{"id":10535,"date":"2025-07-24T06:39:13","date_gmt":"2025-07-24T09:39:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10535"},"modified":"2025-07-24T06:43:54","modified_gmt":"2025-07-24T09:43:54","slug":"brasil-aposta-no-multilateralismo-contra-as-tarifas-arbitrariasde-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/brasil-aposta-no-multilateralismo-contra-as-tarifas-arbitrariasde-trump\/","title":{"rendered":"Brasil aposta no multilateralismo contra as &#8220;tarifas arbitr\u00e1rias&#8221;de Trump"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Soberania n\u00e3o \u00e9 moeda de troca. Proteger a democracia brasileira passa por desarmar, com diplomacia e articula\u00e7\u00e3o internacional, as bombas-rel\u00f3gio lan\u00e7adas por Trump<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Menos alegoria de m\u00e3o e mais samba no p\u00e9. \u00c9 isso que o Brasil precisa fazer para enfrentar a crise diplom\u00e1tica e comercial com os Estados Unidos. O Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores (MRE), sob o comando do chanceler Mauro Vieira, acerta ao apostar no multilateralismo como linha de resist\u00eancia \u00e0s tarifas arbitr\u00e1rias impostas por Donald Trump. N\u00e3o ser\u00e1 suficiente para conter a press\u00e3o de Washington e proteger a soberania nacional, mas \u00e9 importante externamente, porque mobiliza uma ampla coaliz\u00e3o de pa\u00edses prejudicados pelo tarifa\u00e7o. E internamente, porque em torno de uma sa\u00edda diplom\u00e1tica, em vez da escalada do confronto, h\u00e1 amplo consenso pol\u00edtico nacional.<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o do Conselho Geral da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), em Genebra, o embaixador Philip Gough, representante do Brasil, foi direto ao ponto: tarifas unilaterais, &#8220;implementadas de forma ca\u00f3tica&#8221;, violam princ\u00edpios b\u00e1sicos do com\u00e9rcio internacional e amea\u00e7am lan\u00e7ar a economia mundial em uma espiral de estagna\u00e7\u00e3o e pre\u00e7os altos. Recebeu apoio de 40 pa\u00edses, incluindo Uni\u00e3o Europeia (UE), Canad\u00e1 e parceiros dos Brics. A OMC, paralisada em seu sistema de solu\u00e7\u00e3o de controv\u00e9rsias, pouco pode fazer na pr\u00e1tica, mas ainda \u00e9 a guardi\u00e3 da institucionalidade das rela\u00e7\u00f5es comerciais entre seus membros.<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/07\/7208887-brasil-na-omc-tarifaco-e-arbitrario-e-caotico.html\"><strong>Tarifa\u00e7o \u00e9 &#8220;arbitr\u00e1rio e ca\u00f3tico&#8221;, afirma o Brasil na OMC<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Sim, o Brasil reafirmou que prefere di\u00e1logo. A retalia\u00e7\u00e3o \u00e9 medida extrema cujas consequ\u00eancias s\u00e3o imprevis\u00edveis, mas que podem se tornar necess\u00e1rias para a soberania nacional. O &#8220;tarifa\u00e7o&#8221; de 50%, previsto para entrar em vigor em 1\u00ba de agosto, dificilmente ser\u00e1 suspenso de imediato. Trump usa tarifas n\u00e3o apenas como instrumento econ\u00f4mico, mas como arma pol\u00edtica. Ao defender Jair Bolsonaro e atacar o Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente norte-americano transformou sua superavit\u00e1ria balan\u00e7a comercial com o Brasil em campo de batalha ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>No pior cen\u00e1rio, Trump pode dobrar a aposta, ampliando san\u00e7\u00f5es unilaterais, caso o julgamento do ex-presidente brasileiro avance. O governo Lula precisa adotar medidas de contingenciamento, com objetivo de redirecionar parte das exporta\u00e7\u00f5es, absorver no mercado interno o que for poss\u00edvel e cuidar da manuten\u00e7\u00e3o dos empregos e da sobreviv\u00eancia das empresas mais prejudicadas.<\/p>\n<p>Leia mais:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/07\/7208996-senadores-e-mre-afinam-a-estrategia-para-os-eua.html\"><strong>Senadores e MRE afinam a estrat\u00e9gia para os EUA<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Desde que voltou \u00e0 Casa Branca, Trump tem recorrido a tarifas como instrumento de chantagem, aplicando-as tamb\u00e9m contra Canad\u00e1, M\u00e9xico e Jap\u00e3o. No caso brasileiro, por\u00e9m, a interfer\u00eancia tem conota\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais grave. A chantagem tarif\u00e1ria busca influenciar processos judiciais internos e fragilizar institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. \u00c9 uma t\u00e1tica de guerra h\u00edbrida: antes, os EUA usavam tanques e telegramas secretos; agora, pressionam com san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e narrativas digitais.