{"id":10710,"date":"2025-10-08T07:11:14","date_gmt":"2025-10-08T10:11:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10710"},"modified":"2025-10-08T07:11:14","modified_gmt":"2025-10-08T10:11:14","slug":"memoria-da-ditadura-dificulta-reducao-das-penas-de-bolsonaro-e-generais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/memoria-da-ditadura-dificulta-reducao-das-penas-de-bolsonaro-e-generais\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria da ditadura dificulta redu\u00e7\u00e3o das penas de Bolsonaro e generais"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A compara\u00e7\u00e3o insistente com a Lei de Anistia de 1979, contudo, tem sido um tiro no p\u00e9. O pa\u00eds presencia solenidades em que o Estado reconhece assassinatos pol\u00edticos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O ato em defesa da anistia para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e demais condenados por tentativa de golpe de Estado, realizado, nesta ter\u00e7a-feira, na Esplanada dos Minist\u00e9rios, demonstra a fragilidade pol\u00edtica da proposta. Batizada de &#8220;caminhada pela anistia&#8221;, a manifesta\u00e7\u00e3o buscava pressionar a C\u00e2mara dos Deputados, onde a chamada &#8220;PEC da dosimetria&#8221; est\u00e1 paralisada no gabinete do relator, deputado Paulinho da For\u00e7a (Solidariedade-SP).<\/p>\n<p>Durante o ato, o senador Fl\u00e1vio Bolsonaro (PL-RJ) tentou animar seus apoiadores: &#8220;N\u00e3o tem sido f\u00e1cil. Assim como ele (Bolsonaro) n\u00e3o baixou a cabe\u00e7a, n\u00f3s n\u00e3o vamos baixar a nossa. Estamos a um passo de conseguir aprovar essa anistia&#8221;. J\u00e1 a deputada Bia Kicis (PL-DF) criticou o abrandamento das penas e rejeitou negocia\u00e7\u00f5es com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF): &#8220;N\u00e3o queremos qualquer coisa. N\u00e3o queremos dosimetria. N\u00f3s queremos Bolsonaro&#8221;.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/10\/7265253-manifestacao-pro-anistia-reune-apoiadores-de-bolsonaro-na-esplanada.html\"><strong>Manifesta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-anistia re\u00fane apoiadores de Bolsonaro na Esplanada<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o insistente com a Lei de Anistia de 1979, contudo, tem sido um tiro no p\u00e9. Em pleno ciclo de revaloriza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria das v\u00edtimas da ditadura, o pa\u00eds presencia solenidades em que o Estado brasileiro reconhece oficialmente assassinatos cometidos por seus agentes. Hoje, o Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e a Comiss\u00e3o Especial sobre Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos realizam, na Faculdade de Direito da USP, a 2\u00aa entrega de certid\u00f5es de \u00f3bito retificadas \u2014 102 ao todo \u2014 com a inscri\u00e7\u00e3o: &#8220;Morte n\u00e3o natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, identificada como dissidente pol\u00edtica por regime ditatorial instaurado em 1964&#8221;. Desde janeiro, por decis\u00e3o do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ), cart\u00f3rios de todo pa\u00eds est\u00e3o emitindo essas certid\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 exatamente 50 anos, o advogado e jornalista Orlando Bomfim Junior, dirigente do antigo PCB e respons\u00e1vel pelo jornal Voz Oper\u00e1ria, foi sequestrado em Vila Isabel e levado para S\u00e3o Paulo, onde foi assassinado com inje\u00e7\u00e3o de matar cavalo e jogado num rio. Seu corpo nunca apareceu. Capixaba de Santa Teresa, radicou-se em Belo Horizonte, onde cursou direito na Universidade Federal de Minas Gerais. Tamb\u00e9m exerceu a profiss\u00e3o de jornalista, tornando-se, ainda jovem, secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o no Estado de Minas. Em 1946, foi eleito vereador em Belo Horizonte. Foi um dos signat\u00e1rios do Manifesto dos Mineiros, em outubro de 1943, documento esse que acelerou a derrubada do Estado Novo.