{"id":10788,"date":"2025-10-31T06:28:16","date_gmt":"2025-10-31T09:28:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=10788"},"modified":"2025-10-31T06:28:16","modified_gmt":"2025-10-31T09:28:16","slug":"lula-corre-atras-do-prejuizo-depois-de-megaoperacao-contra-traficantes-no-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/lula-corre-atras-do-prejuizo-depois-de-megaoperacao-contra-traficantes-no-rio\/","title":{"rendered":"Lula corre atr\u00e1s do preju\u00edzo depois de megaopera\u00e7\u00e3o contra traficantes no Rio"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Cl\u00e1udio Castro apresentou-se como um governador &#8220;em guerra&#8221;, cercado por armas e cad\u00e1veres, e retratou sua a\u00e7\u00e3o como defesa do &#8220;povo abandonado pelo Estado&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A megaopera\u00e7\u00e3o policial realizada pelo governo do Rio de Janeiro, sob comando de Cl\u00e1udio Castro, exp\u00f4s o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva a uma das situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas mais delicadas de seu terceiro mandato. Retornando da Mal\u00e1sia, onde havia participado de uma c\u00fapula diplom\u00e1tica e se reunido com Donald Trump, Lula foi surpreendido por uma opera\u00e7\u00e3o que resultou em mais de 120 mortos \u2014 o maior n\u00famero da hist\u00f3ria do pa\u00eds \u2014 e reacendeu a tens\u00e3o entre o discurso federal de respeito aos direitos humanos e a escalada de combate ao &#8220;narcoterrorismo&#8221; defendida por governos estaduais e for\u00e7as de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>O governador fluminense n\u00e3o apenas conduziu uma opera\u00e7\u00e3o de grande envergadura militar, mas transformou-a em ato pol\u00edtico. A reuni\u00e3o de governadores da oposi\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, Nesta quinta-feira, sinaliza que a pauta da seguran\u00e7a p\u00fablica, sens\u00edvel e popular, foi apropriada pela oposi\u00e7\u00e3o como eixo de confronto direto com o governo federal. A proposta de tratar fac\u00e7\u00f5es, como o Comando Vermelho e o PCC, como organiza\u00e7\u00f5es terroristas refor\u00e7a essa guinada discursiva, buscando ocupar o espa\u00e7o deixado pela aus\u00eancia de maior protagonismo federal na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Cl\u00e1udio Castro apresentou-se como um governador &#8220;em guerra&#8221;, cercado por armas e cad\u00e1veres, e retratou sua a\u00e7\u00e3o como defesa do &#8220;povo abandonado pelo Estado&#8221;. Sua ret\u00f3rica, &#8220;ou soma, ou suma&#8221;, n\u00e3o foi casual: tra\u00e7a uma fronteira entre os que combatem o crime e os que, em nome dos direitos humanos, supostamente seriam coniventes com ele. A narrativa foi absorvida por governadores do eixo Sul-Sudeste que enxergam na crise fluminense uma vitrine eleitoral e uma trincheira ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Surpreendido e, sem instrumentos de coordena\u00e7\u00e3o imediata, Lula reagiu apenas dois dias depois, sancionando uma lei de endurecimento penal de autoria do senador Sergio Moro (Uni\u00e3o-PR), o ex-juiz da Lava-Jato que o condenou \u00e0 pris\u00e3o. A medida cria os crimes de &#8220;obstru\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es contra o crime organizado&#8221; e &#8220;conspira\u00e7\u00e3o para obstru\u00e7\u00e3o&#8221; e foi publicada no Di\u00e1rio Oficial desta quinta-feira, quando poderia ter sido sancionada antes da viagem de Lula.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/10\/7281864-lula-sanciona-lei-que-mira-o-coracao-do-crime-organizado.html\"><strong>Lula sanciona lei que mira o cora\u00e7\u00e3o do crime organizado<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Advers\u00e1rio direto de Moro, s\u00edmbolo da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, Lula foi pragm\u00e1tico. Entretanto, o Pal\u00e1cio do Planalto corre atr\u00e1s do preju\u00edzo, tenta recuperar espa\u00e7o diante de uma agenda que foi capturada pela oposi\u00e7\u00e3o. Lula e o ministro da Justi\u00e7a, Ricardo Lewandowski, foram coadjuvantes de um epis\u00f3dio que mobilizou a m\u00eddia internacional, dividiu o pa\u00eds e colocou o tema da seguran\u00e7a de volta ao centro da disputa pol\u00edtico-ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Desde 2003, Lula tenta equilibrar uma vis\u00e3o social de seguran\u00e7a \u2014 baseada em preven\u00e7\u00e3o, cidadania e inclus\u00e3o \u2014 com a press\u00e3o por medidas repressivas. A opera\u00e7\u00e3o no Rio, por\u00e9m, imp\u00f4s uma saia justa: diante da imagem de 120 mortos, o presidente precisava escolher entre condenar o m\u00e9todo ou reconhecer a gravidade do inimigo. Optou por uma resposta amb\u00edgua: &#8220;Precisamos atingir a espinha dorsal do tr\u00e1fico sem colocar policiais, crian\u00e7as e fam\u00edlias inocentes em risco&#8221;. Tenta conciliar duas agendas que se op\u00f5em: a humanista e a militarizada.