{"id":10385,"date":"2025-06-08T07:41:45","date_gmt":"2025-06-08T10:41:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10385"},"modified":"2025-06-08T08:02:01","modified_gmt":"2025-06-08T11:02:01","slug":"desafio-intelectual-na-politica-e-romper-o-dogmatismo-e-a-intolerancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/desafio-intelectual-na-politica-e-romper-o-dogmatismo-e-a-intolerancia\/","title":{"rendered":"Desafio intelectual na pol\u00edtica \u00e9 romper o dogmatismo e a intoler\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Nossos intelectuais est\u00e3o apartados da pol\u00edtica ou aderiram \u00e0 intoler\u00e2ncia ideol\u00f3gica; \u00e9 preciso repensar seriamente o Brasil na nova ordem mundial e oferecer um rumo \u00e0s elites pol\u00edtica e econ\u00f4mica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em quase todos os momentos importantes da hist\u00f3ria do Brasil, alguns intelectuais se destacaram pelo esfor\u00e7o de produzir uma s\u00edntese da realidade do pa\u00eds e inspiraram as suas respectivas gera\u00e7\u00f5es a levarem adiante um projeto de na\u00e7\u00e3o. N\u00e3o foi pouca coisa, num pa\u00eds no qual a primeira universidade foi criada apenas em 1920, a Universidade do Rio de Janeiro (com a uni\u00e3o da Escola Polit\u00e9cnica \u00e0 Escola de Medicina e \u00e0 Faculdade de Direito), pela necessidade de conceder o t\u00edtulo de doutor honoris causa ao rei Alberto I da B\u00e9lgica.<\/p>\n<p>Fazem parte dessa constela\u00e7\u00e3o, entre outros, S\u00e9rgio Buarque de Holanda (Ra\u00edzes do Brasil \u20131936), com seu estudo sobre a forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter nacional; Gilberto Freyre (Casa-Grande &amp; Senzala \u20131933); Caio Prado J\u00fanior (Forma\u00e7\u00e3o do Brasil Contempor\u00e2neo -1942); Celso Furtado (Forma\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica do Brasil \u20131959); Raymundo Faoro (Os Donos do Poder -1958); e Nelson Werneck Sodr\u00e9 (Hist\u00f3ria da Burguesia Brasileira \u2013 1964).<\/p>\n<p>Esses autores s\u00e3o revisitados quase como um dever de casa, seja como suporte para novas an\u00e1lises seja para a revis\u00e3o de suas teses. Entretanto, hoje, s\u00e3o raros os exemplos de esfor\u00e7o de novas s\u00ednteses sobre o Brasil. Talvez o mais recente e importante seja \u201cHist\u00f3ria da riqueza no Brasil: Cinco s\u00e9culos de pessoas, costumes e governos (Esta\u00e7\u00e3o Brasil)\u201d, de Jorge Caldeira, que repensa teses consagradas e reconstr\u00f3i a interpreta\u00e7\u00e3o de nossa economia colonial, do Segundo Imp\u00e9rio, da Rep\u00fablica Velha e da Era Vargas.<\/p>\n<p>A grande maioria dos ensaios e teses acad\u00eamicas, que se multiplicam, fragmenta a compreens\u00e3o da realidade brasileira, num momento em que o pa\u00eds carece de uma elite pol\u00edtica, empresarial e intelectual coesa e capaz de liderar, em bases democr\u00e1ticas, um novo ciclo hist\u00f3rico de desenvolvimento. O fantasma da moderniza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria est\u00e1 \u00e0 nossa espreita, como no Estado Novo e no regime militar, num momento perigoso da pol\u00edtica mundial.<\/p>\n<p>Seja com a recidiva de Donald Trump na Casa Branca ou a emerg\u00eancia da Nova Rota da Seda de Xi Jinping, sem falar em Vladimir Putin, no Kremlin, e Benjamin Netanyahu, em Jerusal\u00e9m, o autoritarismo hegemoniza a economia e a pol\u00edtica mundial e a democracia no Brasil corre novos riscos. Nossos intelectuais, por\u00e9m, est\u00e3o apartados da pol\u00edtica ou aderiram \u00e0 intoler\u00e2ncia ideol\u00f3gica; pouco se faz para repensar seriamente o Brasil na nova ordem mundial e oferecer um rumo \u00e0s elites empresarial e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>No seu livro \u201cA Mente Imprudente\u201d (Record), o soci\u00f3logo Mark Lilla, da Columbia University (EUA), tenta entender o papel dos intelectuais na pol\u00edtica a partir da trajet\u00f3ria de alguns dos mais importantes pensadores do s\u00e9culo XX. Nele, critica o \u201cte\u00f3logo pol\u00edtico secular\u201d, aqueles intelectuais que substitu\u00edram a f\u00e9 religiosa por uma cren\u00e7a quase messi\u00e2nica em projetos pol\u00edticos radicais.