{"id":10613,"date":"2025-09-07T07:10:33","date_gmt":"2025-09-07T10:10:33","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10613"},"modified":"2025-09-07T07:10:33","modified_gmt":"2025-09-07T10:10:33","slug":"de-william-bonner-a-cesar-tralli-o-fim-de-uma-era-na-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/de-william-bonner-a-cesar-tralli-o-fim-de-uma-era-na-globo\/","title":{"rendered":"De William Bonner a C\u00e9sar Tralli: o fim de uma era na Globo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O Jornal Nacional precisa se reinventar como o mediador da opini\u00e3o p\u00fablica na era das redes sociais. Ocorre que o leito de forma\u00e7\u00e3o dessa opini\u00e3o est\u00e1 oculto na nuvem de algoritmos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No livro A Globo &#8211; Hegemonia (1965-1984), primeiro volume da trilogia sobre a emissora, o jornalista Ernesto Rodrigues, um ex-profissional da casa, mostra que n\u00e3o haveria Rede Globo sem o Jornal Nacional. Walter Clark, chef\u00e3o da Globo, convenceu um reticente Armando Nogueira, diretor de jornalismo, a coloc\u00e1-lo no ar: &#8220;Vai ser o primeiro jornal nacional do pa\u00eds, um estouro&#8221;. Com aval de Roberto Marinho, a ideia era aproveitar a rede de micro-ondas da Embratel, financiada pelo regime militar, e atrair anunciantes.<\/p>\n<p>O JN estreou em 1\u00ba de setembro de 1969, apresentado por Cid Moreira e Hilton Gomes, com censura e presen\u00e7a do SNI nos est\u00fadios. A principal not\u00edcia, a posse da Junta Militar que substituiu Costa e Silva, teve apenas 46 segundos. O alargamento da Praia de Copacabana, a morte de Rocky Marciano e o gol de Pel\u00e9 rumo \u00e0 Copa de 1970 receberam maior cobertura. Era a regra do jogo da ditadura. Mas assim nasceu o mais importante programa da TV brasileira.<\/p>\n<p>O notici\u00e1rio tornou-se o carro-chefe da Globo, fundamental na derrota da Tupi. Nas d\u00e9cadas seguintes, foi palco de momentos decisivos e pol\u00eamicos, como a vergonhosa edi\u00e7\u00e3o do debate Collor x Lula em 1989. Passaram pela bancada S\u00e9rgio Chapelin, Celso Freitas, Carlos Nascimento, Lillian Witte Fibe, F\u00e1tima Bernardes, Patr\u00edcia Poeta, Renata Vasconcelos e William Bonner, que se tornaria tamb\u00e9m editor-chefe.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o para Bonner \u00e9 detalhada no segundo volume da trilogia, A Globo &#8211; Concorr\u00eancia (1985-1999). Rodrigues mostra como Evandro Carlos de Andrade, vindo de O Globo, assumiu a dire\u00e7\u00e3o do jornalismo com &#8220;autoridade imperial&#8221; e decidiu renovar a imagem do JN. Bonner, ent\u00e3o \u00e2ncora do Jornal da Globo, foi chamado em 1996 para ocupar o posto deixado por Cid Moreira, e inaugurar um ciclo de moderniza\u00e7\u00e3o e reposicionamento editorial da emissora.<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/aqui\/2025\/09\/02\/bonner-deixa-o-jornal-nacional-e-revela-novos-planos-na-globo\/\">Bonner deixa o Jornal Nacional e revela novos planos na Globo<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Na disputa interna, Carlos Nascimento, Paulo Henrique Amorim e Eliakin Ara\u00fajo, entre outros que haviam ocupado a bancada do JN, ficaram pelo caminho. Bonner assumiu ao lado de Lillian Witte Fibe, logo substitu\u00edda por F\u00e1tima Bernardes, com quem era casado. Inspirado nos apresentadores norte-americanos, o novo modelo exigia improviso e jogo de cintura, rompendo com a solenidade engessada de Cid e Chapelin e, ao mesmo tempo, com a imagem de &#8220;porta-voz&#8221; do regime militar.