). Alem\u00e3es, italianos e japoneses e seus descendentes no Brasil passaram a ser imediatamente perseguidos. Clubes foram fechados ou obrigados a mudar de nome, caso do Palmeiras, antigo Palestra It\u00e1lia, e do Yacth Club Santo Amaro, antigo Clube Alem\u00e3o de Vela, em S\u00e3o Paulo. At\u00e9 bares e restaurantes foram obrigados a mudar de nome, como o Bar Luiz, no Rio de Janeiro, que se chamava Bar Adolph.<\/p>\n<p><strong>Proximidade t\u00f3xica<\/strong><\/p>\n<p>Os suspeitos de pertencerem ao Partido Nazista ou \u00e0 Juventude Hitlerista eram mantidos sob vigil\u00e2ncia ou confinados em campos de concentra\u00e7\u00e3o. Houve pelo menos nove campos: Tom\u00e9-A\u00e7\u00fa, no Par\u00e1 (alem\u00e3es e japoneses); Ch\u00e1 de Estev\u00e3o, em Pernambuco (empregados alem\u00e3es da antiga Cia Paulista de Tecidos, hoje Pernambucanas); Ilha das Flores, no Rio de Janeiro (onde prisioneiros de guerra foram misturados com presos comuns); Pouso Alegre, em Minas Gerais (marinheiros do navio Anneleise Essberger); Ilha Anchieta (colonos japoneses); Guaratinguet\u00e1 e Pindamonhangaba (fazendas onde foram confinados colonos alem\u00e3es e marinheiros do navio Windhuk); Penitenci\u00e1ria Agr\u00edcola da Trindade, em Florian\u00f3polis; e Pres\u00eddio Pol\u00edtico Oscar Schneider, em Joinville (onde um hospital foi transformado em col\u00f4nia penal para suspeitos de atividades nazistas do Sul do pa\u00eds), em Santa Catarina.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses do Ocidente, principalmente Estados Unidos, Inglaterra e Fran\u00e7a, mas tamb\u00e9m o Brasil, comemoram o Dia da Vit\u00f3ria contra o nazifascismo nesta quinta-feira, por\u00e9m, devido \u00e0 diferen\u00e7a de fuso hor\u00e1rio, os russos o fazem somente nesta sexta-feira. A rendi\u00e7\u00e3o incondicional da Alemanha nazista foi assinada no fim da noite de 8 de maio de 1945 (23h01, hor\u00e1rio da Europa Ocidental) e entrou em vigor nesse hor\u00e1rio. Em Moscou, j\u00e1 era o dia 9 quando a rendi\u00e7\u00e3o foi assinada. O Ex\u00e9rcito Vermelho havia tomado Berlim em 2 de maio.<\/p>\n<p>O Dia da Vit\u00f3ria \u00e9 um feriado muito importante na R\u00fassia, comemorado com desfiles militares na Pra\u00e7a Vermelha e outros eventos patri\u00f3ticos. O presidente russo, Vladimir Putin, atualmente, usa essa data para enviar mensagens e refor\u00e7ar a narrativa russa sobre a Guerra Patri\u00f3tica. Desde 2014, com a ocupa\u00e7\u00e3o da Crimeia, as celebra\u00e7\u00f5es s\u00e3o usadas para legitimar as interven\u00e7\u00f5es na Ucr\u00e2nia, que culminaram na guerra atual. Por isso mesmo, s\u00e3o boicotadas pelas democracias do Ocidente.<\/p>\n<p>O presidente Lula chegou nesta quarta-feira a Moscou para assistir \u00e0s comemora\u00e7\u00f5es dos 80 anos da derrota dos nazistas. No palanque da Pra\u00e7a Vermelha, estar\u00e1 ao lado dos l\u00edderes da China, Xi Jinping; da Venezuela, Nicol\u00e1s Maduro; de Cuba, Miguel D\u00edaz-Canel; de representantes de ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas e de pa\u00edses africanos que mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas com a R\u00fassia.<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2025\/05\/7139641-o-que-quer-putin-ao-levar-lula-xi-e-lideres-do-sul-global-a-moscou.html\"><strong>O que quer Putin ao levar Lula, Xi e l\u00edderes do Sul Global a Moscou?<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, a R\u00fassia \u00e9 uma grande fornecedora de fertilizantes para o nosso agroneg\u00f3cio e compra carne, soja, caf\u00e9, a\u00e7\u00facar e frutas do Brasil. A rela\u00e7\u00e3o do Brasil com a R\u00fassia \u00e9 uma parceira estrat\u00e9gica nos Brics, cuja import\u00e2ncia aumenta com a nova pol\u00edtica tarif\u00e1ria do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A visita oficial de Lula segue a tradicional linha de independ\u00eancia da pol\u00edtica externa brasileira, mas ocorre num contexto muito diferente de outras ocasi\u00f5es, por causa da guerra da Ucr\u00e2nia. No Brasil e na Europa, a aproxima\u00e7\u00e3o de Lula com Putin \u00e9 t\u00f3xica para a opini\u00e3o p\u00fablica e demais chancelarias, porque ultrapassa a linha divis\u00f3ria da centralidade pol\u00edtica da democracia.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O encontro de Lula com Putin segue a linha de independ\u00eancia da pol\u00edtica externa brasileira, mas acontece num contexto muito diferente de outras ocasi\u00f5es, por causa da guerra da Ucr\u00e2nia O escritor judeu-russo Ilya Ehrenburg Grigoryevich era um veterano jornalista quando acompanhou a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), com a experi\u00eancia de rep\u00f3rter que cobriu a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). 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