<\/p>\n<p><strong>O dogma brando<\/strong><\/p>\n<p>Lilla argumenta que grandes intelectuais abandonaram o ceticismo e a prud\u00eancia no s\u00e9culo passado, em favor de vis\u00f5es pol\u00edticas redentoras. Esse impulso os levou \u00e0 nega\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es humanas e institucionais, e \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o de regimes brutais. Carl Schmitt, um especialista em direito ainda muito estudado, defendeu um estado sem direito para boa parte de sua popula\u00e7\u00e3o: o nazista. Martin Heidegger, amante e mentor da jovem Hannah Arendt, entrou no partido nazista e cortou todas as suas rela\u00e7\u00f5es com colegas judeus. Walter Benjamin tinha simpatia amb\u00edgua pelo messianismo e manteve-se fiel ao stalinismo. Michel Foucault flertou com a Revolu\u00e7\u00e3o Iraniana de Khomeini; e Jacques Derrida se omitiu frente a regimes repressivos.<\/p>\n<p>As certezas ideol\u00f3gicas carregam o perigo da intoler\u00e2ncia, critica Mark Lilla. O papel do intelectual n\u00e3o \u00e9 apenas criar e propagar ideias, mas tamb\u00e9m assumir a responsabilidade por seus impactos. \u201cO intelectual prudente equilibra idealismo e pragmatismo; o imprudente, se entrega a utopias sem considerar os custos humanos\u201d, compara.<\/p>\n<p>Em 2016, em Paris, Lilla revisitou sua pr\u00f3pria obra e escreveu um posf\u00e1cio no qual contextualiza o atual ambiente intelectual. Segundo ele, com o fim da guerra fria, o radicalismo foi substitu\u00eddo por uma esp\u00e9cie de \u201cdogma brando\u201d, com princ\u00edpios liberais b\u00e1sicos como o car\u00e1ter sagrado do indiv\u00edduo, a prioridade da liberdade e a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade p\u00fablica\u201d. Isso \u00e9 politicamente democr\u00e1tico, mas carece de consci\u00eancia das fraquezas da democracia e da maneira como pode causar hostilidade e ressentimento.<\/p>\n<p>O \u201cdogma brando\u201d se tornou um caldo de cultura para a tirania. N\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es nem a rela\u00e7\u00e3o entre o individual e o coletivo, o chamado bem comum. Sua simplicidade \u00e9 antipol\u00edtica e o anti-intelectual, o que explica o fato de conquistar muitos seguidores: fundamentalistas do \u201cestado m\u00ednimo\u201d e anarquistas de esquerda, libert\u00e1rios absolutistas e evangelistas neoliberais, todos politicamente radicais. Suas diferen\u00e7as s\u00e3o insignificantes, t\u00eam em comum o preconceito em rela\u00e7\u00e3o ao outro. O \u201cdogma brando\u201d inspira ignor\u00e2ncia e falta de empatia. E o autoengano em rela\u00e7\u00e3o a isso tira os intelectuais do caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossos intelectuais est\u00e3o apartados da pol\u00edtica ou aderiram \u00e0 intoler\u00e2ncia ideol\u00f3gica; \u00e9 preciso repensar seriamente o Brasil na nova ordem mundial e oferecer um rumo \u00e0s elites pol\u00edtica e econ\u00f4mica Em quase todos os momentos importantes da hist\u00f3ria do Brasil, alguns intelectuais se destacaram pelo esfor\u00e7o de produzir uma s\u00edntese da realidade do pa\u00eds e inspiraram as suas respectivas gera\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":10390,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,481,722,677,6,28,36,371,589,1617,164,92,972,8,3,9,384,39],"tags":[665,138,1247,1487,1984,1980,1727,1981,958,1982,959],"class_list":["post-10385","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","category-china","category-ciencia","category-comunicacao","category-congresso","category-cultura","category-economia","category-etica","category-eua","category-europa","category-guerra","category-literatura","category-memoria","category-partidos","category-politica","category-politica-2","category-religiao","category-universidade","tag-buarque","tag-democracia","tag-freyre","tag-furtado","tag-heidegger","tag-intelectuais","tag-lilla","tag-prado","tag-schmitt","tag-sodre","tag-totalitarismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10385","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10385"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10385\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10392,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10385\/revisions\/10392"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10385"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10385"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10385"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}