{"id":10784,"date":"2025-10-30T07:05:22","date_gmt":"2025-10-30T10:05:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10784"},"modified":"2025-11-02T06:57:20","modified_gmt":"2025-11-02T09:57:20","slug":"claudio-castro-assume-sua-necropolitica-com-o-conceito-de-narcoterrorismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/claudio-castro-assume-sua-necropolitica-com-o-conceito-de-narcoterrorismo\/","title":{"rendered":"Cl\u00e1udio Castro assume sua necropol\u00edtica com o conceito de &#8220;narcoterrorismo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O termo &#8220;narcoterrorista&#8221; desloca o crime do \u00e2mbito penal para campo da seguran\u00e7a nacional. \u00c9 importado da doutrina norte-americana da &#8220;narcoguerra&#8221;.\u00a0usada na Col\u00f4mbia e no M\u00e9xico para o emprego das For\u00e7as Armadas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O governador do Rio de Janeiro, Cl\u00e1udio Castro, rompeu de forma expl\u00edcita com os paradigmas de seguran\u00e7a p\u00fablica estabelecidos pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Ao comentar a Opera\u00e7\u00e3o Conten\u00e7\u00e3o, deflagrada no Complexo do Alem\u00e3o e da Penha \u2014 a mais letal da hist\u00f3ria do estado, com 121 mortos \u2014, Castro sintetizou os resultados do conceito de narcoterrorismo: &#8220;Temos muita tranquilidade de defendermos tudo que fizemos ontem. Queria me solidarizar com as fam\u00edlias dos quatro guerreiros que deram a vida para salvar a popula\u00e7\u00e3o. De v\u00edtima, ontem, l\u00e1, s\u00f3 tivemos esses policiais.&#8221;<\/p>\n<p>A frase \u00e9 mais que uma defesa corporativa. Ao tratar os mortos como &#8220;narcoterroristas&#8221;, Castro inaugura no Brasil uma ret\u00f3rica que substitui a seguran\u00e7a p\u00fablica pela l\u00f3gica da guerra interna. Em nome da &#8220;defesa da popula\u00e7\u00e3o&#8221;, o Estado reivindica o poder de decidir quais vidas s\u00e3o protegidas e quais podem ser eliminadas. A opera\u00e7\u00e3o de &#8220;cerco e aniquilamento&#8221;, do ponto de vista militar, foi bem-sucedida. Mas n\u00e3o desarticula o tr\u00e1fico de drogas nem recupera o territ\u00f3rio, porque a viol\u00eancia volta \u00e0 &#8220;normalidade&#8221; e, geralmente, as mil\u00edcias ocupam o espa\u00e7o dos traficantes no controle da economia informal.<\/p>\n<p>O uso do termo &#8220;narcoterrorista&#8221; desloca o problema do crime do \u00e2mbito penal para campo da seguran\u00e7a nacional. \u00c9 uma palavra importada da doutrina norte-americana da &#8220;narcoguerra&#8221;, usada na Col\u00f4mbia e no M\u00e9xico para justificar o emprego das For\u00e7as Armadas e a suspens\u00e3o de garantias legais. Quando Castro adota esse enquadramento, ele rompe a fronteira entre direito e exce\u00e7\u00e3o. A favela deixa de ser territ\u00f3rio civil e passa a ser tratada como teatro de opera\u00e7\u00f5es militares. A consequ\u00eancia imediata \u00e9 a militariza\u00e7\u00e3o ampliada da pol\u00edtica de seguran\u00e7a, legitimando mortes em massa e esvaziando o controle judicial.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/10\/7281704-governadores-de-oposicao-se-reunem-no-rio-para-articular-aprovacao-de-pl-que-equipara-faccoes-a-terroristas.html\"><strong>Governadores de oposi\u00e7\u00e3o articular aprova\u00e7\u00e3o de PL que equipara fac\u00e7\u00f5es a terroristas<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O conceito de &#8220;narcoterrorismo&#8221; n\u00e3o existe no ordenamento jur\u00eddico brasileiro. Seu uso pol\u00edtico \u00e9 uma manobra simb\u00f3lica, que transforma o criminoso em inimigo absoluto e o Estado em autoridade soberana sobre a vida e a morte. Obviamente, \u00e9 uma ruptura de acordo com o ide\u00e1rio da extrema-direita brasileira, que Cl\u00e1udio Castro (PL) representa. Trata-se, como aponta o soci\u00f3logo Pedro Cl\u00e1udio Cunca Bocayuva Cunha, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de uma forma de necropol\u00edtica: &#8220;O governo da morte como instrumento de poder&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo Bocayuva, conceitualmente, a necropol\u00edtica \u00e9 o regime em que &#8220;o medo e a crueldade se tornam dispositivos de governo&#8221;. No caso do Rio, o &#8220;narcoterrorismo&#8221; fornece a gram\u00e1tica perfeita para que o governo adote a viol\u00eancia extrema nos confrontos com os traficantes, num contexto de guerra aberta na qual n\u00e3o h\u00e1 &#8220;suspeitos&#8221; nem &#8220;cidad\u00e3os em conflito com a lei&#8221;: s\u00e3o inimigos mesmo, que precisam ser fisicamente eliminados, em confrontos diretos e, muitas vezes, execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias. Com amplo apoio popular, \u00e9 uma forma de combate que elimina qualquer possibilidade de direito.