{"id":10767,"date":"2025-10-24T06:45:17","date_gmt":"2025-10-24T09:45:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10767"},"modified":"2025-10-24T06:47:00","modified_gmt":"2025-10-24T09:47:00","slug":"assassinato-de-vladimir-herzog-na-tortura-marcou-declinio-da-ditadura-militar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/assassinato-de-vladimir-herzog-na-tortura-marcou-declinio-da-ditadura-militar\/","title":{"rendered":"Assassinato de Vladimir Herzog na tortura marcou decl\u00ednio da ditadura militar"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A lembran\u00e7a do jornalista assassinado \u00e9 um alerta. Denuncia o pre\u00e7o do sil\u00eancio e o perigo da indiferen\u00e7a. Segundo Dom Paulo Evaristo Arns, &#8220;a morte de um homem justo pode mudar o destino de um pa\u00eds&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 cinquenta anos, em 24 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi preso por agentes do DOI-Codi do II Ex\u00e9rcito, em S\u00e3o Paulo. Na manh\u00e3 seguinte, apareceu morto em sua cela, v\u00edtima de tortura. A vers\u00e3o oficial de \u201csuic\u00eddio\u201d \u2014 sustentada por laudos forjados e uma foto grotescamente encenada \u2014 foi rejeitada pela sociedade. O crime, cometido em plena vig\u00eancia do AI-5, rompeu o pacto de sil\u00eancio que sustentava o regime e marcou o in\u00edcio do seu decl\u00ednio.<\/p>\n<p>A brutalidade contra Herzog revelou o que muitos j\u00e1 sabiam, mas poucos ousavam denunciar: o terror de Estado operava de forma sistem\u00e1tica, exterminando opositores pol\u00edticos. Dias antes, o jovem dirigente comunista Jos\u00e9 Montenegro de Lima, da Se\u00e7\u00e3o Juvenil do PCB, havia sido sequestrado e morto. Em 8 de outubro, o jornalista Orlando Bonfim J\u00fanior, editor do jornal clandestino Voz Oper\u00e1ria, membro do Comit\u00ea Central do PCB, sofreu o mesmo destino. Ambos foram assassinados com uma inje\u00e7\u00e3o letal, como outros 10 dirigentes do antigo PCB que &#8220;desapareceram&#8221;. Em janeiro de 1976, seria a vez do oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho, tamb\u00e9m morto sob tortura nas depend\u00eancias do DOI-Codi.<\/p>\n<p>Mas foi a morte de Herzog \u2014 um jornalista conhecido, com atua\u00e7\u00e3o na TV Cultura e na USP, e com vida profissional legal \u2014 que rompeu a muralha de medo. A rea\u00e7\u00e3o foi imediata e ampla. No dia 31 de outubro de 1975, milhares de pessoas lotaram a Catedral da S\u00e9 para um culto ecum\u00eanico celebrado por Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor Jaime Wright, com o apoio decisivo do jornalista Aud\u00e1lio Dantas, ent\u00e3o presidente do Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo. A imagem de uma pra\u00e7a cercada por agentes do Dops e de fi\u00e9is orando em sil\u00eancio ficou gravada como s\u00edmbolo de resist\u00eancia civil \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o nacional obrigou o regime a recuar. Pouco depois, a execu\u00e7\u00e3o de Manoel Fiel Filho levou o presidente Ernesto Geisel a demitir o comandante do II Ex\u00e9rcito, Ednardo D\u2019\u00c1vila Mello, e o chefe do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito, Conf\u00facio Danton de Paula Avelino. Pela primeira vez, o governo militar reconhecia, ainda que de forma indireta, que as execu\u00e7\u00f5es haviam ultrapassado todos os limites. O assassinato de Herzog se tornou, assim, um divisor de \u00e1guas: o decl\u00ednio do regime, com o in\u00edcio do processo de distens\u00e3o lenta e gradual que culminaria na anistia e na redemocratiza\u00e7\u00e3o, com a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves no Col\u00e9gio Eleitoral, em 1985. Foram 10 anos de lutas intensas pela democracia, com sucessivas vit\u00f3rias da oposi\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es consentidas.<\/p>\n<p>O caso Herzog tamb\u00e9m transformou a luta por mem\u00f3ria e justi\u00e7a. Sua vi\u00fava, Clarice Herzog, enfrentou d\u00e9cadas de batalhas judiciais. Em 1978, conseguiu uma senten\u00e7a in\u00e9dita condenando a Uni\u00e3o pela pris\u00e3o, tortura e morte do marido \u2014 decis\u00e3o confirmada anos depois pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, que responsabilizou o Estado brasileiro por n\u00e3o investigar e punir os autores. Em 2013, o atestado de \u00f3bito foi corrigido, substituindo \u201casfixia mec\u00e2nica por enforcamento\u201d por \u201cles\u00f5es e maus-tratos\u201d.