{"id":1046,"date":"2016-11-20T07:16:31","date_gmt":"2016-11-20T09:16:31","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=1046"},"modified":"2016-11-20T08:01:17","modified_gmt":"2016-11-20T10:01:17","slug":"nas-entrelinhas-o-rabo-de-foguete","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-rabo-de-foguete\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O rabo de foguete"},"content":{"rendered":"<p><em>A Cultura envolve grandes interesses privados e muita verba p\u00fablica. Artistas n\u00e3o podem ser apenas a massa de manobra desses interesses<\/em><\/p>\n<p>O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, ao assumir o Minist\u00e9rio da Cultura, segurou um rabo de foguete maior do que a crise armada pelo pedido de demiss\u00e3o de Marcelo Calero, diplomata de carreira que comandava a pasta, ap\u00f3s uma trombada com o secret\u00e1rio de Governo, ministro Geddel Vieira Lima. O epis\u00f3dio desnudou dois dos grandes conflitos que envolvem a gest\u00e3o da pasta: o choque entre a cultura tradicional nordestina e a urbana contempor\u00e2nea, envolvendo o eventual veto do presidente Michel Temer \u00e0 nova lei que regulamenta a vaquejada, tema da vers\u00e3o inicial do Pal\u00e1cio do Planalto \u00e0 sa\u00edda de Calero; e a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria nas \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e arquitet\u00f4nico nacional, cujo estopim foi o escandaloso lobby de Geddel, em Salvador, para liberar a constru\u00e7\u00e3o de um pr\u00e9dio acima do gabarito, no qual comprou um apartamento, verdadeira raz\u00e3o do pedido de demiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Em circunst\u00e2ncias normais, tudo seria resolvido com duas canetadas: a san\u00e7\u00e3o da lei que normatiza e preserva a tradi\u00e7\u00e3o sertaneja; e o veto \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da torre de 30 andares, para preservar o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e urban\u00edstico de Salvador. O rabo de foguete, por\u00e9m, \u00e9 muito maior. Al\u00e9m dos interesses econ\u00f4micos envolvidos nessas quest\u00f5es, existe um grande contencioso entre o mundo art\u00edstico e cultural e o governo Temer, em raz\u00e3o do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Quando o ex-deputado H\u00e9lio Bicudo e a professora Jana\u00edna Paschoal entraram com o pedido, Freire os procurou para articular o apoio dos partidos de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 proposta.<\/p>\n<p>Veremos uma queda de bra\u00e7os entre Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura dos governos Lula e Dilma, que nunca desencanou da pasta, e o novo ministro da Cultura. Isso j\u00e1 acontecera com Ana de Holanda e a senadora Marta Suplicy, no primeiro mandato de Dilma, no segundo, e com o pr\u00f3prio Calero, quando assumiu a pasta, ap\u00f3s o presidente Michel Temer ser efetivado no cargo pelo Congresso. A Cultura \u00e9 um terreno minado, que envolve grandes interesses privados e muita verba p\u00fablica. Artistas e produtores culturais n\u00e3o podem ser apenas a massa de manobra desses interesses.<\/p>\n<p>No Brasil, desde o governo de Getulio Vargas (1930-1945), h\u00e1 uma forte rela\u00e7\u00e3o entre o Estado e o mundo da cultura. O maior exemplo est\u00e1 justamente na \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio, com a cria\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Sphan), reivindicada desde a d\u00e9cada de 1920 pelos intelectuais modernistas, que lutaram pela eserva\u00e7\u00e3o das cidades hist\u00f3ricas, principalmente por causa do barroco mineiro. Na mesma \u00e9poca, foram criados o Instituto Nacional de Cinema Educativo (Ince), o Instituto Nacional do Livro (INL) e o Conselho Nacional de Cultura, todos subordinados ao Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura. Nos anos 1970, foi criada a Secretaria de Assuntos Culturais, com duas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o: uma patrimonial (Iphan e Pr\u00f3-Mem\u00f3ria) e outra de produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e consumo da cultura (Funarte). Em 1985, o presidente Jos\u00e9 Sarney finalmente criou o Minist\u00e9rio da Cultura, para o qual foi nomeado um pol\u00edtico querido no meio art\u00edstico e cultural: o mineiro Jos\u00e9 Aparecido de Oliveira.<\/p>\n<p>O legado de Gil<\/p>\n<p>O atual Minist\u00e9rio da Cultura \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o de Gilberto Gil, o ministro cantor de Lula, que havia se preparado para o cargo pelas vicissitudes da vida, como compositor e m\u00fasico, pol\u00edtico ambientalista (PMDB e PV) e administrador formado pela Universidade Federal da Bahia. Desde a Tropic\u00e1lia, esteve na vanguarda musical do pa\u00eds; seu ativismo pol\u00edtico levou-o \u00e0 pris\u00e3o e ao ex\u00edlio na d\u00e9cada de 1970. Juca Ferreira era seu bra\u00e7o direito na pol\u00edtica. Gil promoveu uma ruptura com a gest\u00e3o modernizadora de Francisco Weffort, que fora muito contingenciada pelo ajuste fiscal no governo de Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de estabelecer a atual estrutura do Minc, Gil fez altera\u00e7\u00f5es radicais na lei de incentivo \u00e0 cultura. Criou as secretarias de Pol\u00edticas Culturais, de Articula\u00e7\u00e3o Institucional, da Identidade e da Diversidade Cultural, de Programas e Projetos Culturais e a de Fomento \u00e0 Cultura, em sintonia com o projeto de poder do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e sua proje\u00e7\u00e3o internacional. Do ponto de vista da pol\u00edtica cultural, adotou-se o conceito de \u201chibridiza\u00e7\u00e3o\u201d no lugar da tradicional divis\u00e3o entre cultura erudita, popular e de massas, mas isso n\u00e3o foi levado \u00e0 pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Na gest\u00e3o de Juca Ferreira, o novo conceito foi apenas um pretexto para a distribui\u00e7\u00e3o de recursos com objetivo de cooptar produtores, agentes e gestores culturais, al\u00e9m de artistas e intelectuais, para o projeto petista, o que foi feito com relativo sucesso. Uma certa esquizofrenia na rela\u00e7\u00e3o entre eles e o chamado mercado cultural, cujo melhor exemplo s\u00e3o os artistas da TV Globo. Muitos gritam \u201cFora, Temer!\u201d como uma forma de n\u00e3o serem \u201cpatrulhados\u201d, nem passarem por situa\u00e7\u00f5es como a enfrentada pelo jornalista Caco Barcelos, agredido por manifestantes no Rio de Janeiro na semana passada durante a produ\u00e7\u00e3o de seu programa. Num ambiente pol\u00edtico muito radicalizado e manique\u00edsta, duas quest\u00f5es est\u00e3o no centro da pauta cultural: a sua diversidade e a economia da cultura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Cultura envolve grandes interesses privados e muita verba p\u00fablica. 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