{"id":10568,"date":"2025-08-03T07:56:46","date_gmt":"2025-08-03T10:56:46","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10568"},"modified":"2025-08-03T07:56:46","modified_gmt":"2025-08-03T10:56:46","slug":"o-espelho-partido-na-historica-relacao-do-brasil-com-os-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-espelho-partido-na-historica-relacao-do-brasil-com-os-eua\/","title":{"rendered":"O espelho partido na hist\u00f3rica rela\u00e7\u00e3o do Brasil com os EUA"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A resposta brasileira ao tarifa\u00e7o n\u00e3o pode ser restringir ao patriotismo popular e \u00e0 resili\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es, exige um projeto de desenvolvimento<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A atual crise diplom\u00e1tica e comercial entre o Brasil e os Estados Unidos, deflagrada pelo tarifa\u00e7o de 50% imposto pelo governo Trump sobre produtos brasileiros, n\u00e3o pode ser compreendida apenas no contexto de uma disputa conjuntural. Ela reativa dilemas hist\u00f3ricos da forma\u00e7\u00e3o nacional: a tens\u00e3o entre um Brasil que busca a moderniza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma e outro que permaneceu subordinado a modelos externos, seja pelo agrarismo conservador, seja pela industrializa\u00e7\u00e3o tardia.<\/p>\n<p>Estamos diante de uma in\u00e9dita ofensiva tarif\u00e1ria do governo Trump, cujos objetivos n\u00e3o s\u00e3o apenas comerciais, porque adquirem um car\u00e1ter pol\u00edtico e simb\u00f3lico ao tentar constranger e intimidar institui\u00e7\u00f5es brasileiras, principalmente o Supremo Tribunal Federal, diante do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Esse ataque encontra, por\u00e9m, certa base de apoio pol\u00edtico e social interno, que n\u00e3o deve ser subestimado.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/08\/7217071-de-tarifaco-a-lei-magnitsky-ataques-de-donald-trump-dividem-brasileiros.html\"><strong> Ataques de Donald Trump dividem brasileiros<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O apoio aberto do ex-presidente Jair Bolsonaro, de alguns governadores e setores da opini\u00e3o p\u00fablica \u00e0s chantagens da Casa Branca ecoa o passado do regime militar e tem por lastro um \u201camericanismo autorit\u00e1rio\u201d, um dos tra\u00e7os do processo de moderniza\u00e7\u00e3o conservadora no Brasil. Como diria o falecido soci\u00f3logo Luiz Werneck Vianna, na hist\u00f3ria republicana, assimilamos superficialmente o liberalismo norte-americano, sem sua alma democr\u00e1tica, transformando-o em instrumento conservador e at\u00e9 mesmo reacion\u00e1rio de domina\u00e7\u00e3o interna.<\/p>\n<p>Essa ambiguidade diante dos EUA \u2014 ora como farol de progresso, ora como amea\u00e7a \u00e0 soberania \u2014 remonta aos anos 1930, quando pensadores como Oliveira Viana propunham uma moderniza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria, centrada na ordem agr\u00e1ria e no Estado forte. Como muitos ainda imaginam, o campo era visto como o sustent\u00e1culo da identidade nacional e da disciplina social. N\u00e3o por acaso, setores conservadores do agroneg\u00f3cio hoje ainda operam com essa l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Mas o conflito pol\u00edtico que fratura nossa coes\u00e3o social e provoca fissuras na unidade nacional n\u00e3o diz respeito apenas ao agroneg\u00f3cio, que hoje exporta sobretudo para a China. Ele atinge em cheio setores industrializados, como o caf\u00e9 processado, o suco de laranja e os produtos qu\u00edmicos exportados para os Estados Unidos. Isso nos remete \u00e0 divis\u00e3o hist\u00f3rica entre os projetos de industrializa\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma, como o de Celso Furtado, e a industrializa\u00e7\u00e3o dependente dos anos do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d, sob a batuta de Jo\u00e3o Paulo dos Reis Velloso.