<\/p>\n<p><strong>Manobra de sobreviv\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Essa inger\u00eancia n\u00e3o \u00e9 novidade na hist\u00f3ria brasileira. O chamado &#8220;americanismo&#8221;, desde a Rep\u00fablica Velha, foi um vetor de moderniza\u00e7\u00e3o pelo alto, associado ao fordismo e ao liberalismo econ\u00f4mico, em contraposi\u00e7\u00e3o ao nosso &#8220;iberismo&#8221; patrimonialista. Durante d\u00e9cadas, foi sin\u00f4nimo de efici\u00eancia produtiva e progresso social. Sua influ\u00eancia se estende aos padr\u00f5es de consumo, de comportamento e \u00e0 cultura popular. Hoje, sob Trump, assume uma forma pervertida, uma esp\u00e9cie de &#8220;americanismo do mal&#8221;, que refor\u00e7a o autoritarismo e alimenta aventuras golpistas.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de setores pol\u00edticos e empresariais que se associam ao intervencionismo norte-americano tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 novidade. O paralelo com o suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas, em 1954, e com o golpe militar de 1964 \u00e9 inevit\u00e1vel. Na carta-testamento, Vargas denunciou a espolia\u00e7\u00e3o estrangeira e sacrificou a pr\u00f3pria vida para impedir a ruptura institucional. Dez anos depois, o golpe aconteceu, com apoio direto de Washington, associado a pol\u00edticos conservadores como Carlos Lacerda e Magalh\u00e3es Pinto e \u00e0 c\u00fapula militar, o que resultou em 21 anos de ditadura.<\/p>\n<p>Hoje, a amea\u00e7a n\u00e3o vem dos quart\u00e9is \u2014 pelo contr\u00e1rio, o Alto Comando das For\u00e7as Armadas se op\u00f4s \u00e0 tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro, cujos envolvidos est\u00e3o sendo julgados, junto com Bolsonaro. O perigo \u00e9 sistema articulado de press\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica, que se vale das redes sociais e da desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil precisa muito da sua diplomacia para tra\u00e7ar uma rota segura de sa\u00edda dessa crise. N\u00e3o haver\u00e1 solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. \u00c9 preciso diversificar parcerias, refor\u00e7ar la\u00e7os com a UE, o mundo \u00e1rabe e os pa\u00edses asi\u00e1ticos, com destaque para China, \u00cdndia e Indon\u00e9sia. A aposta no multilateralismo permanece v\u00e1lida, \u00e9 o que h\u00e1 de mais permanente na pol\u00edtica mundial, apesar dos ataques que hoje sofre. Diante dos fatos, \u00e9 preciso reduzir a depend\u00eancia econ\u00f4mica em rela\u00e7\u00e3o aos EUA e reafirmar o pa\u00eds como ator relevante do Sul Global. N\u00e3o por acaso, o Brasil aderiu \u00e0 a\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/07\/7208968-brasil-se-une-a-acao-da-africa-do-sul-na-onu-que-acusa-israel-de-genocidio-em-gaza.html\"><strong>Brasil se une \u00e0 a\u00e7\u00e3o da \u00c1frica do Sul na ONU que acusa Israel de genoc\u00eddio em Gaza<\/strong><\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o nos enganemos. A altivez \u00e9 sin\u00f4nimo de soberania, n\u00e3o a soberba. N\u00e3o \u00e9 isenta de riscos e contesta\u00e7\u00e3o interna, a exemplo do posicionamento da Confedera\u00e7\u00e3o Israelita do Brasil, que acusou o governo de abandonar a tradi\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio diplom\u00e1tico e de adotar &#8220;falsas narrativas&#8221; sobre Gaza, onde os fatos s\u00e3o autoexplicativos. No com\u00e9rcio exterior, setores como o agroneg\u00f3cio \u2014 especialmente caf\u00e9, suco de laranja e prote\u00ednas animais \u2014 temem retalia\u00e7\u00f5es americanas que podem afetar bilh\u00f5es de d\u00f3lares em exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Retaliar com a Lei da Reciprocidade Econ\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 boa op\u00e7\u00e3o. A sa\u00edda ser\u00e1 a negocia\u00e7\u00e3o paciente e resiliente, sem covardia. Soberania n\u00e3o \u00e9 moeda de troca. Proteger a democracia brasileira passa por reafirmar a soberania e desarmar, com diplomacia e articula\u00e7\u00e3o internacional, as bombas-rel\u00f3gio deixadas por Trump. Multilateralismo, neste momento, n\u00e3o \u00e9 ingenuidade: \u00e9 estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Soberania n\u00e3o \u00e9 moeda de troca. Proteger a democracia brasileira passa por desarmar, com diplomacia e articula\u00e7\u00e3o internacional, as bombas-rel\u00f3gio lan\u00e7adas por Trump Menos alegoria de m\u00e3o e mais samba no p\u00e9. \u00c9 isso que o Brasil precisa fazer para enfrentar a crise diplom\u00e1tica e comercial com os Estados Unidos. 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