{"id":10580,"date":"2025-08-07T08:23:27","date_gmt":"2025-08-07T11:23:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10580"},"modified":"2025-08-07T08:24:48","modified_gmt":"2025-08-07T11:24:48","slug":"lula-precisa-encontrar-um-ponto-de-equilibrio-entre-os-eua-e-a-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/lula-precisa-encontrar-um-ponto-de-equilibrio-entre-os-eua-e-a-china\/","title":{"rendered":"Lula precisa encontrar um ponto de equil\u00edbrio entre os EUA e a China"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Havia um certo consenso nacional e continuidade em torno da pol\u00edtica externa brasileira p\u00f3s-redemocratiza\u00e7\u00e3o, a partir do governo de Sarney, que restabeleceu as rela\u00e7\u00f5es com Cuba e a China. Bolsonaro rompeu essa tradi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Se imaginarmos um triangulo ligando o Brasil aos Estados Unidos e \u00e0 China, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva precisa tra\u00e7ar uma bissetriz entre os dois pa\u00edses que possibilite achar um ponto de equil\u00edbrio e sair do impasse em que se encontra, a partir de rela\u00e7\u00f5es bilaterais com o presidente Donald Trump, que hoje n\u00e3o existem, e com o presidente Xi Jinping, cada vez mais pr\u00f3ximas. O multilateralismo, no curto prazo, n\u00e3o d\u00e1 conta de evitar a escalada da crise.<\/p>\n<p>Na geometria, um tri\u00e2ngulo possui dois tipos de bissetrizes: internas e externas. Para n\u00e3o complicar a analogia, o que nos interessa aqui \u00e9 o ponto de encontro das bissetrizes internas do triangulo. Imagine uma circunfer\u00eancia dentro do tri\u00e2ngulo \u2014 seu centro \u00e9 equidistante de todos os lados. Por isso, \u00e9 chamado de &#8220;incentro&#8221;. Bissetrizes s\u00e3o tra\u00e7adas com r\u00e9gua e compasso; na pol\u00edtica, \u00e9 muito mais dif\u00edcil achar esse ponto de equil\u00edbrio e equidist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A postura de Lula diante de Trump, expressa na recusa em &#8220;se humilhar&#8221; e na decis\u00e3o de acionar a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) e mobilizar o Brics, deve levar mais em conta a longa e complexa tradi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa brasileira, considerando ainda uma contradi\u00e7\u00e3o interna que contrap\u00f5e o &#8220;iberismo&#8221; conservador e hier\u00e1rquico, herdado do per\u00edodo colonial, ao americanismo democr\u00e1tico e igualit\u00e1rio que inspirou nossa moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<strong>Para Lula, di\u00e1logo com Trump \u00e9 &#8220;humilha\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>O ponto de sustenta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa brasileira deve ser a voca\u00e7\u00e3o universalista, multilateral e emancipat\u00f3ria, por\u00e9m, sem perder de vista que somos uma na\u00e7\u00e3o \u2014 simultaneamente enraizada no Ocidente e protagonista do Hemisf\u00e9rio Sul, com o qual dividimos o passado colonial e a ambi\u00e7\u00e3o do desenvolvimento.<\/p>\n<p>Em um artigo recente, publicado na Revista Pol\u00edtica Democr\u00e1tica (Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira), o embaixador e ex-ministro da Fazenda Rubens Ric\u00fapero ressalta que, desde o s\u00e9culo XIX, a rela\u00e7\u00e3o Brasil-EUA tem sido marcada por uma assimetria estrutural. Ao mesmo tempo, revela que o Brasil sempre oscilou entre o desejo de reconhecimento como na\u00e7\u00e3o ocidental e o impulso autonomista.