{"id":10334,"date":"2025-05-25T08:40:43","date_gmt":"2025-05-25T11:40:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10334"},"modified":"2025-05-25T12:43:32","modified_gmt":"2025-05-25T15:43:32","slug":"haddad-e-refem-da-cultura-petista-do-rechaco-e-da-economia-do-afeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/haddad-e-refem-da-cultura-petista-do-rechaco-e-da-economia-do-afeto\/","title":{"rendered":"Haddad \u00e9 ref\u00e9m da cultura petista do recha\u00e7o e da economia do afeto"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O ajuste \u00e9 de R$ 52 bilh\u00f5es, mesmo assim, o d\u00e9ficit das contas p\u00fablicas deve chegar a R$ 76,6 bilh\u00f5es ( 0,6% do PIB). O ministro da Fazenda apanha dos dois lado<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No seu artigo publicado na Carta Capital n\u00b0 1363 (datada de 28 de maio de 2025), intitulado Absurdos da &#8216;ci\u00eancia&#8217; econ\u00f4mica, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo discorre sobre as limita\u00e7\u00f5es dos modelos macroecon\u00f4micos contempor\u00e2neos. Parte de uma defini\u00e7\u00e3o de John Mayard Keynes \u2013 autor da Teoria geral do emprego, do juro e da moeda (Saraiva), de1936, sua obra prima \u2013 sobre o perfil ideal dos economistas.<\/p>\n<p>Keynes virou do avesso a teoria cl\u00e1ssica do emprego de \u201cA riqueza das na\u00e7\u00f5es\u201d (Nova Fronteira), de Adam Smith, obra publicada em 1776, ao analisar a Grande Depress\u00e3o causada pelo crack da Bolsa de Nova York de 1929. O consenso da \u00e9poca era de que a economia chegaria espontaneamente e naturalmente ao equil\u00edbrio. E quem quisesse trabalhar encontraria emprego, bastava aceitar sal\u00e1rios mais baixos. Keynes inverteu esse modelo cl\u00e1ssico de causa e efeito.<\/p>\n<p>Para a teoria cl\u00e1ssica, o desemprego era uma escolha, muitas vezes causada pelo alcoolismo e\/ou pelo jogo. Devido \u00e0 prolongada recess\u00e3o, ao contr\u00e1rio, Keynes concluiu que o desemprego era involunt\u00e1rio, porque a aus\u00eancia de demanda aprisionava empresas e trabalhadores num c\u00edrculo vicioso de subprodu\u00e7\u00e3o e desemprego. A solu\u00e7\u00e3o, segundo ele, era os governos gastarem mais, para investir na economia, de modo que a procura global dos produtos crescesse. Isso estimularia as empresas a admitirem mais trabalhadores.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os pre\u00e7os subissem, os sal\u00e1rios reais cairiam, fazendo a economia voltar ao pleno emprego. Keynes n\u00e3o se importava como o Estado gastaria: \u201co Tesouro poderia encher garrafas usadas com papel-moeda e as enterrar\u201d. Para ele, bastava \u201cdeixar \u00e0 iniciativa privada, de acordo com os bem experimentados princ\u00edpios do laissez-faire, a tarefa de desenterrar novamente as notas\u201d. Desde que o governo injetasse demanda na economia, todo o sistema come\u00e7aria a se recuperar.<\/p>\n<p>Seu maior advers\u00e1rio foi o economista americano Robert Lucas. Indagado sobre como definiria um contador desempregado que dirigia um t\u00e1xi por falta de emprego, respondeu: \u201ceu o chamaria de taxista\u201d. As teses de Keynes ca\u00edram em desgra\u00e7a nos anos 1970 (quando as economias europeias enfrentaram problemas e surgiram as pol\u00edticas de dura austeridade fiscal), mas por aqui est\u00e3o viv\u00edssimas.