<\/p>\n<p><strong>Cartografia da morte<\/strong><\/p>\n<p>O balan\u00e7o da Defensoria P\u00fablica do Rio de Janeiro n\u00e3o deixa d\u00favida do \u00eaxito da opera\u00e7\u00e3o, do ponto de vista da letalidade: 117 civis mortos para quatro agentes do Estado. Para o governador, s\u00f3 h\u00e1 quatro v\u00edtimas \u2014 os policiais. As outras mortes s\u00e3o tratadas como estat\u00edsticas colaterais, sem direitos a serem preservados. \u00c9 a tradu\u00e7\u00e3o literal da necropol\u00edtica: o Estado n\u00e3o apenas mata, mas escolhe quem merece ser chorado.<\/p>\n<p><em>Leia mais:\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/10\/7281751-guerra-no-rio-cidade-conta-corpos-da-mais-letal-acao-policial-do-pais.html\"><strong>Rio conta corpos da mais letal a\u00e7\u00e3o policial do pa\u00eds<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Bocayuva chama isso de &#8220;cartografia da morte&#8221; \u2014 uma geografia social em que o territ\u00f3rio perif\u00e9rico e o corpo negro s\u00e3o administrados como zonas de exce\u00e7\u00e3o. A militariza\u00e7\u00e3o urbana, a naturaliza\u00e7\u00e3o da crueldade e a aus\u00eancia de pol\u00edticas de mem\u00f3ria e repara\u00e7\u00e3o formam o trip\u00e9 desse poder necropol\u00edtico.<\/p>\n<p>Enquanto Castro exibia orgulho, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva reagiu com perplexidade e indigna\u00e7\u00e3o. Em viagem oficial ao Sudeste Asi\u00e1tico, foi informado da opera\u00e7\u00e3o apenas ao retornar ao Brasil. Reuniu-se de emerg\u00eancia com seus ministros, &#8220;estarrecido&#8221; com o n\u00famero de mortos e com o fato de o governo federal n\u00e3o ter sido avisado. O ministro da Justi\u00e7a, Ricardo Lewandowski, foi enviado ao Rio para acompanhar a crise e cobrar explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O contraste entre o discurso de Castro e a rea\u00e7\u00e3o de Lula simboliza duas concep\u00e7\u00f5es opostas de Estado: uma que se ancora na l\u00f3gica da exce\u00e7\u00e3o, outra na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Quando o governador diz &#8220;ou soma no combate \u00e0 criminalidade ou suma&#8221;, ele n\u00e3o apenas desafia o governo federal \u2014 nega a pr\u00f3pria ideia de pol\u00edtica como espa\u00e7o de media\u00e7\u00e3o, substituindo o di\u00e1logo pela for\u00e7a. Por \u00f3bvio, n\u00e3o faz isso por acaso.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma disputa no imagin\u00e1rio da sociedade pela bandeira de ordem, que o governo federal tenta recuperar com a PEC do Sistema \u00danico de Seguran\u00e7a P\u00fablica (SUSP), que endurece as penas para os chef\u00f5es do tr\u00e1fico, encalhada na C\u00e2mara por press\u00e3o dos governadores de oposi\u00e7\u00e3o, entre os quais Castro.<\/p>\n<p>Na teoria de Achille Mbembe, autor do conceito, a necropol\u00edtica define o poder soberano como aquele que decide &#8220;quem deve morrer e quem pode viver&#8221;. No Rio, Cl\u00e1udio Castro assumiu essa prerrogativa de modo expl\u00edcito, revestido de legitimidade moral e linguagem popular. O &#8220;narcoterrorista&#8221; \u00e9 um ser fora da lei, cuja elimina\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato heroico e patri\u00f3tico, onde as favelas e comunidades perif\u00e9ricas se confundem com o campo de batalha. \u00c9 o mesmo mecanismo simb\u00f3lico que sustentou a guerra suja na Col\u00f4mbia e a guerra perdida no M\u00e9xico.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O termo &#8220;narcoterrorista&#8221; desloca o crime do \u00e2mbito penal para campo da seguran\u00e7a nacional. \u00c9 importado da doutrina norte-americana da &#8220;narcoguerra&#8221;.\u00a0usada na Col\u00f4mbia e no M\u00e9xico para o emprego das For\u00e7as Armadas O governador do Rio de Janeiro, Cl\u00e1udio Castro, rompeu de forma expl\u00edcita com os paradigmas de seguran\u00e7a p\u00fablica estabelecidos pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. 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