{"id":10780,"date":"2025-10-29T06:23:30","date_gmt":"2025-10-29T09:23:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10780"},"modified":"2025-10-29T06:23:30","modified_gmt":"2025-10-29T09:23:30","slug":"a-territorializacao-do-crime-organizado-no-rio-e-uma-patologia-social-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/a-territorializacao-do-crime-organizado-no-rio-e-uma-patologia-social-e-politica\/","title":{"rendered":"A territorializa\u00e7\u00e3o do crime organizado no Rio \u00e9 uma patologia social e politica"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Tr\u00edade territ\u00f3rio-sociabilidade-economia il\u00edcita \u00e9 o eixo estruturante do poder paralelo no estado. Eis a anatomia do patol\u00f3gico: o crime como forma de organiza\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, o Rio de Janeiro conviveu com a ideia de que a viol\u00eancia urbana \u00e9 parte da paisagem. A naturaliza\u00e7\u00e3o das armas, dos tiroteios, das rotas interditadas e das mortes di\u00e1rias se consolidou como uma anomalia que deixou de chocar \u2014 e, como ensinou \u00c9mile Durkheim, fundador da sociologia moderna, o momento em que o patol\u00f3gico se torna normal \u00e9 o instante em que uma sociedade come\u00e7a a adoecer profundamente.<\/p>\n<p>A territorializa\u00e7\u00e3o do crime no Rio n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a p\u00fablica: \u00e9 uma patologia social e pol\u00edtica, resultado da corros\u00e3o prolongada dos mecanismos de solidariedade e da incapacidade das institui\u00e7\u00f5es de exercerem, de forma integrada, o monop\u00f3lio leg\u00edtimo da for\u00e7a. O ex-deputado Alfredo Sirkis, pioneiro do movimento ambientalista e ex-militante da resist\u00eancia armada, diagnosticou o fen\u00f4meno h\u00e1 d\u00e9cadas: &#8220;Os traficantes t\u00eam uma topografia adequada, uma base social enraizada e uma fonte inesgot\u00e1vel de financiamento&#8221;.<\/p>\n<p>A tr\u00edade territ\u00f3rio-sociabilidade-economia il\u00edcita permanece como o eixo estruturante do poder paralelo no Rio. \u00c9 a anatomia do patol\u00f3gico: o crime como forma de organiza\u00e7\u00e3o social e o Estado como presen\u00e7a intermitente, frequentemente infiltrado no aparelho de seguran\u00e7a e na pol\u00edtica. N\u00e3o existe crime organizado sem a participa\u00e7\u00e3o de agentes p\u00fablicos.<\/p>\n<p>O outro lado da megaopera\u00e7\u00e3o nos complexos do Alem\u00e3o e da Penha, que mobilizou 2,5 mil agentes e deixou 64 mortos e 81 presos, \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o extrema dessa disfun\u00e7\u00e3o. O governador Cl\u00e1udio Castro (PL) a definiu como &#8220;a maior opera\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a da hist\u00f3ria do Rio&#8221; e classificou os traficantes como &#8220;narcoterroristas&#8221;. O emprego de blindados, helic\u00f3pteros e drones exp\u00f4s uma l\u00f3gica de guerra interna, em que o inimigo n\u00e3o \u00e9 um ex\u00e9rcito estrangeiro, mas cidad\u00e3os brasileiros. A rea\u00e7\u00e3o das fac\u00e7\u00f5es foi imediata: bloqueios de vias, \u00f4nibus queimados e o colapso da mobilidade urbana. O Rio viveu um dia de medo e caos.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/10\/7280828-guerra-no-rio-megaoperacao-se-torna-a-mais-letal-da-historia-da-cidade.html\"><strong>Megaopera\u00e7\u00e3o se torna a mais letal da hist\u00f3ria da cidade<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A topografia da viol\u00eancia \u2014 becos intransit\u00e1veis, casas irregulares, zonas de exclus\u00e3o \u2014 formou uma geografia pr\u00f3pria: os &#8220;complexos&#8221; s\u00e3o &#8220;cidades dentro da cidade&#8221;, onde o Estado perdeu soberania. O medo tornou-se pol\u00edtica de controle. Em As Regras do M\u00e9todo Sociol\u00f3gico, Durkheim afirma que toda sociedade convive com um certo grau de crime, o que ajuda a delimitar a norma e refor\u00e7ar a coes\u00e3o moral. O problema surge quando o desvio se torna regra e o crime, institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Rio, a viol\u00eancia \u00e9 um modo de regula\u00e7\u00e3o social: o tr\u00e1fico imp\u00f5e leis, administra conflitos e oferece &#8220;seguran\u00e7a&#8221; a quem o Estado abandona. A anomia \u2014 aus\u00eancia de normas comuns \u2014 d\u00e1 lugar ao medo como norma. O outro lado dessa moeda s\u00e3o as mil\u00edcias, formadas por policiais e ex-policiais, que emulam com os traficantes o controle do comercio local e da economia informal. \u00c0s vezes, a pol\u00edcia entra em campo quando a milicia perde territ\u00f3rio para os traficantes.