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2022\/01\/4977919-o-que-e-o-neoliberalismo-e-por-que-alguns-negam-que-ele-exista.html\"><strong>O que \u00e9 o neoliberalismo e por que alguns negam que ele exista<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Cr\u00edtico dos seus colegas liberais, Beluzzo recorreu a Keynes para elencar os requisitos de um bom economista, \u201cque deve combinar os talentos de matem\u00e1tico, historiador, estadista e fil\u00f3sofo (na medida certa)\u201d. Mais ainda: \u201cDeve entender os aspectos simb\u00f3licos e falar com palavras correntes. Deve ser capaz de integrar o particular quando se refere ao geral e tocar o abstrato e o concreto com o mesmo voo do pensamento. Deve estudar o presente \u00e0 luz do passado e tendo em vista o futuro. Nenhuma parte da natureza do homem deve ficar fora da sua an\u00e1lise. Deve ser simultaneamente desinteressado e pragm\u00e1tico: estar fora da realidade e ser incorrupt\u00edvel como um artista, estando, embora noutras ocasi\u00f5es, t\u00e3o perto da terra como um pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fogo amigo<\/strong><\/p>\n<p>Filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, \u00e9 professor de ci\u00eancia pol\u00edtica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), na qual se formou em direito, mestre em economia e doutor em filosofia. Trabalhou como analista de investimento no Unibanco, foi subsecret\u00e1rio de Finan\u00e7as e Desenvolvimento Econ\u00f4mico na gest\u00e3o da prefeita Marta Suplicy (PT). Elaborou o projeto das parcerias p\u00fablico-privadas (PPPs) no Brasil, na equipe do ent\u00e3o ministro do Planejamento, Guido Mantega (2003\u20132004). Foi ministro da Educa\u00e7\u00e3o de 2005 a 2012, nos governos Lula e Dilma Rousseff, e prefeito de S\u00e3o Paulo de 2013 a 2016.<\/p>\n<p>Seu perfil atende a quase todos os requisitos de Keynes, mas \u00e9 a\u00ed que mora o problema. \u00c9 visto como um ministro desenvolvimentista pelo mercado, que gostaria que adotasse uma pol\u00edtica mais liberal. No fundo, \u00e9 um social-liberal, que tamb\u00e9m n\u00e3o atende \u00e0s exig\u00eancias dos desenvolvimentistas do PT. Por isso, vive sob dupla desconfian\u00e7a: do mercado financeiro, que marca em cima suas decis\u00f5es, e dos militantes petistas, que gostariam de uma pol\u00edtica mais intervencionista e promovem o chamado \u201cfogo amigo\u201d, responsabilizando-o pela queda de popularidade do governo.<\/p>\n<p>O pacote de medidas fiscais anunciado na quinta-feira \u00e9 uma s\u00edntese dessa contradi\u00e7\u00e3o: um congelamento de gastos de R$ 31,3 bilh\u00f5es, que atende aos analistas do mercado, e um ganho de arrecada\u00e7\u00e3o (esperado) de R$ 20,5 bilh\u00f5es, com mudan\u00e7as no imposto sobre Opera\u00e7\u00f5es Financeiras (IOF), que desagrada os rentistas. O ajuste \u00e9 de quase R$ 52 bilh\u00f5es, mesmo assim, o d\u00e9ficit das contas p\u00fablicas deve chegar a R$ 76,6 bilh\u00f5es, o que representaria 0,6% do PIB. Resultado: Haddad apanha dos dois lados.<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2025\/05\/7155242-criticas-ao-decreto-do-iof-persistem-mesmo-apos-recuo-de-haddad.html\"><strong>Cr\u00edticas ao decreto do IOF persistem, mesmo ap\u00f3s recuo de Haddad<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Deveria ser de um lado s\u00f3, o da oposi\u00e7\u00e3o, mas Haddad \u00e9 ref\u00e9m da \u201ccultura do recha\u00e7o\u201d do PT e da \u201ceconomia do afeto\u201d do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que forjam a alma do petismo e do lulismo, respectivamente, segundo o historiador Alberto Aggio, no livro \u201cA constru\u00e7\u00e3o da democracia no Brasil -1985-2025\u201d (Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira\/Annablume). Esses conceitos merecem cada qual uma coluna, mas aqui s\u00e3o autoexplicativos: o PT n\u00e3o desencarna de sua oposi\u00e7\u00e3o ao Plano Real, que completou 30 anos, em especial ao ajuste fiscal; Lula n\u00e3o abre m\u00e3o da \u201ceconomia do afeto\u201d, principalmente de gera\u00e7\u00e3o de emprego e transfer\u00eancia de renda, o eixo de sua identifica\u00e7\u00e3o com os mais pobres, com a qual pretende se reeleger \u00e0 Presid\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ajuste \u00e9 de R$ 52 bilh\u00f5es, mesmo assim, o d\u00e9ficit das contas p\u00fablicas deve chegar a R$ 76,6 bilh\u00f5es ( 0,6% do PIB). 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