<\/p>\n<p><strong>Protagonismo<\/strong><\/p>\n<p>O problema \u00e9 que, no plano pol\u00edtico, o discurso da pondera\u00e7\u00e3o raramente vence o da for\u00e7a quando o narcotr\u00e1fico \u00e9 um fator catalisador das opini\u00f5es. A exibi\u00e7\u00e3o de armas e cad\u00e1veres valoriza quem demonstra ter o controle, no caso, Cl\u00e1udio Castro. Diante da hesita\u00e7\u00e3o de Lula, o governador fluminense emergiu como &#8220;homem da a\u00e7\u00e3o&#8221;, enquanto o presidente parecia distante do problema.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o foi duramente criticada pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU e por organiza\u00e7\u00f5es brasileiras, que a classificaram como &#8220;chacina de Estado&#8221;. A aus\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es sobre as c\u00e2meras corporais, a ado\u00e7\u00e3o do &#8220;muro do Bope&#8221; e a alta letalidade colocam o Brasil sob escrut\u00ednio internacional. Para um governo que se esfor\u00e7a para reconstruir a imagem do pa\u00eds como defensor dos direitos humanos \u2014 e que planeja sediar a COP30 sob a bandeira da sustentabilidade e da inclus\u00e3o \u2014, \u00e9 uma p\u00e9ssima situa\u00e7\u00e3o. O Itamaraty prega o &#8220;multilateralismo dos direitos&#8221;, e a opera\u00e7\u00e3o afronta par\u00e2metros definidos pelo Supremo Tribunal Federal (ADPF das Favelas).<\/p>\n<p><em>Leia mais:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2025\/10\/7282482-ideologia-distorce-o-debate-da-seguranca.html\"><strong>&#8220;Ideologia distorce o debate da seguran\u00e7a&#8221;<\/strong><\/a><\/p>\n<p>A express\u00e3o &#8220;narcoterrorismo&#8221; \u2014 at\u00e9 ent\u00e3o restrita a c\u00edrculos de seguran\u00e7a \u2014 ganhou centralidade no debate nacional. Ao propor que as fac\u00e7\u00f5es sejam tratadas como organiza\u00e7\u00f5es terroristas, a oposi\u00e7\u00e3o tenta redefinir o inimigo interno e criar um consenso repressivo. A estrat\u00e9gia tem inspira\u00e7\u00e3o expl\u00edcita na pol\u00edtica trumpista de &#8220;law and order&#8221;, refor\u00e7ada pela aproxima\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre Castro, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e a direita norte-americana.<\/p>\n<p>Para Lula, a narrativa \u00e9 perigosa. Ao fundir criminalidade com terrorismo, o discurso desloca o debate da seguran\u00e7a para o campo da guerra \u2014 em que a l\u00f3gica do direito \u00e9 substitu\u00edda pela da exce\u00e7\u00e3o. Se o governo federal adere a esse enquadramento, legitima a pol\u00edtica do confronto e abdica da agenda dos direitos humanos; se a rejeita, \u00e9 acusado de proteger bandidos.<\/p>\n<p>O governo ainda tenta articular a aprova\u00e7\u00e3o da PEC do Sistema \u00danico de Seguran\u00e7a P\u00fablica (SUSP), por\u00e9m, o projeto est\u00e1 sendo sequestrado pela oposi\u00e7\u00e3o. A resist\u00eancia dos governadores \u00e0 centraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de seguran\u00e7a pela Uni\u00e3o enfraquece o projeto e impede a coordena\u00e7\u00e3o nacional que o Planalto defende. No v\u00e1cuo deixado pela falta de protagonismo federal, os estados ocupam a cena com opera\u00e7\u00f5es espetaculares, legitimadas por um sentimento de medo coletivo, com licen\u00e7a para matar.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00e1udio Castro apresentou-se como um governador &#8220;em guerra&#8221;, cercado por armas e cad\u00e1veres, e retratou sua a\u00e7\u00e3o como defesa do &#8220;povo abandonado pelo Estado&#8221; A megaopera\u00e7\u00e3o policial realizada pelo governo do Rio de Janeiro, sob comando de Cl\u00e1udio Castro, exp\u00f4s o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva a uma das situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas mais delicadas de seu terceiro mandato. 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