<\/p>\n<p>Lula, ao colocar o Brics como eixo alternativo de di\u00e1logo diante da agress\u00e3o tarif\u00e1ria de Trump, reafirma essa ambiguidade estrat\u00e9gica. Ele \u00e9 coerente com a pol\u00edtica externa independente inspirada nos governos J\u00e2nio Quadros, Jo\u00e3o Goulart e Ernesto Geisel, que marcaram a busca por autonomia na ordem mundial, sem abandonar os valores do Ocidente.<\/p>\n<p><strong>Regress\u00e3o de valores<\/strong><\/p>\n<p>O que mudou? Ric\u00fapero ressalta que o retorno de Trump ao poder representa uma regress\u00e3o nos valores iluministas que os EUA legaram ao mundo. Sua retirada do Acordo de Paris e da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), seu unilateralismo econ\u00f4mico e seu ataque ao sistema multilateral enfraquecem os princ\u00edpios que tanto o Ocidente liberal quanto o Sul cooperativo valorizam. Lula, ao se recusar a aceitar o tarifa\u00e7o como fato consumado e ao buscar apoio no Brics, recha\u00e7a esse &#8220;americanismo regressivo&#8221; e reivindica um novo equil\u00edbrio, sem o servilismo ideol\u00f3gico de Bolsonaro. Mas isso n\u00e3o pode reeditar o antiamericanismo da Guerra Fria.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2025\/08\/7219298-trump-x-brics-por-que-o-bloco-incomoda-tanto-o-presidente-dos-eua.html\"><strong>Por que o Brics incomoda tanto o presidente dos EUA?<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A autoridade internacional do Brasil precisa da legitimidade multilateral, da institucionalidade democr\u00e1tica e do prest\u00edgio dos f\u00f3runs plurais, como o Brics e a OMC \u2014 mesmo enfraquecidos. Mais &#8220;pragmatismo respons\u00e1vel&#8221; de Geisel e do chanceler Azeredo da Silveira, e menos alinhamento autom\u00e1tico de Oswaldo Aranha. Essa crise n\u00e3o se resolver\u00e1 no gog\u00f3.\u00a0Embaixador nos Estados Unidos de 1905 a 1910, Joaquim Nabuco, por\u00e9m, dizia que &#8220;n\u00e3o se fica grande por dar pulos&#8221;.<\/p>\n<p>Havia um certo consenso nacional e continuidade em torno da pol\u00edtica externa brasileira p\u00f3s-redemocratiza\u00e7\u00e3o, a partir do governo Sarney, que restabeleceu as rela\u00e7\u00f5es com Cuba e a China. O ex-presidente Jair Bolsonaro rompeu essa tradi\u00e7\u00e3o, alinhando o pa\u00eds aos EUA a tal ponto que chegou a bater contin\u00eancia para Trump, no primeiro mandato. Entretanto, por press\u00e3o dos interesses do agroneg\u00f3cio, teve que retroceder em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s hostilidades com a China. N\u00e3o \u00e0 toa, Trump utiliza todo o poder dos EUA para anistiar Bolsonaro e livr\u00e1-lo da inelegibilidade e de poss\u00edveis condena\u00e7\u00f5es penais por tentativa de golpe de Estado.<\/p>\n<p>Quando se olha a balb\u00fardia no Congresso, tomado de assalto pela bancada bolsonarista, h\u00e1 que se considerar que o posicionamento desses parlamentares a favor de Trump e do tarifa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 estranho \u00e0 nossa realidade: somos um pa\u00eds marcado por uma tradi\u00e7\u00e3o ib\u00e9rica de Estado forte e sociedade hier\u00e1rquica, tensionada pela modernidade igualit\u00e1ria e democr\u00e1tica do Ocidente, da qual o modelo americano historicamente, at\u00e9 recentemente, foi a principal refer\u00eancia. A pol\u00edtica externa de Lula precisa ser recalibrada levando em conta essa equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia um certo consenso nacional e continuidade em torno da pol\u00edtica externa brasileira p\u00f3s-redemocratiza\u00e7\u00e3o, a partir do governo de Sarney, que restabeleceu as rela\u00e7\u00f5es com Cuba e a China. 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