<\/p>\n<p><strong>Feridas reabertas<\/strong><\/p>\n<p>Em 1958, Orlando Bomfim mudou-se para o Rio de Janeiro, onde dirigiu o di\u00e1rio Imprensa Popular e a revista Novos Rumos. Era casado com Sin\u00e9sia de Carvalho Bomfim e pai de seis filhos. Em 8 de outubro de 1975, 17 dias antes da morte de Vladimir Herzog, um filho de Orlando Bomfim recebeu telefonema an\u00f4nimo, em que algum amigo de seu pai comunicava a pris\u00e3o de Orlando e pedia que a fam\u00edlia contratasse um advogado e comunicasse o fato \u00e0 ABI \u2014 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa. Foi impetrado um habeas-corpus em seu favor junto ao Superior Tribunal Militar pelo advogado Humberto Jansen Machado, da ABI.<\/p>\n<p>Em 31 de outubro, a fam\u00edlia recebeu a informa\u00e7\u00e3o, por meio de amigos e de \u00e1reas militares, de que ele estava preso no DOI-Codi\/RJ. Mas, 11 dias depois, o I Ex\u00e9rcito informava que ele n\u00e3o estava e nunca estivera l\u00e1. A resposta de outras \u00e1reas militares seria id\u00eantica, ningu\u00e9m assumia sua pris\u00e3o. De acordo com declara\u00e7\u00f5es do ex-sargento do DOI-Codi\/SP Marival Dias Chaves do Canto, (Veja de 18\/11\/1992), Orlando foi assassinado com uma inje\u00e7\u00e3o para matar cavalos. Foi capturado no Rio de Janeiro pelo DOI-Codi de S\u00e3o Paulo e levado para um c\u00e1rcere na Rodovia Castelo Branco, onde foi executado, sendo seu corpo jogado na represa de Avar\u00e9, no trecho entre a cidade de Avar\u00e9 (SP) e a rodovia Castelo Branco.<\/p>\n<p>Dezessete dias ap\u00f3s seu desaparecimento, o pa\u00eds foi chocado pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, morto sob tortura em 25 de outubro de 1975 nas depend\u00eancias do DOI-Codi paulista. A vers\u00e3o oficial \u2014 suic\u00eddio com um cinto \u2014 caiu por terra gra\u00e7as a testemunhos e \u00e0 persist\u00eancia da sociedade civil. Herzog, que havia retornado da BBC em Londres para trabalhar no Brasil, tornou-se o \u00edcone da luta por verdade e justi\u00e7a. Cinquenta anos depois, um ato inter-religioso na Catedral da S\u00e9 reafirmar\u00e1 seu legado.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/10\/7265288-barroso-admite-que-penas-do-8-1-ficaram-elevadas-e-defende-revisoes.html\"><strong>\u00a0Barroso admite que penas do 8\/1 &#8220;ficaram elevadas&#8221; e defende revis\u00f5es<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Essas rememora\u00e7\u00f5es corroem a tentativa de vitimizar Bolsonaro e equiparar a persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas as condena\u00e7\u00f5es judiciais leg\u00edtimas de envolvidos na tentativa de golpe de oito de janeiro entre os quais quatro generais de ex\u00e9rcito e um almirante de esquada. Diferentemente dos opositores da ditadura, que foram presos, torturados e mortos por lutar pela democracia, o ex-presidente foi julgado com direito a ampla defesa, sob o imp\u00e9rio da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. A mem\u00f3ria da ditadura desmoraliza o argumento da anistia e devolve ao debate p\u00fablico a consci\u00eancia de que democracia e impunidade s\u00e3o incompat\u00edveis. Nesse contexto, at\u00e9 mesmo a &#8220;PEC da dosimetria&#8221; nasce sem legitimidade moral e pol\u00edtica. A defesa da anistia, longe de absolver, reabre feridas que o pa\u00eds ainda tenta cicatrizar.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A compara\u00e7\u00e3o insistente com a Lei de Anistia de 1979, contudo, tem sido um tiro no p\u00e9. 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