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, Bonner encarnou o &#8220;\u00e2ncora absoluto&#8221;, herdeiro de uma tradi\u00e7\u00e3o de busca da qualidade e centralidade pol\u00edtica. Nenhum ve\u00edculo de imprensa fechava sua primeira p\u00e1gina antes da escalada do Jornal Nacional, que pautava o que era relevante na vida do pa\u00eds. Com um estilo pr\u00f3prio, que combinava formalidade, simpatia e improviso, Bonner conduziu o jornal JN em momentos que marcaram a hist\u00f3ria pol\u00edtica recente, com intensas coberturas sobre o mensal\u00e3o, a Lava Jato e a ascens\u00e3o de Bolsonaro, entre outros temas que levaram o pa\u00eds ao atual estado de radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Novo ciclo<\/strong><\/p>\n<p>Bonner foi a \u00faltima grande encarna\u00e7\u00e3o da Globo como &#8220;voz de autoridade&#8221;. No relato de Rodrigues, o JN ainda funcionava como agenda di\u00e1ria da na\u00e7\u00e3o. Agora, se despede e em breve passar\u00e1 o bast\u00e3o a C\u00e9sar Tralli, rep\u00f3rter de origem, consolidado no SP1 e no Jornal Hoje, que tamb\u00e9m deixou \u00e0 margem da estrada alguns dos grandes profissionais da emissora. Sua imagem \u00e9 de proximidade com as fontes e agilidade na apura\u00e7\u00e3o da not\u00edcia, em busca de sintonia com a era digital. Diferentemente da autoridade centralizada de Bonner, Tralli ter\u00e1 o desafio de dialogar com p\u00fablicos fragmentados e desconfiados.<\/p>\n<p>O JN sempre foi o cora\u00e7\u00e3o da Globo, mesmo diante da concorr\u00eancia do esporte e das novelas, em prest\u00edgio pol\u00edtico e em receitas comerciais. A emissora, hoje, enfrenta cortes, demiss\u00f5es e a perda de hegemonia para plataformas digitais. Apostar em Tralli \u00e9 uma tentativa de preservar a tradi\u00e7\u00e3o e a credibilidade, mas com uma linguagem nova, coloquial, politicamente menos categ\u00f3rica e mais flex\u00edvel. Da funda\u00e7\u00e3o sob Nogueira e consolida\u00e7\u00e3o na ditadura, a Globo passou por diversas fases: redemocratiza\u00e7\u00e3o com Moreira e Chapelin, moderniza\u00e7\u00e3o nos anos 1990 e a era Bonner, que se encerra agora.<\/p>\n<p>Cada uma dessas fases foi uma tentativa de pacto com a sociedade, em sintonia com as conting\u00eancias pol\u00edticas das suas rela\u00e7\u00f5es com os governos. A sa\u00edda de Bonner encerra o \u00faltimo desses pactos, o da televis\u00e3o como espa\u00e7o central da vida p\u00fablica, aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o ao poder. No terceiro volume de sua trilogia, A Globo &#8211; Metamorfose (1999-2025), rec\u00e9m-publicado, Rodrigues mostra como esse pacto se fragmenta: a centralidade da TV cede lugar \u00e0s bolhas digitais, que radicalizam a pol\u00edtica e corroem a confian\u00e7a nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa.<\/p>\n<p>O JN deixou de ser absoluto, precisa se reinventar como o mediador poss\u00edvel da era das redes sociais. O problema \u00e9 que o eixo da forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica brasileira deixou de ser a Rede Globo, j\u00e1 n\u00e3o tem um endere\u00e7o determinado, est\u00e1 oculto numa nuvem de algoritmos controlados pelas big techs.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Jornal Nacional precisa se reinventar como o mediador da opini\u00e3o p\u00fablica na era das redes sociais. 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