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/brasil\/2025\/06\/7184951-estado-indeniza-familia-pela-tortura-e-o-assassinato-de-herzog.html\"><strong>Estado indeniza fam\u00edlia pela tortura e o assassinato de Herzog<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>Resgate pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Cinco d\u00e9cadas depois, as homenagens multiplicam-se. A Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI), da qual tenho a honra de integrar o Conselho Deliberativo, instituiu 2025 como o Ano Vladimir Herzog, refor\u00e7ando o dever de lembrar. O Instituto Vladimir Herzog organiza atos, publica\u00e7\u00f5es e exposi\u00e7\u00f5es, inclusive a recria\u00e7\u00e3o do culto inter-religioso na Catedral da S\u00e9. \u00c9 um movimento para que as novas gera\u00e7\u00f5es saibam o que aconteceu. A mem\u00f3ria \u00e9 o ant\u00eddoto contra o esquecimento e o autoritarismo. Hoje, a idade m\u00e9dia na C\u00e3mara dos Deputados \u00e9 de 49 anos, ou seja, a maioria nasceu depois do caso Herzog.<\/p>\n<p>As homenagens incluem o lan\u00e7amento do document\u00e1rio A Vida de Vlado \u2014 50 anos do Caso Herzog, dirigido por Sim\u00e3o Schols e narrado por Chico Pinheiro, que estreia na 49\u00aa Mostra Internacional de Cinema, na Cinemateca Brasileira. O filme reconstr\u00f3i sua trajet\u00f3ria pessoal e profissional \u2014 da inf\u00e2ncia na antiga Iugosl\u00e1via, fugindo do nazismo, at\u00e9 o jornalismo engajado e a defesa da liberdade de imprensa. Depoimentos de colegas e ex-presos pol\u00edticos, como Paulo Markun, Dilea Frate, S\u00e9rgio Gomes e o m\u00e9dico Ubiratan de Paula Santos, revelam o impacto de sua morte e a luta de Clarice Herzog para expor a verdade.<\/p>\n<p>O assassinato de Vlado tamb\u00e9m inspirou o movimento pela transforma\u00e7\u00e3o dos antigos centros de tortura em memoriais p\u00fablicos. O pr\u00e9dio do DOI-Codi paulista, no bairro do Para\u00edso, foi tombado e reconhecido como Ponto de Mem\u00f3ria pelo Ibram. A chamada Casa da Morte, em Petr\u00f3polis, passa por processo semelhante. Trata-se de uma pol\u00edtica de mem\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 apenas homenagem, mas um compromisso com a democracia e com o futuro.<\/p>\n<p>Nas pr\u00f3ximas ter\u00e7a-feira, ser\u00e1 vez da Associa\u00e7\u00e3o Scholem Aleichem (ASA), no Rio de Janeiro, iniciar um semin\u00e1rio sobre a resist\u00eancia democr\u00e1tica em homenagem a Herzog. Essas iniciativas se tornam ainda mais relevantes num momento em que setores pol\u00edticos buscam relativizar o golpe de 1964 e reabilitar o discurso autorit\u00e1rio. \u00c9 indecente comparar a anistia rec\u00edproca de 1979, que blindou torturadores e assassinos do regime, com as tentativas atuais de conceder perd\u00e3o aos respons\u00e1veis pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Aqueles que hoje pedem anistia s\u00e3o, muitas vezes, os mesmos que exaltam os algozes de Herzog, Montenegro, Bomfim e Fiel.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/10\/7277634-blindagem-a-eduardo-bolsonaro-expoe-crise-etica-na-camara.html\"><strong>\u00a0Blindagem a Eduardo Bolsonaro exp\u00f5e crise \u00e9tica na C\u00e2mara<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A lembran\u00e7a de Vladimir Herzog \u00e9 um alerta. Ela denuncia o pre\u00e7o do sil\u00eancio e o perigo da indiferen\u00e7a. Como escreveu Dom Paulo Evaristo Arns, \u201ca morte de um homem justo pode mudar o destino de um pa\u00eds\u201d. Herzog foi esse homem. Cinquenta anos depois, o corpo de Vlado numa cela de uma unidade militar continua a nos interpelar, como s\u00edmbolo do jornalismo livre e da dignidade humana. A democracia s\u00f3 se sustenta quando a verdade seja dita e a mem\u00f3ria preservada.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A lembran\u00e7a do jornalista assassinado \u00e9 um alerta. Denuncia o pre\u00e7o do sil\u00eancio e o perigo da indiferen\u00e7a. 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