<\/p>\n<p>Furtado advertia que sem reforma agr\u00e1ria, desenvolvimento regional e soberania tecnol\u00f3gica, o Brasil seria permanentemente vulner\u00e1vel \u00e0s press\u00f5es externas. A quest\u00e3o agr\u00e1ria \u00e9 leite derramado, por\u00e9m o desenvolvimento regional e avan\u00e7o tecnol\u00f3gico ainda s\u00e3o agendas da hora.<\/p>\n<p><strong>Projeto nacional<\/strong><\/p>\n<p>O tarifa\u00e7o de Trump revela essa vulnerabilidade. O Brasil de 2025 ainda exporta majoritariamente commodities de baixo valor agregado e importa produtos de alta complexidade, sem falar na depend\u00eancia a insumos b\u00e1sicos para a nossa agricultura e a nossa ind\u00fastria, como fertilizantes e chips, respectivamente. Essa estrutura regressiva nos deixa \u00e0 merc\u00ea de chantagens geopol\u00edticas como a atual. A integra\u00e7\u00e3o competitiva do Brasil \u00e0 economia global, no qual a Embraer e a JBS s\u00e3o os melhores exemplos, est\u00e1 apenas engatinhando. Entretanto, a reestrutura\u00e7\u00e3o das cadeias globais de valor, da qual o tarifa\u00e7o \u00e9 um ponto cr\u00edtico &#8212; no \u00e2mbito da guerra comercial dos Estados Unidos com a China, porque n\u00e3o dizer, com o mundo &#8211;, pode ser tamb\u00e9m uma oportunidade.<\/p>\n<p>A resposta brasileira ao tarifa\u00e7o n\u00e3o pode ser restringir ao patriotismo popular e \u00e0 resili\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es, exige um projeto de desenvolvimento que articule soberania pol\u00edtica, justi\u00e7a social e inser\u00e7\u00e3o internacional estrat\u00e9gica. O americanismo no Brasil nunca foi uma simples importa\u00e7\u00e3o de valores democr\u00e1ticos, mas uma disputa interna sobre os caminhos da moderniza\u00e7\u00e3o. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas oscilaram entre a depend\u00eancia passiva dos EUA e tentativas de constru\u00e7\u00e3o de uma democracia plural e soberana.<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/opiniao\/2025\/07\/7204867-a-relacao-brasil-e-estados-unidos.html\"><strong>A rela\u00e7\u00e3o Brasil e Estados Unidos<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Como disse o ex-presidente Jos\u00e9 Sarney, \u201cn\u00e3o podemos correr atr\u00e1s de um doido\u201d. Qualquer que seja o desfecho das atuais negocia\u00e7\u00f5es do governo Lula com a Casa Branca, estar\u00e1 sujeito \u00e0 imprevisibilidade e ao comportamento err\u00e1tico de Trump. A crise atual mostra uma encruzilhada hist\u00f3rica. A rea\u00e7\u00e3o brasileira precisa ir al\u00e9m do tecnicismo no \u00e2mbito da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) ou da negocia\u00e7\u00e3o de tarifas pontuais. \u00c9 preciso construir um novo projeto nacional que articule o campo e a cidade, a produ\u00e7\u00e3o e o conhecimento, os interesses internos e os v\u00ednculos externos em bases democr\u00e1ticas, como prop\u00f5e a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>A resposta n\u00e3o est\u00e1 no retorno ao agrarismo conservador nem na rendi\u00e7\u00e3o ao americanismo subalterno. Como dizia Celso Furtado, o subdesenvolvimento n\u00e3o \u00e9 uma etapa, \u00e9 uma armadilha. Escapar dela exige mais do que crescimento: requer imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, projeto hist\u00f3rico e vontade coletiva. Ou seja, nossa elite pol\u00edtica, empresarial e intelectual carece de um projeto nacional mobilizador da sociedade, como j\u00e1 houve em outros momentos de nossa hist\u00f3ria. O espelho norte-americano est\u00e1 rachado; como um pa\u00eds em desenvolvimento, com a 10\u00aa economia do mundo, o Brasil precisa enxergar a si mesmo com mais lucidez e menos ilus\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A resposta brasileira ao tarifa\u00e7o n\u00e3o pode ser restringir ao patriotismo popular e \u00e0 resili\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es, exige um projeto de desenvolvimento A atual crise diplom\u00e1tica e comercial entre o Brasil e os Estados Unidos, deflagrada pelo tarifa\u00e7o de 50% imposto pelo governo Trump sobre produtos brasileiros, n\u00e3o pode ser compreendida apenas no contexto de uma disputa conjuntural. 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