<\/p>\n<p><strong>Degrada\u00e7\u00e3o moral<\/strong><\/p>\n<p>O confronto de ontem, com drones lan\u00e7ando bombas e barricadas em dezenas de bairros, mostrou que o Comando Vermelho (CV) adquiriu capacidade simb\u00f3lica e operacional de desafiar o Estado. Ainda assim, o debate pol\u00edtico seguiu o roteiro conhecido: o governador alegou enfrentar o crime &#8220;sozinho&#8221; e culpou o governo federal. O Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a rebateu, listando 11 solicita\u00e7\u00f5es atendidas, o envio da For\u00e7a Nacional, repasses de R$ 474 milh\u00f5es e 10 vagas em pres\u00eddios federais para chefes de fac\u00e7\u00f5es. Desde 2023, a Uni\u00e3o contabiliza 178 opera\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal (PF) e da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal (PRF), com 210 pris\u00f5es, 10 toneladas de drogas e 190 armas apreendidas.<\/p>\n<p>O embate p\u00fablico entre os dois n\u00edveis de governo revela a fragmenta\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico. A seguran\u00e7a p\u00fablica transformou-se em arena de disputa entre entes federativos. A coopera\u00e7\u00e3o cede \u00e0 rivalidade. O Estado se divide diante do crime. O ministro da Justi\u00e7a, Ricardo Lewandowski, bem que tentou implantar o Sistema \u00danico de Seguran\u00e7a P\u00fablica (Susp), mas os governadores de S\u00e3o Paulo, Tarc\u00edsio de Freitas (Republicanos), e de Goi\u00e1s, Ronaldo Caiado (Uni\u00e3o), principalmente, comandaram a resist\u00eancia \u00e0 centralidade da Uni\u00e3o no combate ao tr\u00e1fico de drogas, com o apoio de Claudio Castro.<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/10\/7280927-guerra-no-rio-comitiva-federal-se-reune-com-castro.html\"><strong>Comitiva federal se re\u00fane com Castro<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A pesquisa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF (Geni) e do Instituto Fogo Cruzado mostra que o CV ampliou em 8,4% seu controle territorial, entre 2022 e 2023, dominando 51,9% das \u00e1reas sob poder criminoso, \u00e0 frente das mil\u00edcias. S\u00e3o mais de 240 km\u00b2 de territ\u00f3rio regido por regras extralegais \u2014 uma redistribui\u00e7\u00e3o informal de soberania dentro da metr\u00f3pole. A patologia n\u00e3o \u00e9 apenas criminal, mas institucional e moral.<\/p>\n<p>&#8220;Narcoterrorismo&#8221; e &#8220;guerra justa&#8221; s\u00e3o narrativas opostas ao racioc\u00ednio. O fechamento de escolas, a paralisia do transporte e o p\u00e2nico coletivo s\u00e3o sinais de uma sociedade em exaust\u00e3o c\u00edvica. Enquanto o poder p\u00fablico atuar apenas de modo reativo, o tr\u00e1fico continuar\u00e1 a ocupar o v\u00e1cuo da aus\u00eancia de pol\u00edticas de habita\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e mobilidade.<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao crime organizado \u00e9 o \u00faltimo est\u00e1gio da degrada\u00e7\u00e3o moral. Durkheim via no patol\u00f3gico um alerta de que uma sociedade precisa se reorganizar. O Rio chegou a esse ponto. Fac\u00e7\u00f5es e mil\u00edcias j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apenas organiza\u00e7\u00f5es criminosas \u2014 s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es paralelas que imp\u00f5em regras, exploram economias e moldam comportamentos. Sem falar na crescente influ\u00eancia pol\u00edtica que j\u00e1 exercem.<\/p>\n<p>A megaopera\u00e7\u00e3o do Alem\u00e3o e da Penha, embora justificada pela necessidade de conter o avan\u00e7o do CV, exp\u00f5e uma verdade: o Estado luta para reconquistar territ\u00f3rios que nunca deveria ter perdido.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00edade territ\u00f3rio-sociabilidade-economia il\u00edcita \u00e9 o eixo estruturante do poder paralelo no estado. 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